Colaboradores Hellen Araújo

Diário de uma professora inxamosa: volta às aulas e primeira semana de aula

Ilustração: Rodrigo Barbosa

Por Hellen Araújo – 31/08/2021

A música ‘penhasco’ do novo álbum da Luíza Sonza, veio para terminar o trabalho que o boy lixo começou, ou seja, tentar me matar. Isso é letra? “Cê sabe quem eu sou/ Sabe que se chamar, eu vou/ Cê sabe bem que eu sou/Sabe que me chamar, eu vou/ Eu não sinto raiva/ Eu não sinto nada/Além do que você já sabe/Pior é que cê sabe bem, meu bem/ O tanto que tentei”.

Olha, Luíza, não gostava muito de você, mas depois que acompanhei nos sites de fofoca, o massacre que estavam fazendo com sua vida na internet, fiquei sensibilizada e fui ouvir suas músicas, nenhuma mulher merece passar por isso. Porém, vou te contar um negócio, se eu voltar para esse dito cujo, serei abandonada pela minha família e amigos, porque precisamos insistir tanto com esses homens? Eu quero aprender a desistir. Não do amor, mas de situações como essas. Eu te entendo, mana. Porque o que mais queria era um chamado dele, mas assim, CHEGA!!! Deveríamos ter aula sobre desistência. Não suporto mais esses discursos que clamam por insistência, persistência e luta. Ok, a vida não é fácil, mas ficar insistindo em tudo? É preciso aprender a jogar no lixo aquela camiseta que não veste mais. Agora, eu acho que você vai voltar para o Whindersson Nunes, enfim.

Sendo assim, não quero mais saber de macho na minha vida, brincadeirinha hahahaha homens são muito cansativos. Vou focar no que interessa, meu trabalho.Esse nunca me abandona, não me troca por outra e nem tenta me matar. Será? Que emprego é esse, Hellen? Hellen?Caralho, tudo isso acontece na minha profissão de professora. Eu acho que meus ancestrais jogaram pedra na cruz de Jesus, né possível.

As aulas presenciais irão voltar seguindo os protocolos da OMS (sorrindo com respeito). Ontem, teve reunião na escola, e o diretor informou que será comprado duas máscaras para os estudantes, mas os professores não terão. Meu sangue já começou a esquentar, porque só tomei a primeira dose da vacina, independentemente, vou ter que voltar, e nem máscara vou ganhar? No estado de Alagoas, não basta ter o pior salário de professor no nordeste, precisa pisar na nossa cara? Se estava entusiasmada para voltar, esse entusiasmo caiu por terra.

Não sei o que é pior, sofrer por macho ou pela educação brasileira?

*

Diário de uma professora inxamosa: primeira semana de aula

Eu estava disposta para essa primeira semana de aula, mas é aquela coisa. O ambiente contagia, tanto para felicidade quanto para tristeza. Tenho uma carga horária semanal de 20h em sala de aula, e trabalho quatro dias por semana. Na segunda-feira, quando entrei na primeira turma, pensei: Deu à peste. Como vou falar de máscara por 60 minutos? Fiquei com vontade de sair correndo.

Esse lance de pedagogia transgressora de bell hooks e Paulo Freire, é bom mas é ruim. Adoro seus livros e tal, mas como aplicar isso na realidade alagoana? Caramba, Hellen. Estamos em uma pandemia do COVID-19, esqueceu? É verdade, nem nos meus piores pesadelos, imaginaria ser professora nesse contexto. Vou dar esse desconto, bell e Paulo. Porém, fui na primeira semana baseado nos ensinamentos do livro Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade, tendo como objetivo de dialogar com os estudantes sobre esse momento, e suas perspectivas de vida.

Teve um aluno que disse: Professora, não queria estar aqui nessa escola. Eu respondi: Eu também não, agora você pode ir embora, é só dar um espirro e dizer que está gripado, mas eu não. Meu salário é baixíssimo, se faltar um dia, não suportarei o desconto no final do mês. É meu enterro, neste caso, nosso enterro. Todos sorriram, acreditaram que estava fazendo piada, mas não era. Seguimos.

Trabalhei na segunda- feira e terça -feira quase de boas, porque ninguém fica totalmente de boas, nesse contexto brasileiro. Estava tudo indo, dentro do possível. Neste caso, puxando forças do além, para conseguir falar de máscara. Algumas turmas os estudantes interagiram, mas eu não tinha coragem de pedir entusiasmo. Eu, já não estava mais com entusiasmo. Quando participo de reuniões pedagógicas, fico grilada quando pedem para incentivar os alunos. Muito bem eu incentivo, mas quem vai me incentivar?

Agora, os terceiros anos foram o auge da semana. Estamos sendo orientados para preparar os estudantes para o famoso ENEM. Quando perguntei, quem iria fazer, tinha turmas que ninguém iria prestar o vestibular. Em outras, apenas uma. Eles faziam, inclusive, uma piadinha: Olha aí, professora, temos um representante.

Chorei. Chorei por eles,chorei por mim e chorei por todos nós.

Cheguei no final de semana, só o pito. Minha única coragem, foi, ir no Instagram do governador, e pedir aumento salarial para os professores.

***

.

Hellen Araújo é escritora, professora de Sociologia pela Secretária de Estado da Educação (SEDUC-AL), Mestra em Antropologia Social e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas. Pesquisa sobre raça, gênero e beleza tendo como metodologia a autoetnografia, ou seja, suas vivências são fontes principais de análise.

%d blogueiros gostam disto: