Alpendre poesia

Dois poemas de Raí Prado Morgado

Foto de Lennart Wittstock // Pexels

lua vai

I.
você pensou que a travessia
do maracatu pela rua do porto
levaria menos de quinze minutos.

eu duvidei e disse
que o samba vinha
depois das seis.

no fundo,
nós dois estávamos
errados sobre finais felizes,
que, sim, existem.

é questão de enxergar.

II.
a certa altura, eu ainda acreditava
na literatura, e você, mais dada
à música, foi quem sempre
soube ouvir.

vivi a história das rodoviárias,
transitei pelas farmácias de beira
de estrada, mas coube a você a batalha
de aglutinar duas cidades inteiras no peito.

III.
o pagode dos anos noventa
pode não explicar tudo,
mas tenta,

e é óbvio, como toda certeza é soberba,
que das vezes em que se encontra
os amores da vida
a última é a mais clara.
a desavisada, a mais bonita.

*

algo de novo entre a Oswaldo Cruz e a Tamoios

uma vez você me disse como as embaúbas se destacam pela serra
e hoje me impressiono como a imagem das embaúbas
te destaca na minha memória e o caminho para Ubatuba
deixa de ser um caminho e se torna uma escola

você falando do outono, e das
tardes quentes de outono, e das
noites frias de outono, e como
esse contraste bem definido
é específico da estação

alguém cruza os ares de paraglider enquanto
estou preso no quintal de casa e penso
como é ver um pássaro sob a ótica de outro
na gaiola todo solo é suspenso
do céu o mar inteiro é chão

***

.

Raí Prado Morgado é estudante de Engenharia Florestal da ESALQ/USP e tem poemas publicados em revistas literárias do Brasil e da Argentina.

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