Colaboradores Crônica Diogo Mendes

A mímica e a máscara

Foto: Thgusstavo Santana / Pexels

Por Diogo Mendes – 25/02/2022

Duas entradas para fitas K7, botões, tampa para cd, antena cromada, reguladores de canais e estações, alça para transporte desse “portátil”, quase diante de mim, fazendo esquecimento das faixas comemorativas em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. Ele deixou por alguns segundos, no chão, aquele grande rádio, procurava dentro de uma mochila velha, resmungava sofisticações e chulices, < Encontrei, na moral! >; topou um cd – Mário de Andrade o acharia bonito, penso – embora a música circense pouco ajudasse na apresentação. Joelhos valgos, corpo magro, mãos extensas, clavícula saliente, sobrancelhas grossas. Tudo aumentava, a tintura pesada do rosto, preta e branca, vista acima dos olhos, começando seu espetáculo, as pessoas atravessavam com rispidez, o ator sem quarta parede, fazia uns gestos jovens de Policarpo Quaresma e Charles Chaplin. Tirando por alguns segundos a máscara, sente medo, que revelavam seus olhos azuis, decidiu manter a proteção contra a variante do momento da Covid-19. Música de ribalta permanecia, arte de rua tenta.

Com ressalva, pessoas fizeram uma roda espaçada. Chapéu coco, suspensório puído, camiseta de listras, que favorece o peitoral de rascunho, calça nova, além de um par de sapatos de palhaço, numeração enorme, vestimentas e acessórios, nas cores da maquiagem. O mímico agora era teatro, retirando o chapéu coco, com acanho, depositou perto do rádio, uma sacola plástica, protegia a cobertura da cabeça. A música circense chama atenção de três crianças que puxavam uma senhora, logo cochichou, repelindo: < Não quero estrovar, arreda mais perto, nem dou esmola para ninguém >, como houvesse uma implícita cobrança. Eu levantei meu olhar, via a fachada do Theatro Municipal – reflito em Mário de Andrade, como no centenário do Modernismo – o pensador da Semana de Arte Moderna é a localidade, que tanto canta/ama/escreve/passa. Do outro extremo cênico, a construção perdeu brilho, o artista de máscara inteirava alguns acenos sofridos para conseguir algumas moedas, de novo tentou, colocara a máscara entre o nariz, ajeitando na face.

De repente, o mímico preocupava com descontinuação do show ora da brincadeira. Outro homem, com uma criança nos braços, deixou uma das barracas de produtos, olhava de longe, comentando com o ambulante, a respeito do rádio: < Não via há tempos, se pá deve ser a pilha! >. Moedas saltaram no chapéu coco, e quatro notas amassadas, o artista revira os pensamentos e sentimentos, âmagos da humanidade. Riam, as vendedoras da loja vizinha, a mais encorpada, improvisou uma dança, apreendida por vídeo em uma rede social. Os celulares, encapados e desencapados, registram aquela interação, devem passar por sua timeline, na minha pouco chegou, < Ele num fala nada, num espoca, palhaço triste >, ouvi uma voz rouca que assistia, atrás de mim, existe naquela entonação determinada técnica. Volto ao Theatro Municipal, nos detalhes arquitetônicos ecléticos, formulei a cena do grupo de modernistas um século antes, enfrentando aquele portal, subindo o tapete vermelho, rosa de mesma cor, saiu da mão do mímico, que fez risadas.

Mário de Andrade, divertindo, avulto da memória ao som do show da Liniker e Os Caramelows no aniversário de São Paulo em 2017, quando aglomerávamos sem receios. Os versos do autor de Lira Paulistana, ganham a voz da cantora de Remonta em minha mente; assim atentei ao que circulava, um homem com paletó gasto e bíblia, chegou alguns metros da apresentação, censurava o mímico, como estivesse escolhendo o lugar, sumiu entre as barracas, no qual o exibir dos produtos, indica funcionamento. O ator regressou ao rádio, retirou da mochila outro cd, trocando o que estava tocando, nesse a música, não tem nuances leves, havia aspecto sombrio, talvez remix de ópera esquecida. < Já é, até que ele está dando conta de máscara na cara >, um senhor cedeu uma nota maior, falando com artista cativo na mímica: < Minha família é toda do circo, sei como são as coisas, coragem a sua de fazer assim. Caraca, os tempos mudaram>, e da forma que interrompeu, o calvo com sobrepeso, gesticulou uma saudação de dândi ao Theatro Municipal, subindo a esquina da primeira rua.

< Parabéns ao maneiro aniversário da Semana de Arte Moderna!>, dizia o artista afastado da pantomima, após curvar às pessoas que assistiam, eu saúdo. Uma alegria dele, pouco disfarçava no rosto, retirando as moedas e notas do chapéu, recebendo por último minha humilde contribuição, < Agradeço seu baita esforço! > restringi tal criptografado elogio, cujo agradecimento foi esportivo; quem tem alguma simpatia por Pitágoras, saberia que não era muito, embora eu sentisse necessidade de ajuda. A mímica e a máscara se encontraram diante de mim, ainda que dolorosas, dura esperança. O artista começou a organizar seus objetos, dispersamos. Guardando ele, o rádio na mochila de acampar, os trocados na carteira, protegidos pela calça nova, segurava com vitalidade os pertences, mostrara um lado severo para escorregar pelas ruas centrais de São Paulo. Os sapatos gigantes de mímico empreendedor, ou palhaço triste, passaram pelas desbotadas faixas brancas de trânsito, indo em direção ao real Viaduto do Chá.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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