Colaboradores Isabella Ingra poesia

Seis poemas – observações íntimas – de Isabella Ingra

Foto: Daria Shevtsova / Pexels

01-

cheirava a naftalina o amor
agora que comecei a tirar os panos que estavam por cima, sinto.

02- leia em voz alta

conversamos sobre separar o joio do trigo, as pessoas falavam em investimentos e eu ainda pensava em como custava caro um plano de saúde e em como custava caro a dignidade do povo, a minha.

03- a dívida e o perdão

as dores sutis, os sutiãs aposentados
os problemas que engavetei, os filhos que perdi
meus manuscritos sem valor e minha alma por isso
quero sentir o impossível:
quero estar quite com deus, comigo, com mundo.

04

a casa própria que conquistei primeiro
foi o colo meu, me abrigo aqui, me obrigo aqui
rápida como uma galinha com medo da travessa, me assisto curiosa nisso.

05 – ladeiras de janeiro

dorme
enquanto o amor desanda
enquanto você não me submete ao amor

dorme
enquanto os meninos de pele escura
morrem nos arredores da cidade

dorme
enquanto eu escrevo esses versos
que não alteram em nada

dorme
enquanto eu tento inventar
outras formas, outros picos

dorme
enquanto as panelas batem nas ruas
enquanto eu te leio o Alberto

dorme
como se o dia fosse a noite
como se a morte não nos visse

dorme
enquanto eu preparo minha marmita
e acaricio meu corpo

dorme
enquanto eu busco alimentos
enquanto eu não me alimento direito

dorme
enquanto o teto não desaba
enquanto a parede não cai
enquanto as metralhadoras fingem silêncio

dorme, amor meu
como se meus braços estivessem
envolto do seu corpo oco e louco
como se fosse janeiro de ilusões
como se fôssemos casas e abrigo pra alguém

dorme,
enquanto eu desacredito em você
enquanto eu mato antes de ser caçada
enquanto eu vejo meu corpo na calçada

06-

silêncio é muito pouco
quero algo mais oco

***

.

Isabella Ingra (1993) é poeta, escrivinhadora de palavras, atriz quando convém, mãe e feminista. Nascida em Brasília e no mundo todo.

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