Coluna Romero Venâncio

A vida e a vida de Paulo Freire. Nota sobre o centenário

O educador Paulo Freire (1921-1997), em imagem publicada pelo Centro Cultural São Paulo. Reprodução

Por Romero Venâncio – 20/09/2021

“E no entanto, refaço minhas asas
Cada dia. E no entanto, invento amor
Como as crianças inventam a alegria.”
Hilda Hilst

Pelo menos desde 2013, o educador e filósofo Paulo Freire vem sendo atacado da maneira mais baixa e covarde como nunca visto nesse país. Xingamentos, impropérios, insultos vulgares, desrespeito à obra e acusações sem o mínimo fundamento… Quase tudo inicialmente orquestrado pelo astrólogo pé-na-cova Olavo de Carvalho e sua turma de discípulos. Uma gente desqualificada acadêmica e politicamente. Uma direita que vive de palavrões e ataques em redes sociais. Quando saem as ruas é para demonstrar o quanto são ignorantes, tolos e medíocres. Uma gente com baixa formação intelectual, ressentida e que ganhou visibilidade com o crescimento de um bolsonarismo selvagem e negacionista incomum na história do Brasil. Alguns intelectuais de renome nacional e internacional foram escolhidos de propósito por esta gente para se tornaram o bode expiatória da miséria intelectual deles. Mas, sem dúvida, Paulo Freire foi o mais atacado quase que diariamente que já conta quase uma década.

2021 seria o ponto mais alto dessa gente. Mas eles não contavam com a reviravolta da história e da força das ideias de Paulo Freire. Com a exposição diária das contradições e da incompetência completa do governo Bolsonaro, essa turminha ficou mais encolhida. Tá perdendo seu “mito” inventado nas brumas de uma “fakeada” e no esgoto de uma direita sem rumo e sem tradição. Queriam enterrar a obra de Paulo Freire no ano de seu centenário. O que ocorreu? Exatamente o contrário. As homenagens no mês de nascimento do educador (setembro de 2021) apareceram de todos os cantos e de várias formas: lives aos montes, Palestras, simpósios, cursos, encenações, documentários reexibidos, depoimentos, artigos, coletâneas… No Brasil, na América Latina… No mundo. A direita ficou sem discurso ou apenas requentando as ofensas de sempre e sem palanque. Não conseguiram deslegitimar a obra de Freire. A grande maioria dessa direita brasileira tem deficiência de leitura e de escrita. Mal sabe comentar um texto simples e jamais compreenderia uma obra como a: “Pedagogia do oprimido”. Obra refinada conceitualmente e que vem com um já clássico prefácio do gaúcho Ernani Maria Fiori que abrilhantou a obra de maneira incontornável. Temos nessa obra um inédito projeto pedagógico-político em que os de baixo retomam sua palavra e se tornam educandos, protagonistas, leitores do mundo… Em Paulo Freire, o oprimido tem a condição e a urgência libertadora. A educação em Freire faz do oprimido agente fundamental de transformação do mundo.

O projeto freiriano tá mais vivo do que nunca. Uma tradição de lutadores e lutadoras populares acordaram e avançaram na defesa da honra e da obra de Paulo Freire. Não se deixa companheiro para trás e nem à sorte dos lobos. MST, MTST, Universidades, Partidos de esquerda, grupos de Igrejas, educadores populares de todas as matizes, artistas, intelectuais de projeção nacional e internacional vieram na trincheira da batalha das ideias defender e rememorar a obra de Paulo Freire. Foi bonito e digno ver as redes sociais multiplicando textos, frases, comentários, indicações de leituras, fotos, charges, falas raras… Tudo em homenagem a Paulo Freire. O nome do educador pernambucano brilhou mais uma vez e como deve ser na trajetória de pessoas que deram sua vida a uma causa e a causa dos de baixo. Paulo Freire: o escritor, o educador (sempre), o gestor, o internacionalista… O amigo de Antonio Candido, Florestan Fernandes e Dom Paulo Arns… O marido de Elza Maria Costa (primeiro casamento) e Nita Freire (esposa dos últimos dias). A memória se fez justiça. Viva Paulo Freire.

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Romero Venâncio é professor de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe – UFS.

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