Alpendre Conto

Até onde alcançamos, conto de André Mellagi

Foto de Engin Akyurt // Pexels

Por André Mellagi – 09/09/2021

Hoje é o dia da feira? Ou seria de colocar o lixo para fora? Esta hora costumava estar na igreja. Minhas orações espalhavam-se em meio a embalagens de comida mexicana por entrega e de roupas embaralhadas com os dias. Consultei o calendário, há treze dias não te via. O sinal de wi-fi ainda abria as janelas para o mundo, de onde observava pela tela do celular o que estava além dos metros quadrados de meu apartamento. A alta do dólar, as estatísticas de casos novos, uma live de aula de yoga, sexo com uma camgirl, um show dentro de um estúdio improvisado num quarto. Ou quando queria notícias de você. De resto, me desligava nas séries em streaming que preenchiam o tempo e substituíam a alforria deste encarceramento em massa.

Aproveitei para arrumar o quarto. Pendências que vou adiando e criando outras conforme a necessidade do ócio. Caixas empilhadas no fundo do armário guardavam conteúdos subconscientes de tudo aquilo que queria esconder sem jogar fora, como traumas de estimação. Vasculhei álbuns de fotografias de quando era comum revelar as imagens com datas ou eventos escritos no verso. Lá estávamos nós no banco traseiro do Chevrolet Monza do pai. Na caixa ainda havia cartas da época em que a letra carregava a vibração de uma caligrafia impregnada de saudade e rancor. Aquele meu troféu empoeirado de valor ainda a ser escavado na memória: uma medalha de participação no campeonato de natação do colégio, enquanto que seu troféu de primeiro lugar permanecia perdido para sempre depois de outra mudança, depois que a mãe morreu. E achei também o chaveiro de metal em forma de guitarra que você trocou por um adesivo do Motörhead. E que você nunca mais encontrou.

Marcos olhou para mim com a surpresa de que algo diferente estava acontecendo em meio a toda aquela quinquilharia esparramada no chão do quarto. Mostrei a sua foto. Ele parecia recuperar alguma semelhança do que você foi e quem ele é, afinal tinham quase a mesma idade. Marcos procurava um espelho na sua face séria diante da câmera que congelou sua infância naquele papel. Recusávamos em comum acordo reconhecer como estaria seu rosto agora por detrás de esparadrapos e tubos de ventiladores mecânicos. Logo em seguida, Marcos retornou ao jogo que baixou pelo celular, do que vale o passado se não oferece alento ao presente? Os dias de praia, o sol ofuscante na película amarelada, os flares de luz atravessando a copa de uma árvore no parque, duas crianças cobrindo caretas no contraluz sem flash, um braço cortado, registros de quando a escassez do filme e a imagem escondida na câmera analógica não permitiam o descarte das fotos ruins. Funcionavam como prova única, uma pista para a memória desfocada como as lembranças são, uma indicação que completei o antes e depois do clique, talvez o dia que nos engalfinhamos à beira do lago do parque da Aclimação por causa de um avião de isopor. O pai me deu o azul, mas eu queria trocar pelo seu avião vermelho porque voava melhor. Brigamos até que o pai resolveu destruir os dois aviões e voltamos no Monza odiando aquele dia que sorrimos para uma fotografia que agora guardei na caixa.

Acompanhei Marcos em seu retorno ao presente e acessei pelo meu telefone o canal de notícias. Desespero e esperança alternavam-se entre a contagem de número de óbitos e a testagem de vacinas. Equipamentos de proteção individual superfaturados ou ausentes no Amapá. Visitas virtuais em museus da Europa. Nas redes sociais, notícias falsas corroboravam teorias conspiratórias e alimentavam o charlatanismo numa panaceia milagrosa vendida em cápsulas. A retomada de passagens do livro do Apocalipse confirmavam alguma profecia escatológica de uma nova praga que vinha nos visitar. Lembrei de quando falei a você que isso não era nada, mera histeria de uma doença que só atacava velhos doentes. Do que você precisava se preocupar? Com a saúde em dia, corria três vezes por semana, pedalava seus vinte quilômetros aos domingos, cuidadoso na alimentação. Mas o avanço da pandemia estreitou as possibilidades de nossas escolhas. Governo decretando o fechamento do comércio e de serviços, mantendo somente as atividades essenciais. Porém, havia algo mais essencial para você, Cibele e Marcos do que sua loja de suplementos? A conta de luz chegava sem descontos das horas a mais que vocês tinham que ficar em casa. O aluguel vinha implacável e indiferente à perda de clientes e diminuição de encomendas. O termostato da geladeira pifou e não tinha onde comprar nem quem trocasse a peça. Dispensaram a faxineira. A escola de Marcos suspendeu as aulas e você permaneceu nesta prisão domiciliar equilibrando o tempo entre o balanço negativo do mês e aulas à distância sobre o período do Brasil colonial. Marcos não teve mais aulas de matemática, mas perdeu também o intervalo quando costumava trocar cartas Pokémon com os colegas. Nem poderia chegar perto dos amigos de rua, mesmo que ninguém estivesse tossindo. Não podia visitar a avó, ainda que Marquinhos purificasse suas mãos com álcool em gel depois de tocá-las em tudo que fosse tangível a uma criança. De tantos vilões poderosos, meteoros gigantescos, monstros que destruíam prédios inteiros, era um inimigo minúsculo que apavorava o mundo sem um super-herói para salvá-lo. A festa de aniversário foi cancelada. Uma bola de futebol murchava num canto do quarto. Marcos assistia da janela a um mendigo arrastando pela rua o entulho de medo e silêncio que a cidade acumulava.

