Alpendre

Três poemas de Zé Mariano

Foto: Pixabay

Genealogia

Permita-me a fala rouca
do dilúvio, devidamente
necessário ao verbo
indecifrável dos bandeirantes,

Uma fala
entregue ao capricho dos mortos,
aos monges larápios da extrema unção.

(Ou aos capachos dos ditos nobres que fornicaram
raivosamente com mucamas chamadas
de minha mãe.)

Pena-me dizer o óbvio,
entretanto sussurro-o sem remorsos:
“Versáteis são as hastes ao tronco
que me suspenderam os braços abertos e nus
frente às naus da civilização”.

(E repito:
O dilúvio é devidamente
necessário a quem julga a vírgula.)

O suspiro entre frases
redesenha o fluxo gastrofágico
desta genealogia.

E se te perco, meu amor,
nos tantos caminhos infindos
é porque Ele, e somente Ele,
impediu-te de ter-me por completo.

Mesmo que o limite da finitude seja
resumido no preencher do nome paterno
de meu registro civil.

*

Mulam-me

O peso da terra carregada à sangue
estampa também o suspiro dos calados
à foice, facão e pólvora.

Dos laços subitamente cortados,
arrancados do cordão umbilical paterno
que muito diz (mais que o suficiente)
dos enterrados rente à fazenda
de seu Firmino,
ouve-se o aboio trazendo os quadrúpedes para o estábulo.

Sente o cheiro de borra?

Daquele resquício na camisa ensaguentada de seu José,
vulgo teu pai?

Dessa mesma borra, de boca
a boca, alimentam-se os filhos
e os filhos dos filhos.

E o que finca raiz no solo duro,
envolto ao manto sagrado do inusitado,
é a falácia de dizer-me pertencido.

Quando na verdade nunca nos sentimos abraçados.

(Torço a camisa molhada no rio
desejando semear na noite
o dia do meu despertar)

*

Despacho

I.

(Ouve-se a voz da encruzilhada)

Foi alto o soar da sirene
a avisar que era a hora
de recolher os corpos
para dentro do galpão.

A mancha da memória unge
cada braçada deste desafogar
fazendo com que pedras e palavras
desenlace o nó
enlaçado pela dor e o silêncio.

Estávamos em guerra
Há tantos dias colhendo
do canavial os frutos
amargos de uma vida
que insistia em nos tornar
parvos e impotentes.

(Disse-me alguém, um dia, que a maior
comprovação do trauma do soldado em
campo de batalho é a impossibilidade de dizer
sim, eu senti,
ou sim, eu te amo.)

Nesse pisar de cacos,
revemos vidas passadas presentificadas por
aqueles habitantes do interstício do espaço e do tempo.

Moradores do desconhecimento, do alheio e do naufrágio.

A verdade é que a guerra
é vivida por nós
sem sabermos o porquê
alimentamos a cobra rastejante
com o fruto apodrecido tirado da mão de nossa mãe.

Do porquê buscar o encaixe perfeito,
o ângulo retilíneo nos pedregulhos desta encruzilhada.

E assim continuamos…
Com os olhos tristes…
Tristes e amordaçados.

II

O galpão está cheio
E por baixo do
uniforme ouvimos
o chorar baixinho
do filho que
tentamos salvar.

No entanto, dizia meu velho:
Pegar o sol com a pinça,
É mais fácil que encontrar em nosso dicionário o significado da palavra afeto.

E nesta guerra sem mandante,
é o filho que é dado
ao sacrifício dos pertencidos e dos habitados.

O secularizado pelo medo de estar
e de habitar eternamente a encruzilhada.

Pois assim bradaram os homens
E assim bradarão aqueles seres
futuros também pertencidos
e também habitados
na cicatriz transversal
de nosso peito.

Ouça o silêncio.

Escuta-lhe:

– Somos aquele habitante de dois mundos paralelos.

Imploro, imploro,

– Não cale nosso murmúrio.

(Desfez-se a voz na encruzilhada)

***

.

Zé Mariano (São Paulo) é poeta, pesquisador e professor. Formado em Letras, pela Universidade de São Paulo, é mestrando em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa, pela mesma faculdade, lidando com temas como literatura afro-brasileira, literatura e identidades e relações de gênero em produções artísticas. Foi editor da revista Crioula, publicação virtual de pós-graduandos do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP. Atua também como educador em torno de temas como literatura, educação e relações étnico-raciais. Teve poemas publicados em portais e revistas eletrônicas.

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