Colaboradores Stéfany Caldas

Hiperconectados sem abrir a boca: como o Instagram está impactando os seus relacionamentos

Crédito Arte: Nathália Halcsik

Por Stéfany Caldas – 03/09/2021

Estava passeando pelo Twitter, quando a pergunta de uma mulher me chamou a atenção. Ela dividia com os demais amigos da rede que um cara com quem havia se relacionado há algum tempo era o primeiro a visualizar os seus stories e a curtir as fotos que ela compartilhava. A ideia era reunir ali sugestões de como puxar papo com esse cara.

Quanto mais as pessoas comentavam sobre a história e deixavam as suas impressões, a moça retratava a confusão que o comportamento do sujeito causava: aquela curiosidade toda em acompanhar tudo o que ela postava poderia ser interpretada como indício de interesse? Será que ele estaria dando pistas de que queria uma reaproximação?

O que todos nós já percebemos, com isso, e com outras várias situações que você certamente também conhece, é que as redes sociais têm cada vez mais espaço e significativa influência em nossas relações.

Esses impactos vão desde a forma com que a gente inicia um relacionamento, como ele é mantido, e também está presente na separação, como é o caso não só da moça do Twitter, mas, de uma série de outros exemplos.

Quando esse silêncio pós-término vem junto com “acompanhar todos os seus stories e curtir tudo o que você posta”, temos um fenômeno chamado orbiting. O termo foi cunhado por Anna Iovine e significa “mantendo você em sua órbita”, girando em torno de algo. Ou seja: perto o suficiente para se verem; longe o suficiente para não se falarem.

Em sua matéria, Iovine sugere três probabilidades para o comportamento: #1: é uma atitude calculista, em que alguém quer manter o outro por perto, sem descartar completamente; #2: as pessoas não têm ideia de que o outro vê quem está acompanhando as suas postagens; ou, #3: estaria interligado a um outro fenômeno intrinsecamente relacionado ao mundo digital: o que se denomina FOMO, a sigla para “Fear of missing out”.

FOMO é a sensação de estar perdendo alguma coisa: “A pessoa pode não estar necessariamente pronta para se comprometer com um relacionamento; no entanto, há uma preocupação de que se eles eliminassem completamente o contato com você, então eles podem perder a oportunidade de se reconectar com você mais tarde”.

Dessa forma, orbitar ofereceria, ao mesmo tempo, um olhar único sobre os recortes do cotidiano vividos por pessoas com que não se têm tanta intimidade, ao passo em que também permitiria certo distanciamento. Se as coisas em algum momento mudarem, responder um direct ou reagir a um story são “promessas” ao alcance dos dedos para reavivar essa aproximação.

Ainda que essa órbita ofereça a falsa sensação de proximidade, o importante é que a gente não esqueça de que algumas coisas permanecem as mesmas: os vínculos que formamos e as conexões que geramos são desenvolvidos e fortalecidos por meio de gestos, atitudes, ações e vulnerabilidades que expressamos dia após dia. Precisam de muito mais do que um reagir com “foguinho”, uma inclusão nos “amigos próximos” dos stories ou a curtida em uma foto.

Que essa espécie de terceirização das demonstrações de afetos não nos distraia do que a verdadeira dimensão de uma aproximação genuína, do tradicional papo com atenção e troca, provocam. Essas, sim, não nos causam nenhuma dúvida sobre serem uma pista de interesse ou não. Elas simplesmente são.

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Stéfany é jornalista pela Universidade Federal de Alagoas. Possui especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing, realizou cursos em Marketing de Conteúdo e Copywriting.
Gosta de escrever para se comunicar consigo e com o mundo, e aprendeu que a escrita, para ser ponte, precisa ter afeto.
Aqui fala de cultura, comportamento, relacionamentos, e tudo o que envolve gente!

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