Colaboradores Crônica Diogo Mendes

Incensos, crônica de Diogo Mendes

Foto: Rafael Guajardo // Pexels

Por Diogo Mendes – 19/10/2021

Fogo e brasa, trazem harmonia no acender do incenso. Singular faísca iniciou, processo meio químico, meio reflexivo, meio enigmático, meio informal. Queimando, um incenso, auxilia em muitos começos e finais de batalhas, não me refiro às bélicas. A humanidade é guerra consigo. Por sorte, fases e presenças demandam lutas diárias, todas as pessoas têm, a fumaça perfumada que ocupava o ambiente fornecia esquecimento, tendo aroma da rápida distração, abertura da memória, pelo menos calmante, sendo uma das únicas certezas. > LARGAR MÃO!!! <, veio, termo no qual ouvia com frequência na meninice, era de alguém de sábia ignorância – ainda que seja dolorosa, essa realidade. Saber e ignorar, não passam de observação, fazendo bem incomensurável, escolha de cada pessoa. Tranquilidade do desapego em vapor.

Rodopiando a fumaça, gesticulando a fumaça, da haste despedia do incensário, caixa de madeira, ventilada por dois compartimentos, superior e inferior, com saídas de ar. Uma curiosidade de saber, me surge, como é fabricada?, atravessando técnicas de industrialização. Incensos consistem atividades humanas antiquíssimas, das raras, que cruzaram eras. Adianto, gente sempre precisará dum incenso, no contemplar daquela fumaça balançante, embora o mundo queira raquíticas meditações, assim perdi interesse das usinas cheirosas. As variações dos incensos, são inúmeras, gosto dos processados indianos e dos rústicos latinos, por exemplo destes últimos, Bursera Graveolens conhecido por Palo Santo, seja de menos confecção.

Hoje carente de Palo Santo, fisicamente e economicamente, optei por essa varetinha de produção indiana, achava que chegara em sua metade. Afastei de súbito, maxilar e mandíbula do incensário, um chamuscado, outra avariada, observei o incenso deixando de existir – seus segundos fracionados, nossas horas contadas. Doces reféns da vida, afinal nós, igual o incenso consumindo pelo fogo, deixaremos de ocupar espaço, na hora de cada qual. Alguns seres lembrarão da gente, algumas pessoas também, haverá quem fará uma força impressionante, para nossos vestígios não sejam esquecidos. Os anos continuarão rolando, idem os segundos dos incensos, perfumam e agridem. Praticantes de aromaterapia sabem, nem todo material, vai bem, há aqueles bons, e os que não encantam.

Preço, marketing, odor, estabilidade, procedência, serventia não foram em exclusivo, que me encantaram da brasa continuada, oposição desse tudo. Apenas é incenso, que tenta cumprir seu “acaso”, mesmo eu querendo comunicar “papel”, inclino algo da primeira escolha. Através do flat, esse arejado, espalhava os próprios indícios, pós de reminiscências, em algo maior do que gás cheiroso, a fumaça gargarejava; desastrada chegará em outros narizes (alguns bonitos) que não conheço (talvez nunca conheça), logo se dirá: < Nossa que incenso gostoso!!! >. Alguém pessimista, coqueluche desse agora, reclamará-se: < Que cheiro ruim! >; ainda o agrado não fica só comigo, vai quadras próximas, seduzindo quem estiver para tal. Nem toda a pessoa está preparada a vivência das coisas que exigem calmaria, acender um incenso, não passa de intervalo.

Do trecho da fumaça, que diminuíra, esquecia variações do tapear. Existem incensos que ultrapassam três dígitos, não necessita de grandes investimentos, qualquer loja, daquelas que vendem todos os tipos de produtos básicos no fazer doméstico, ora localidade de reverência ao invisível, destinadas às religiões de matriz indígena e africana. Cada estabelecimento, direcionando serviços a toda finança, que eu insistia esse fim de bálsamo, chegou de uma das várias portas de São Paulo. Misto de bazar e armazém, me retira de incontáveis “enrascadas sociais”, desde aniversários e datas comemorativas – aviso: sou péssimo de memorizar – caso não fosse minha disciplina de agenda, embora aprecio festanças, até de “enrascadas criativas” quando os cadernos são preenchidas suas linhas e as canetas são falhados seus pigmentos, preciso de continuar, no que apresenta necessidade.

Necessário no presente, o perfume esfumaçado vai pelo flat, em fendas que nem faço ideia de existirem. Regulei meu pensamento, tendo auxílio de uma voz interior que a maioria ignora, chamada por sensatez, daquilo ou daquilos nos quais, estejam me incomodando, ao menos naquele dia, preocupações e irritações, irrealidades e realidades, não atingem a mim, enquanto aproveitava este restante de incenso. Ele, continuou nas minhas narinas, por consequência me levou a diferentes lugares, que meu corpo não espera/ comporta. Outra curiosidade de impulso apareceu, de saber maiores detalhes da embalagem, como o produto viajou?, consultei sua origem, de fábrica à importação, fumaça envolvia meu raciocínio, aliada à vista cinza da janela.

Embalagem do incenso, pouco eu ajuizava, apenas desencorajou atenção, diferente da nossa essência que amplia. O incensário pigarrava, as gramas daquela varinha caiam, imagino sem querer consultá-las, atravessariam postos de fluxo. Do ambiente, o ar restaurava, comprimindo aquele perfume, surge vontade, acenderei outro incenso, cujo pudesse prolongamento dessa sensação, da janela gotículas tocavam, gotas aumentavam, poças bateriam, visto que fechei, antes do piso de madeira ficasse ensopado. A chuva que começou, minutos atrás, foi desculpa, uma das qualidades apetitosas do ser humano, distração com pitadas de cansaço, inclusive do término desse incenso. Nas limitações, há encantos que só podem.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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