Colaboradores Conto Hellen Araújo

Francisca Maria de Jesus

Foto: Arquivo público de Viçosa-Alagoas

Por Hellen Araújo – 28/02/2022

Quando cheguei para minha última visita ao museu do Cândido, me restava poucas esperanças de encontrar os arquivos que precisava para minha pesquisa de mestrado em Sociologia, sobre as transformações das relações amoroso-sexuais nos espaços de divertimento em Viçosa – AL. Existia uma tensão entre mim e o proprietário do museu. Ele sempre mostrava as pastas referente às contribuições da sua tradicional família, mas estava interessada em outros sujeitos, especificamente mulheres negras.

Iniciamos um diálogo, ou melhor, ele começou uma palestra sobre como seus parentes eram brilhantes e colaboraram para construção da cidade, sendo homenageados com nomes de ruas e prédios públicos no município. Fiquei pensando, qual seria seus antepassados, porque tínhamos Rua do Brejo, Rua do Sapinho, Rua das Pedrinhas… Meus pensamentos causaram uma incontrolável e gostosa gargalhada, onde fui logo sendo questionada: – “Letícia Maria de Jesus, qual o motivo dos risos?” Disfarcei, dizendo que estava em puro êxtase e com uma enorme felicidade, pela oportunidade de analisar esses documentos, além de suas palavras serem contagiantes.

Diante de tantos elogios, ele foi logo abrindo os dentes de contentamento com minhas palavras e continuou com seu discurso, mas dessa vez, ainda mais acalorado. Depois de algumas horas entediada, resolvi ir embora. Estava com um sentimento de frustração por dentro, como iria continuar com minha pesquisa? Porém, não aguentei mais aquela ladainha de exaltação, só me restava partir.

Quando estava chegando na sala de visita em direção a porta, tropecei em um objeto qualquer. Como uma maneira de proteção de uma possível queda, sentei no sofá, o que consequentemente induz o meu olhar para frente, onde enxerguei uma pasta azul e iluminada debaixo de uma escrivaninha, fiquei estremecida. Meu corpo negro e franzino perdeu as forças e não conseguia reagir, apenas seguia em direção ao seu brilho. À segurei com as minhas duas mãos, e ouvi do proprietário: – Aí só tem besteiras, se quiser, vou te mostrar outras. Fingi que não ouvi, e segui com a minha rota, nos seguintes questionamentos: Como assim, essa pasta? Já havia dias que estava sonhando com esse objeto, não fazia sentido, ou fazia?

Meu corpo não parava de estremecer, era uma tentativa de segurar o meu choro e abrir esse objeto, mas finalmente quando olhei para dentro, não aguentei. Vó Maria Cabelão estava lá, sua fotografia sentada na Praça do Cinema, como o primeiro arquivo de sucessivos outros documentos, que mudariam positivamente os rumos da minha investigação sociológica.

Francisca Maria de Jesus era o seu nome no registro, mas era conhecida popularmente na cidade, como Maria Cabelão. Tinha esse apelido, porque seu cabelo era grande e bonito. Na imagem, ele se encontra bem pequenininho, essa foi a última vez que cortou, ou melhor, cortaram na escola. Depois desse evento fatídico, vóinha nunca deixou encostarem nos seus fios, nem para tirar as pontas ressecadas.

Mas não era apenas reconhecida pelo seu cabelo. Na família, por exemplo, era famoso por ser aperreada e viver com pressa. Teve pressa para nascer, caminhar e aprender a ler. A única coisa que não tinha pressa, era para realizar os serviços domésticos. Desde criança sempre conseguia dar um jeitinho de escapar. Mas também, a caçula de doze irmãos, não era difícil ficar sem fazer nada em casa.

