Colaboradores poesia Ricardo Escudeiro

Duende, de Tracy K. Smith // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Reprodução

Tracy K. Smith nasceu em Massachusetts e foi criada no norte da Califórnia. É bacharel pela Harvard University e MFA em escrita criativa pela Columbia University. No período 1997-1999 recebeu uma bolsa Stegner na Stanford University. Smith é autora de quatro livros de poesia: The Body’s Question (2003), que ganhou o prêmio Cave Canem, Duende (2007), vencedor do Prêmio James Laughlin e do Prêmio Literário Essense, Life on Mars (2011), vencedor do Prêmio Pulitzer de Poesia e Wade in the Water (2018). Em 2014 ela foi premiada com a bolsa da Academy of American Poets. É autora, também, do livro de memórias Ordinary Light (2015), que foi finalista do National Book Award in nonfiction. Em junho de 2017, Smith foi nomeada poeta laureado dos EUA. Ela leciona na Universidade de Princeton, apresenta o programa de rádio diário da American Public Media e o podcast The Slowdown, patrocinado pela Poetry Foundation.

Duende

1.
 
The earth is dry and they live wanting.
Each with a small reservoir
Of furious music heavy in the throat.
They drag it out and with nails in their feet
Coax the night into being. Brief believing.
A skirt shimmering with sequins and lies.
And in this night that is not night,
Each word is a wish, each phrase
A shape their bodies ache to fill —
 
                I’m going to braid my hair
           Braid many colors into my hair
                I’ll put a long braid in my hair
           And write your name there
 
They defy gravity to feel tugged back.
The clatter, the mad slap of landing.
 
2.
 
And not just them. Not just
The ramshackle family, the tíos,
Primitos, not just the bailaor
Whose heels have notched
And hammered time
So the hours flow in place
Like a tin river, marking
Only what once was.
Not just the voices of scraping
Against the river, nor the hands
Nudging them farther, fingers
Like blind birds, palms empty,
Echoing. Not just the women
With sober faces and flowers
In their hair, the ones who dance
As though they’re burying
Memory — one last time —
Beneath them.
                                 And I hate to do it here.
To set myself heavily beside them.
Not now that they’ve proven
The body a myth, a parable
For what not even language
Moves quickly enough to name.
If I call it pain, and try to touch it
With my hands, my own life,
It lies still and the music thins,
A pulse felt for through garments.
If I lean into the desire it starts from —
If I lean unbuttoned into the blow
Of loss after loss, love tossed
Into the ecstatic void —
It carries me with it farther,
To chords that stretch and bend
Like light through colored glass.
But it races on, toward shadows
Where the world I know
And the world I fear
Threaten to meet.
 
3.
 
There is always a road,
The sea, dark hair, dolor.
 
Always a question
Bigger than itself —
 
               They say you’re leaving Monday
                Why can’t you leave on Tuesday?
Duende

1.
 
A terra está seca e eles sempre querendo.
Todos com um reservatório pequeno
De música furiosa pesando na garganta.
Eles arrastam e com as garras em seus pés
Fazem a noite ser. Crença curta.
Uma saia cintilando com lantejoulas e mentiras.
E nessa noite que não é noite,
Cada palavra é um desejo, cada frase
Uma forma que seus corpos anseiam preencher —
 
                 Eu vou trançar meu cabelo
          Trançar muitas cores no meu cabelo
                 Vou colocar uma trança longa no meu cabelo
           E escrever seu nome nela

Desafiam a gravidade pra se sentirem puxados.
O barulho, a insana bofetada do pouso.

2.

E não só eles. Não só
A família desmoronada, os tíos,
Primitos, não só o bailaor
Cujos calcanhares martelaram
E entalharam o tempo
De modo que as horas podem fluir
Como um rio de estanho, marcando
Somente o que não é mais.
Não só as vozes de raspão
Contra o rio, nem as mãos
Cutucando-os distante, dedos
Como pássaros cegos, palmas vazias,
Ecoando. Não só as mulheres
Com rostos sóbrios e flores
Nos cabelos, aquelas que dançam
Como se estivessem enterrando
Memória — uma última vez —
Debaixo delas.
                               E eu odeio fazer isso aqui.
Me colocar profundamente ao lado deles.
Não agora que comprovaram
O corpo um mito, uma parábola
Pela qual nem mesmo a linguagem
Se move rápido o suficiente pra nomear.
Se eu chamar isso de dor e tentar tocar,
Com minhas mãos, minha própria vida,
Permanece quieto e a música diminui,
Uma pulsação sentida através das roupas.
Se eu me inclino no desejo que isso inicia —
Se eu me inclino desabotoada no sopro
Da perda pós perda, amor lançado
No êxtase do vácuo —
Ele me leva junto pra longe,
Pra acordes que se dobram e esticam
Como a luz vazando os vitrais.
Mas corre, na direção das sombras
Onde o mundo que eu sei
E o mundo que eu temo
Ameaçam encontro.

3.

Há sempre uma estrada,
O mar, cabelo escuro, dolor.

Sempre uma pergunta
Maior que ela mesma —
 
                Disseram que você vai embora segunda
                 Por que você não pode ir na terça?

§

* O poema está em poetryfoundation.org

***

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Desenvolve projeto de mestrado dentro do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, na FFLCH-USP. Atua como editor na Fractal e como assistente editorial na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Revista 7faces, Arribação, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), Gazeta de Poesia Inédita (Portugal), A Bacana (Portugal), Germina, Jornal RelevO, Mallarmargens, LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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