Alpendre poesia

Dois poemas de Luciano de Castro

Foto: Pixabay

Meia Carne

Eis que o homem deixará seu pai
Eis que o homem deixará sua mãe
E se unirá a uma mulher
E assim os dois, macho e fêmea
Seus corpos e almas gêmeas
Não mais serão dois
Homem e mulher serão um só
Mulher e homem, uma carne só
Isso a Bíblia nos diz
Está em Marcos e Mateus
Mas eis que vem o destino
Ou talvez, o próprio Deus
E deita na carne o sabre afiado
Essa mesma carne feita uma só
O sabre afiado a cortará sem dó
E ela se tornará
Meia carne
Sim, apenas meia carne
Porque essa carne cortada, desmembrada, mutilada
Jamais tornará ao seu estado natural
Jamais será a carne inteira que foi um dia
Essa carne cortada, desmembrada, mutilada
Se converterá agora em
Meia carne
Meio corpo
Meia alma
Meio tudo.

Poema escrito pelo autor em agosto de 2021

Império dos sentidos

Pense
Se seus olhos enxergassem, mas vissem tudo em preto e branco
Se seus ouvidos ouvissem somente o necessário para sua segurança
Se seu nariz respirasse, mas não identificasse cheiro algum
Se você tivesse fome, se alimentasse muito bem, mas não sentisse o gosto das comidas
Se tivesse sede, mas todos os líquidos fossem insípidos como a água
Se sua pele se tornasse insensível como um pedaço de madeira
Se o sexo não lhe proporcionasse prazer e se prestasse apenas para a procriação
Se seu corpo fosse um aparato eminentemente funcional e minimamente sensorial
Enfim,
Se fossem embotados todos os seus sentidos
Sua vida teria o mesmo sentido?

Poema escrito pelo autor em outubro de 2021

***

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Luciano de Castro é mineiro de Teófilo Otoni, cruzeirense, dentista, especialista, mestre, doutor e professor da Universidade Federal de Goiás, goianiense, apaixonado pela natureza, por história e por literatura. Um sujeito metido a escritor.

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