Crônica Diogo Mendes

República de aves

Foto: Paulo Fehlauer/ Visual Hunt

Por Diogo Mendes – 01/12/2021

João de barro, pardal, carcará, pomba, bem-te-vi, sabiá-laranjeira, maritaca, rolinha, garça, urubu; este realizador primeiro, instalou num triplex em uma árvore da Praça da República de São Paulo, não revelo onde, pois sendo da vizinhança, é descortesia, apontar residência alheia. Uma hora como essa, aonde muita gente abre os olhos, aonde muita gente fecha os olhos, celebravam algumas dessas aves listadas. Caminhando por essa praça, deparo com pardais vigaristas nas grades de acesso ao metrô, permaneço na mente, como uma anônima casa de João de barro sobrevive ao Carnaval, A Virada Cultural, manifestações políticas, especulações imobiliárias – sobretudo, a fuligem paulistana? O núcleo deles, consiste precavido, conhecem a vida no centro, aqui sabem mais quem são.

Levantaram suas portas as padarias, por mãos cansadas, para preparativos dos alimentos do dia, não diminuindo os cantos e pios das aves. Estabelecimentos que lotarão, horas seguintes do fim de semana, por essa mania paulistana de só fazer desjejum fora de casa. Meu caminho, no qual hesitei, uma dupla de carcarás marrentos fuzila na marquise, segui outro rumo, gritam minhas obrigações, jogando longe dos atritos. Rua Arouche, vou até na confluência com a Bento Freitas, olho seus antigos sobradinhos, meio hotéis e afins. O barulho atenuado das motos e carros, misturava com a cantoria da fauna, à medida que vou me distanciando, passos no Largo do Arouche, bateu uma vontade de caminhar, sentido Avenida Vieira de Carvalho.

Na mesma calçada, umas pombas graúdas debatiam por migalhas. Serenas, a despeito de nós, as pessoas, não batem asas, por mais que continuavam atentas. Fisionomias humanas passavam, sempre fico comigo, possivelmente, nunca mais nos veremos – de onde venho, vemos as mesmas gentes até enjoar (de tédio, e o pior, de mesmice). Nos três lotes do Largo do Arouche, de paralelo, quantos dos meus ganham e perdem os corações aqui?, escutava cantos, desta vez bem-te-vis chamativos, reclamavam em alto som, das reformas e construções, que repelem qualquer folga santa ou profana ou mercadológica ou individual. Da apresentação ao vivo, desses exibidos pássaros, na qual supera os memes, me concentrei naquele de uma árvore de galhos encurvados, perto do cruzamento da Rua Vitória e Avenida Vieira de Carvalho.

Dos bares e hotéis da avenida rosa, frequente alguém que prolonga a esbornia da noite anterior. Festas e brigas, na mesma proporção, sabiás-laranjeiras cortejados que pulavam no reboco de outra árvore, grupo preferido dos restaurantes do bairro, de tratamento vip para eles, existem inúmeros suportes de madeira, como pequenas mesinhas, servindo mamão, talvez com açúcar. Sotaques estrangeiros, da América Latina, África, Europa envelopam agora meus ouvidos, intensificando a cantoria das maritacas singulares, quase comparável a sonoplastia dos bem-te-vis. Ombros largos, vigorosa e sensual, a escultura do Índio Caçador de João Batista Ferrari, repousa quiçá embala, nessa via com a presença reatualizada.

Praça da República, de volta, travestis e michês tentam manter suas permutas de rua. Algumas rolinhas fofas apareciam, procurando alimento, de gosto indiscutível, exigiam por suas miúdas expressões, restos de fast food, nada do que deveriam alimentar. Havendo sorte, como foi nessa manhã preguiçosa, desfila a “top model” da região, vedete na qual chega toda espalhafatosa, num voo rápido de envergadura leve, aterrissou uma garça pálida. No meio da fonte de água, iniciou seu espetáculo blasé, local que no verão paulistano, alguns moradores em situação de rua tomam banho, tentando refresco. Com seu bico grande e fino, o bípede posa para quem dá um nó no tempo, atrevendo fotos. Na hora dela, frações de minutos, voou distante, sem despedida.

Já despedido de mim na Avenida São Luís, segmento próximo da Consolação, uma trupe de urubus espertos hospeda há muitos anos em um prédio de estacionamento, antes mesmo deu parar aqui. Gravitavam o mais alto no céu, ultrapassam outras colegas aviárias, dependendo de onde observados, enganam a proporção dos respectivos tamanhos, ao passo que planavam pelo contrafluxo do vento e poluição. O voo dessa patota iguala um mergulho ornamental dentro de uma grande piscina, tem artimanha, tem elegância, jeito próprio das asas abrirem, algumas vezes produzem barulhos que não chegam a sons, pouco desengonçados, como demais aves de rapina e afins. Parados são, obras desvalorizadas da natureza, agindo lembravam pessoas da vizinhança.

República de aves, conhecem como ninguém nossos cotidianos, eu persistia olhando essas arquiteturas. Tais, sabem das vidas em cada uma dessas janelas fechadas e abertas, sacadas vazias e cheias. Durante a caminhada, era o que eu precisava, tampouco sabia, dessas companhias indiretas (me fazem compreender, e o melhor, conviver com as diferenças dos seres, nas quais vejo fascínio). Não existencializam e falam, as aves, porque escolhem canto ou pio, cá estão nas árvores e postes, pelo motivo de ser manhã de fim de semana, nem o comércio vital ainda funcionara. Canto e pio sumiram de novo, em meio ao resquício de tráfego urbano, enquanto gastava a sola de calçado, na tranquilidade, de um matutino passeio e/ ou sinfonia.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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