Alpendre poesia

Dois poemas de Milena Martins Moura

Foto: Mariana Montrazi // Pexels

não é justo que essa noite eu passe a sós
engolindo o choro em vez do pão francês.
não é justa essa secura
roubando a fome da janta
nem esse lugar vazio
na cabeceira da frente.

eu preparei o de comer com tanto esmero
pra dar sustânça nos ossos.

e que não venham me dizer para ser grata
pelas cabeças na guilhotina
só porque restou
mais farinha para os vivos.

eu assei com tanto apuro esse brioche.
até topei lavar um pouco as mãos.

não é justo que, depois
da entrega e do aceite,
tenha vindo de tão longe o barqueiro,
com suas patacas,
recolher a louça
antes do fim do serviço,

reclamar as almas
negadas por Pedro
e as amontoar indistintas
no mesmo batel,
onde reis e detratores
imploram ao mesmo deus
a mesma piedade.

*

venha rápido pois tenho pressa
tenho uma pedra
então entenda
o mergulho nessa água escura
é um risco
que eu só vou aprender a viver
depois do salto
um risco é o que se corre
e eu tenho pressa
meus braços são tão fracos
e eu tenho pressa
mesu olohs tmê falhaod
e eu tenho me evitado
no reflexo do poço
eu tenho pressa
da palavra pesando meu corpo
de levantar os olhos e ver
e ver
cada silêncio é uma imagem a menos
então venha rápido
antes da próxima maré
que nessas águas repousa a coisa morta
que se perdeu de mim durante a última música

* Os poemas integram o novo livro de Milena Martins Moura, A Orquestra dos Inocentes Condenados (Editora Primata, 2021).

***

.

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021). Seus poemas também estão em podcasts como o Toma Aí Um Poema. Além disso, integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia. É editora da revista feminista cassandra, um espaço de divulgação da arte e da literatura produzidas por mulheres, com edições mensais que contam com colunistas fixas e convidadas.

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