Alpendre poesia

Três poemas de Vitória Terra

Imagem: Foundry Co // Pixabay

Aquelas manchas verdes

nas tábuas da parede
o proprietário das terras
as queimou
um maçarico
chamuscou tudo de preto
depois de sete dias
se elas voltarem
ele queimará
toda a casa
o colchão e
os panos

Tenho medo
que veja a minha mancha
eu a escondo sob a camisa
às vezes ele me investiga
com seus olhos
de dono
entre meus dedos
unhas
braço e pescoço
mas não a vê
ela é branca
e eu sempre a belisco
pra ver se ela acorda

Me disseram um dia:
uma mancha assim
nunca pode dormir.

Nárkissos

compacto
meu iceberg
de trevas
pesa

mão perversa
que estrangula
e cala
gestos
e intenções

vigília de cegos
paliada em véu
de altar
sou cativeiro
das respostas
engolidas

não há
sombras
lembranças de um sol posto
em mim não há
tocar meu breu
é sorver o abismo
possuir o charco

subverto
as palavras ácidas
pisando a madrugada madura
nesse lagar sem mosto
e pouco a pouco
seduzo-te ao Lago Baykal
e sem perceber desapareces
na minha água escura

Quanta solidão há

Quanta solidão há
naquela âncora enferrujada
separada de sua nau
fincada no fundo desse mar escuro

Quanta solidão há
naquele menino sentado no alto do outeiro
arremessando pedras
sobre os vagões do trem que passa veloz

Quanto de mim há
nesse mar que é despedida
na escotilha suada ficando invisível
na pesada âncora solta à deriva
no galope seco do trem sobre os trilhos
na pedra que corta o ar
no punho que a lança

Quanto de mim
permanece em mim
depois da paisagem?

***

.

Vitória Terra nasceu em Maracajú, MS. É fundadora do Terra Franklin Advogados, especializada em filosofia do direito e em direito processual civil pela Universidade Federal de Uberlândia-MG, Master Business Administration pela FGV, atuando como advogada em todo o território nacional há mais de trinta anos. Escritora e poeta, publicou e vem publicando poemas virtualmente, nas páginas Vitória Terra Poesia (Facebook) e vitoria_terra_poesia (Instagram).

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