No seu tempo livre vivia lendo ou escrevendo, onde aprendeu na infância, graças a Dona Katarina Vilela. Katarina, mas conhecida como a Viúva do Delegado, residia sozinha em um casarão localizado na Praça Apolinário Rebelo, inclusive, esse é nome oficial onde vóinha foi fotografada. Katarina, era uma mulher amarga, não pela saudade do seu marido, desse nunca desceu uma lágrima, mas pela partida dos seus dois filhos, que foram estudar Direito no Rio de Janeiro.
O que aproximou ambas foram os desaforos. A madame tentava dar ordens a filha de sua lavadeira, mas não tinha sucesso, porque vóinha sempre fingia surdez. Katarina chamava tanto, que desistia. Isso poderia até se tornar uma rixa entre as duas, mas virou o laço de conexão, porque vó era a única que não sentia dó de sua solidão.

A viúva do delegado, se afeiçoou tanto pela caçula da sua funcionária, que resolveu ensinar a ler. Não demorou muito para a menina apressada, saísse lendo tudo que via pela frente. A patroa de sua mãe ficou tão entusiasmada com sua habilidade com as letras, que resolveu presenteá-la com uma bolsa de estudos no Colégio de Nossa Senhora da Conceição, onde sua irmã era a diretora. A princípio, sua benfeitora escutou um grande não, seguido de palavras bruscas e racistas.

– Quem já viu, uma negrinha das brenhas estudando em uma escola profissional feminina em Maceió, disse sua irmã.

Naquela época, por volta de 1940 os negros não estavam mais proibidos de ir à escola, era uma questão de dinheiro, e Katarina possuía que sobrava. Sendo assim, sua irmã mais velha, enviou uma nova mensagem. Sem cerimônia, argumentou que ela não tinha essa opção de recusar. Francisca Maria de Jesus, iria estudar na escola profissional Feminina, ou, ela iria contar para toda sociedade alagoano, que João Fernando, mas conhecido como sendo nosso irmão mais novo, era seu filho, o que mancharia sua reputação.

Sabendo da capacidade de sua irmã, Fernanda Vilela não teve outro jeito, e aceitou Francisca Maria de Jesus, para ser bolsista no Colégio de Nossa Senhora da Conceição. Não foi difícil para minha avó entrar na escola, só bastou uma chantagem barata, mas permanecer foi seu grande desafio.

Saudades era um dos seus sentimentos mais presentes. Saudades do seu pai tocando sanfona nas festas do seu Sebastião do Guerreiro, saudades da mudança de humor de sua mãe, que gritava durante o dia, mas a noite era mansa como um gato manhoso querendo dengo. Sentiu vontade de ouvir os irmãos brigando no terreiro, e até falta de lavar roupa no Rio Paraíba.

Saudades era um sentimento bonito, diante da dor, que seu coração vivenciava todos os dias, naquele colégio, porque parecia mais um suplício, existindo solidão e rejeição. As companheiras de turma sussurravam nos corredores: -Olha a feia de cabelo bonito. Vóinha não suportou, mas quem suportaria? Suas notas foram uma montanha russa quebrada, apenas com descida. No início eram dignas de honra, mas depois foram caindo e caindo. Mas a gota d’água foi cortarem seus longos fios negros.

Acreditando, finalmente ser o início de uma irmandade, aceitou que duas educandas penteassem e traçassem seus cabelos, onde nem imaginou na maldade por trás, tinha esperança de fazer amizade. Quando sentou na cadeira não demorou muito para cair os cachos ondulados e longos no seu colo, surtou. Surtou, de uma maneira incontrolável, sendo preciso Dona Katarina e sua mãe irem buscar na capital, onde depois dessa violência ficou internada em um hospital. Vóinha, nunca mais voltou para escola.

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Hellen Araújo é escritora, professora de Sociologia pela Secretaria de Estado da Educação (SEDUC-AL), Mestra em Antropologia Social e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas. Pesquisa sobre raça, gênero e beleza tendo como metodologia a autoetnografia, ou seja, suas vivências são fontes principais de análise.

1 comentário em “Francisca Maria de Jesus

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