Crônica Diogo Mendes

As rosas brancas, crônica de Diogo Mendes

Foto de Eva Elijas // Pexels

Por Diogo Mendes – 23/09/2021

Os túmulos do Cemitério São Pedro consistem últimos endereços de quem em parte nasceu, viveu e veio – amar demais – a cidade paranaense de Londrina. Em suas quadras tumulares e ruas tumulares, de sinalizações repetidas, alguns locais sem nenhumas placas, quando apresentam códigos numéricos e caligráficos, mais confundem, ao invés de auxiliarem visitação, não dependida da “hospitalidade” do serviço, virando um processo de ir com sua cara, a minha nem tanto. As palmeiras da Avenida Juscelino Kubitschek, via recebedora de um alto portão principal, das anteriores vezes onde percorri, continuam atentas crescendo, nelas existem ramos do etéreo, ora sabedoria, conforme o acidental paisagismo, que a instalação, espremeu nos canteiros de gramas ralas das pistas, permanecendo conjunta imortalidade. Sentem, na capacidade da natureza, minha fisionomia alterada pelos anos, assim difere da antecessora que passava nessas imediações, da mais antiga necrópole de onde nasci, sem percepção da vida e da morte, diante do meu entendimento imaturo. Dos imprevistos deste setembro, do oscilar da meteorologia em horas próximas, do fato de me localizar, do celular funcionar, do encontrar de um orelhão (algo quase obsoleto, ainda utilitário em urgências) e do balançar habilidoso das rosas brancas que trouxe de uma floricultura paulistana, escondida por entroncamento de viaduto, do qual a loja recorda uma ladeira. Vindas em sacola de pano, essas plantas que antes da viagem, amarrei, afora laços, por respeito das personalidades, dessas sofridas reverências, fitas de cores salmão e amarela.

A rosa branca de fita salmão deitou no túmulo, por enquanto apenas possui laje de cimento cru. Foi esta fita, tonalidade de roupas, que minha tia Celeste, mais gostava, por consequência teve em seus guarda-roupas, pulando de esconderijos a habitações, do mesmo modo, perfumes, óculos escuros, bolsas, sandálias, livros, cds, dvds, enfeites, artesanatos esquecidos em caixas, as variações apareciam do claro laranja. Mesmo antes deu parar de chamá-la, tontice na busca da aparência de ser adulto, do apelido infantil de “Tété”, acho um dos primeiros chamamentos que apreendi pronúncia, durou até minha adolescência, afinal sempre tive mania de ser tardio. Tia Celeste ou Tété, apresentou em suas características que me parecem animadoras: a contraditória geografia londrinense, o esmero da diária alegria, a beleza das amizades, o jeito artificial dos shoppings, a resiliência relacional, o valor da gastronomia brasileira, e tantas mais. Tété ou tia Celeste, apresentou em suas características que me parecem desanimadoras: a não-flexibilidade de quem discorda, o exagero da regionalização, a dolorosa sabotagem amigável, o medo justificativo ao carinho, a ajuda como moeda de troca, o modelar de personalidade em busca de aceitação, e tantas mais; dessa confusa mãe, figura inesperada da maternidade, por outro lado, amor fraterno.

Outra rosa branca de fita amarela deitou no mesmo túmulo, em que as identificações são improvisadas. As roupas da vó Setelina, eram nas cores frias, embora o amarelo estivesse disfarçado em detalhes, botões, mangas, colarinhos, portas moedas, bíblias, hinários, pastas de courvin, às vezes presilhas de cabelo. Vovó, vó, avó eram formas que desimportava, contudo, da família atrevesse de não chamá-la de “senhora”, virava um maquinário de tração, que dispunha arar cascalho, inclusive errasse a grafia de seu nome com “S” e não “C”, nem pedregulho restava. Senhora Setelina ou vó Setelina, apresentou em suas características que me parecem animadoras: a doçura da fauna e flora, o norteamento das fases lunares, a leitura literária variante, o enfrentamento do que se acredita, a maleabilidade da relação conjugal, o beber água para resistência física, e tantas mais. Vó Setelina ou senhora Setelina, apresentou em suas características que me parecem desanimadoras: a rigidez cotidiana, o jugo moral em vista do preconceito, a solidão do fanatismo religioso, o favoritismo filial, a separação de quem seja diferente, o sofrimento como qualidade, e tantas mais; dessa rigorosa mãe, figura centralizadora do matriarcal, por outro lado, amor fraterno.

As rosas brancas absorviam raios solares, que, entre carregadas nuvens desviavam para tocarem a superfície daquele túmulo. Covas, lápides, túmulos, jazigos, sepulturas, tumbas, mausoléus, a quem conhece tais hóspedes, dispõe de impessoalidades doloridas. Uma do lado da outra, sem protetores de pétalas, espécies de pequenas redes, que possivelmente tiveram organização na hora da colheita, sendo transportadas ao estabelecimento onde adquiri na tarde anterior. Minutos antes retirei, após decorrência de vários quilômetros, com receio de não estragarem os feitios, naquele momento um vento, de pouca intensidade, atravessava as sepulturas vizinhas zumbindo minha dor, da perda de duas mães, materializa em uma conversa comigo, ou seja Celeste e Setelina, o choro minou. Queixa lacrimosa de quem não pode se despedir, estando de “prisão domiciliar”, por causa da pandemia da Covid-19, à medida que do governo federal – que descartam vidas e tripudiam mortes – aqui, pessoas que amo, uma da contaminação pelo vírus e outra da angústia do mesmo. Frente daquele jazigo partilhado, assemelha aos demais do terceiro mês desse ano, talvez de razões idênticas, fico em silêncio olhando aquelas sensíveis plantas, aguentaram oito horas de viagem, meu soluço diminuiu. De repente, sensação de cumprimento, veio do meu interno, igual vibrasse meus ossos, igual revirasse meus órgãos, despeço da visita às memórias de Celeste e Setelina, ganhando a saída de uma quadra abaulada do Cemitério São Pedro. Grandes muros que circulam a necrópole, eu os deixei, enfim inocência e paz.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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