Colaboradores Crônica Diogo Mendes

Máscaras desbotadas

Foto: Anna Shvets / Pexels

Por Diogo Mendes – 31/08/2021

É invejável, o fator adaptativo da humanidade. Precisa de poucos segundos, aleatórias horas, vários dias, incontáveis meses, para relativizar quase tudo, /sic/ quase tudo, uma das verdades, que nos agarramos – independente dos lados, nos quais espumam. Polos, polarizações, sempre estiveram no mundo (minha geração, e outras, demoraram entendimento das bolhas digitais). Movendo neurônios, utilizar máscaras, contra a Covid-19 consiste na principal maneira de bloqueio do contágio, sobretudo das variantes. Todo mundo deveria saber, até negacionistas, a questão também que como tudo no consumo, pessoas vendem, pessoas compram, para impulso financeiro.

Mesmo que muitas coisas foram descontinuadas, pouco houveram finanças sobreviventes. As contas de ninguém, daqui do Brasil, entraram em lockdown, boa parte das pessoas trabalhadoras operacionais, não podiam dar ao luxo da paralisação, afinal faturas: computavam, algumas subiram/ sobem, por vontade de quem manipula. Estalam todos os meses, açoites em nossas costas, nas datas escolhidas pra gente. Por sua vez, essas máscaras de pano que uso, ficaram tendo outras cores, não mais pujantes, começaram me materializar, um ciclo descontinuado, enquanto alguns países, em geral ricos, giram a roda da exploração, animais de zoológicos receberam vacinas.

As máscaras, trazem todas essas interrogações (??∞); o universo não parou, tendo que encontrar caminho próprio para financiar seu consumo. Entramos, quem podia, no processo de “prisão compulsória”, sem visitar a rua, um jogo de morte. Inúmeras pessoas, desenvolveram e/ ou desencadearam adoecimentos psicológicos, que levarão ao resto de suas vidas. Partículas de sabão em pó, no sentido às devidas lavagens das máscaras, caem da embalagem, refletora de luz da lâmpada, na qual seguro em cima da tapawer, obsoleta fornecedora de um delicioso sorvete. O pensamento recusa-se deixar minha consciência, enfrento não apenas o mundo, as pandemias planetárias, um mantra nacional dura: “esperança, sempre”.

Por momento, afundo as máscaras, em um líquido azul de flocos brancos, mistura torna neve tropical, tais coberturas descansarão algumas horas, borbulhas que rodopiam pelo índigo cinza, miúdas embarcações de pano permanecem naufragadas no recipiente. Tentativa da lembrança do gasto pote, fornecedor de sorvete – a delícia da massa gelada ocupou meu estômago – arrisco, na coletividade de um encontro em casa, entre risadas e conversas. Sem maior aceleramento, a ciranda das espumas diminui, através desta hidrosfera amadora, com objetivo que nenhum esporo do vírus da Covid-19 ora variantes, tenham ultrapassado essas proteções, tanto nos pouparam nesses últimos tempos, além das ciências.

Novamente perco, uma queda de braço com o relógio, volto as falsas caras, que abandonei num compartimento debaixo da pia do banheiro. Da torneira que escorre, procuro examiná-las, viraram pouco querendo, elementos do meu vestuário básico, convincentes para abrigo humano, calçados sortidos, indumentárias genitais, vestes inferiores, trajes superiores, etc. No sabão em pó, durou surpresa dos primeiros meses, à força buscaram outra agilidade, inclusive fauna e flora conseguiram; exibiram-se, os caldeirões da camada de ozônio dos grandes centros; folgaram-se. Esfrego, molho, torço, cuido para não danificar suas costuras da frente ao passo que seus elásticos reguladores, existem gestos minuciosos, apreendidos desde que iniciei utilização.

Tampouco a segurança, nunca esteve mais próxima da propaganda de qual máscara foi/ seja de eficiência maior. Certeza, muitas empresas aumentaram seus saldos, outras reergueram, como as de álcool em gel, as de desinfetantes, alteraram de logotipos a embalagens. Porcentagens e protocolos, tornaram estimativas, que valem do lado pessoal, isto é do medo instintivo. Fecho a torneira, com encolhida inclinação, do que manuseio das máscaras desbotadas, assim posso pendurar no varal da cozinha do flat, fixadas nos pregadores de roupas, das coisas fundamentais em prática doméstica, carecidos de adquirir neste mundo que pretenda viver, noto as proteções, ainda balançam, ainda gotejam, de encontro para involuntária secagem.

Altos do varal, os disfarces, que protegem nariz e boca, dão início ao esquema de enxugar – desfazendo daquilo, consequente da ilusão de novidade, das cores vibrantes dos desenhos e contornos. Batidos, à medida que suspensos, ocupam espaços em meio aos panos de prato, toalhas de rosto e corpo, fugidas da umidade da saída de ar do edifício, peças de roupas, suas urgências não aguentam uma ida à lavanderia, quaisquer outras coisas, da rotina caseira que favorecem para o cotidiano. Molhadas leves, estas proteções, inviabilizaram azulejos derrapantes da cozinha, sendo minutos posteriores, fatias do esquecimento, onde o relógio volta agir na completa quietude, aptas a jornada de fora.

Eis que as máscaras desbotadas secam, na temperatura instável dessa noite brasileira, apresentando doloroso aviso. Quando estas antefaces estiverem enxutas, serão ajeitadas, indo para uma cabine, com destino aos outros dos meus vestuários. Repousarão, a cerca dos engomares, aos critérios de como dobradas naquele momento de arranjo, talvez exato, embora passar roupa seja doutrina. Por instante, o tempo não acelerou, estou no meu presente, você está no seu presente (agora ou futuro), as esperas incomodam, visto que auxílios emanavam por varais. Nossas adaptáveis verdades, anêmicas em conjuntos. Doem, idem, os apitos de toque de recolher.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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