Quando você me contou que não reconhecia o gosto do café que a Cibele preparava todas as manhãs, soubemos que aquela sua tosse evoluiu para um receio. O diagnóstico positivo fez você rearranjar seu apartamento e o meu, ao trazer o Marquinhos para cá para que a Cibele pudesse dar assistência a você enquanto se recuperava. Desde aquele dia, eu tocava seu interfone, afastava-me para aguardar você me acenar do sétimo andar, subia até seu apartamento e deixava na porta as sacolas de compras de supermercado e de farmácia para Cibele buscar. Fazia meu caminho de volta e via você lá de cima, acenando novamente e eu deduzindo seu sorriso por detrás da máscara. Sei que Cibele ou você mesmo poderiam pedir as compras por algum serviço de entrega, mas era importante para você que eu transmitisse ao Marquinhos que eu te vi, que você estava bem, que perguntou dele. Também entreguei um desenho que Marcos fez com você, ele e Cibele em meio a árvores e nuvens, como guardasse a realidade de uma época em que as pessoas poderiam se dar as mãos.

A incerteza evaporou nossos planos para o ano. Os feriados, se liquefizeram. Uma barreira de dúvida se interpôs entre todos. Ninguém mais avançava, o movimento se cristalizara. Repelíamo-nos e a atração fora banida, o toque antes necessário para sentir a vida pulsando era agora presumido numa distância asséptica. Súplicas em preces sufocadas por Covid-19. Distanciamento do desejo. Confinamento dos suspeitos. Tédio e desespero contemplavam a rua vazia de mãos dadas. A confirmação do resultado positivo da pandemia de incerteza. Formadores de opinião recrutando seus exércitos para uma guerra sem mapas. Não se ouvia a voz da razão quando o grito do pânico era mais alto.

Você perguntava de Marcos e ele mostrava numa chamada em vídeo como aprendeu a fazer um origami de sapo e eu relatava quais lojas do bairro haviam fechado. O noticiário não era suficiente, era preciso eu trazer a você o que acontecia ao seu redor. Se o jornaleiro Florêncio estava na banca; se o flanelinha perneta que vigiava os carros estacionados em troca de algum dinheiro ainda perambulava com suas muletas. Havia uma necessidade de um alcançar o outro, ainda que nos distanciássemos como cães raivosos amordaçados com focinheiras N95. Era urgente uma aproximação impossível. E você me relatava a visita de uma cambacica que veio bebericar a água do bebedouro dos pássaros pendurado ao lado de sua pequena horta no parapeito da sua janela. Contei que Marcos me ajudava na cozinha e que aprendi a fazer o brigadeiro que vocês gostavam. Mas no dia que iria levar o brigadeiro à sua casa, Cibele me avisou que você havia sido internado.

Busquei na lembrança as últimas palavras que você havia me dito, abafada pela máscara e entrecortada pela tosse, sua vontade em reformar a cômoda da mãe que passou por tantas casas depois dela falecer dois anos depois da morte do pai. O trivial que sempre adia o urgente para o dia seguinte, na tentativa de esconder sua gravidade em dizer o que era mais importante, como se isso decretasse uma conclusão e interrompesse planos lançados ao futuro. Depois vieram os boletins médicos que Cibele recebia e transmitia para mim. E eu contava a Marcos, invariavelmente, que você estava bem. Deixava de lado os detalhes da enfermeira que se paramentava como nós com um terço por debaixo do avental descartável. Que cada oscilação dos dígitos de sua saturação era acompanhada com apreensão. Que sufocávamos juntos na busca de alguma palavra que lhe recuperasse o ar, uma resposta ou um alento.

Você, intubado numa ala de isolamento, impermeável à minha voz. O que poderia dizer, também não consegui falar. Mas agora que mais sentia urgência de lhe contar, você não podia me ouvir. Encontrei no meio daquelas caixas esquecidas no armário aquele chaveiro em forma de guitarra que você havia perdido, mas que na verdade eu havia pego. Quando éramos crianças, tanto queria aquele chaveiro que aguentei seus socos mas não entreguei minha confissão. Guardei ele durante todos esses anos até expurgá-lo da memória. Pudera eu devolvê-lo, mas não pude, não sabia qual seria a hora certa e procurava não saber, priorizava alguma outra pendência para resolver, adiantava o pior que veio sem avisar.

Nem eu, nem Cibele e nem o Marcos conseguimos nos despedir. O caixão lacrado, o velório cronometrado, os amigos e longínquos parentes que transmitiam condolências em mensagens à distância e abraços virtuais. Guardei no bolso seu chaveiro, sem chaves para as portas dos dias que virão e que, de agora em diante, precisaremos abrir a machadadas.

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André Mellagi nasceu em 1973 em São Paulo, é psicólogo e escritor. Publicou os livros de contos Bricabraque (2017) e Interfaces (2019) pela editora Patuá. Também publicou o e-book de minicontos Prosas Breves, Mínimas e Semifusas (2021) na plataforma da Amazon. Colaborou com textos, contos e fotos em diversas revistas literárias, tanto impressas quanto eletrônicas.

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