Alpendre

Dois poemas de Sandra Modesto

Foto: elifskies / Pexels

Pareceres

Tento ser disciplina
Mergulho entre uma velha e uma menina
Perco-me em meio a tantos desafios
Um tempo, por favor, um tempo.
Deixa-me espichar minhas pernas abertas e fechar meus braços.
Romper laços e desafetos
Beber um café. Um porre de café. Fazer promessas vãs.
Sutis deslizes, momentos febris beirando êxtases.
Entardeço eu no atropelo sem fim.
Uma música nostálgica, uns refrãos acalantos.
Coragem. Coragem. Muita preguiça de tanto ouvir coragem.
Anoitece. E quando o céu me escurece me esvaio. Não sei.
A exatidão do sono interrompendo meu dia eu perdida me virando frente ao espelho depois do banho, acaricio meu colo e vou descendo hora adentra.
Só um cheiro me consola, a terra é minha. Perfume de chuva respira de mais uma manhã.
Respingo dos cafés tragados e sujo a mesa. Lugar onde sozinha eu esmaeço.
Janelas abertas oxigênio no cérebro. Ligo o computador tento alguns versos umas rimas qualquer história. Fujo do noticiário. Boletos vencendo dinheiro sumindo, imagino uma atriz encenando o último ato. Fecho as cortinas. Invento um público. Mesmo sem aplausos, eu sigo.
Enterneço, falo mal, excomungo. Tá estranho. Mar de lamas. Muita gente morrendo. Mulheres sempre indo embora.
“Parece que meus olhos cortam cebolas”.
Sujeira espalhada, fumaças, fogo, fome, fezes, arranhões.
Tento mais um verso. Já é tarde.
Amanhã eu amanheço.

A angústia de cada dia

Gostava da calmaria antes de tudo se perder
Do gesto suave ás vezes sem hora marcada
Sem medo
Mesmo olhando o luar sobre nossas cabeças encostadas e ofegantes de amor
Gostava quando o silêncio não era o fim
E nessa vida repentina, choro, velas, insônias.
Nem o café é doce
Nem o cheiro é vivo
A gente cruza o passado e o agora
Entende que o coração abandona o barco
Sem leme, sem poemas bonitos.
O peito abafado
A quietude dos dias
O ano começado. Naquela emoção de que tudo vai melhorar. Afinal, são quase dois anos tramados pra o país acabar.
Houve momentos de desespero, choros, exaustão.
Onde foi que nos perdemos e porque perdemos tanto?
A angústia de cada dia
A angústia virando a doença emocional nessa dança brasileira de lutar contra o tempo
Nos arranjos e perrengues, lágrimas melando o rosto enrugado ainda que essa ruga não exista.
Mas é uma ruga, é uma coluna curvada no meio do cais sem rumo.
É uma mãe desesperada procurando comida pra dar aos filhos, osso, restos de dias sem esperança abafa a palavra.
Quando o ano novo era apenas diversão resenhada em abraços e sorrisos
Talvez bem no fundo haja uma cura. Para todo o mal. Há ciência.
Se eu posso pegar a certeza de tantas memórias, desenho angústias, nossas travessias transtornadas.
Alguém faz terapia, alguém não tem o que contar para quem contar. Dói o peito, dilacera uma dança da mísera poesia. Eu reescrevo uma ilusão. Afinal, se eu não catar minha força perante o abismo existente, deixar meu péssimo gosto de realismo não vai dar. E ninguém notará o meu vestido vermelho.
A esperança vem chegando, a esperteza dos abraços se abarcam e todos os espaços angustiados, serão incorruptos e com batidas de calmarias.
Porque de angústia morreu um pássaro. Não morreremos tanto. Morreremos menos e o amor vencerá.

***

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Sandra Modesto é mineira de Ituiutaba. Graduada em Letras e pós-graduada em Educação. Professora aposentada. Publicou em 2015, Acenda a Luz- coletânea de contos, crônicas e poesias, editora Kazuá. Publicou em 2019, Tudo em mim é prosa e Rima editora Autografia. Desde agosto de 2019 é colaboradora do site Crônica do dia, onde escreve quinzenalmente aos domingos. Textos publicados em várias revistas digitais: LITERALIVRE, Ruído manifesto, Trajanos, Sucuru, Torquato, Mirada, Ser Mulher Arte, Araras, Philos (digital e impressa). No site da revista Cult, no site da revista Quatro Cinco Um.
Publicou textos nas antologias: Elas e as letras, editora Versejar, Ruínas, editora Patuá, Corvo literário, organizador: Adam Mattos, Parem as Máquinas, editora Off Flip, Prêmio Off Flip de literatura 2021.
Vai lançar em abril de 2022 o seu terceiro livro.

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