Colaboradores Stéfany Caldas

Sobre o gerenciamento distorcido do tempo

Foto: Vincenzo Malagoli // Pexels

Por Stéfany Caldas – 05/10/2021

Conversando com uma amiga em transição de carreira, ouvi dela que a principal inspiração para realizar cada passo sem autocobrança foi justamente a leitura de autores pelos quais nutria admiração. Pessoas que realizaram suas próprias mudanças de forma desacelerada, que incluíram períodos de pesquisa, reflexão e novas descobertas sobre si mesmo.

Há algumas semanas toda a internet ficou sabendo que Tiago Liefert havia rompido com a emissora em que era contratado por tanto tempo. A explicação também tinha a ver com qualidade de vida, mudança de foco. “Tem tanta coisa que quero aprender, quero estudar, cuidar da família. Era essa escolha que eu tinha que fazer. A missão aqui está cumprida, mas eu posso voltar”, disse o apresentador em conversa com Ana Maria Braga.

Na semana em que a decisão de Tiago foi anunciada, as redes sociais começaram a replicar os conteúdos somados ao ponto de vista de cada gerenciador de perfis. “7 aprendizados que podemos tirar a partir da escolha do Tiago”, “o que podemos aprender com a decisão do apresentador”, eram apenas alguns deles.

Havia também quem comentasse o caso acrescentando os possíveis rumos da carreira do jornalista, bem como “o verdadeiro motivo” por trás da decisão, prontamente desmentidos por ele.

Mas, o que chama atenção dentro dessas situações diz respeito ao nosso modo de lidar com o tempo. Agimos como se estivéssemos durante todo o percurso no controle sobre ele, quando, na verdade, nutrimos uma dificuldade danada em exercitar viver em consonância.

Mudar de área só se for pra ontem e com prévias garantias. Finalizar um contrato em nome de família, tempo de qualidade, possibilidade de ócio e férias, parece difícil de acreditar. Só se recusa participar de um jogo para um jogo ainda maior, é o que costumam dizer.

Não raro, creditamos unicamente a cada indivíduo a chave de mudança de sua situação, esquecendo de questões externas que influenciam completamente o poder de escolha de cada um, aquelas que vão desde fatores sociais, como possibilidade de moradia e renda, aos políticos e culturais.

Mais do que isso, deixamos de lado uma variante importante: expectativas e estimativas não indicam que teremos a correta antecipação e previsibilidade sobre tudo. Essa amiga me contou que, na análise, um mesmo sonho pode ganhar interpretações diferentes, e ainda fazer mais sentido anos depois. Por que quando acordados, ainda vivenciando os fatos, temos essa pressa em oferecer qualquer significado, sem o objetivo de parar, contemplar, esperar para olhar com a pausa que merecem?

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Stéfany é jornalista pela Universidade Federal de Alagoas. Possui especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing, realizou cursos em Marketing de Conteúdo e Copywriting.
Gosta de escrever para se comunicar consigo e com o mundo, e aprendeu que a escrita, para ser ponte, precisa ter afeto.
Aqui fala de cultura, comportamento, relacionamentos, e tudo o que envolve gente!

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