Colaboradores Ricardo Escudeiro

Dois poemas de Louise Erdrich // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Reprodução

Louise Erdrich nasceu em Little Falls, Minnesota, em 1954. Faz parte da Turtle Mountain Band of Chippewa Indians, tribo nativa dos povos Ojibwa e Métis, com base na Reserva Indígena Turtle Mountain. É autora de diversos livros, entre os quais constam romances, poesia, contos, infantis e um relato sobre maternidade precoce. Entre outros prêmios, “Love Medicine” (1984) conquistou o National Book Critics Circle Award, “The Last Report on the Miracles at Little No Horse” (2001) foi finalista do National Book Award, “The Plague of Doves” (2008) recebeu o Book Award Anisfield-Wolf e foi finalista do prêmio Pulitzer, “The Round House” (2012) ganhou o National Book Award. “Jacklight” (1984), “Baptism of Desire” (1989) e “Original Fire: New and Selected Poems” (2003) são seus livros de poemas. Erdrich é proprietária da Birchbark Books, uma livraria independente especializada em literatura dos povos nativos norte-americanos.


Indian Boarding School: The Runaways

Home’s the place we head for in our sleep.
Boxcars stumbling north in dreams
don’t wait for us. We catch them on the run.
The rails, old lacerations that we love,
shoot parallel across the face and break
just under Turtle Mountains. Riding scars
you can’t get lost. Home is the place they cross.

The lame guard strikes a match and makes the dark
less tolerant. We watch through cracks in boards
as the land starts rolling, rolling till it hurts
to be here, cold in regulation clothes.
We know the sheriff’s waiting at midrun
to take us back. His car is dumb and warm.
The highway doesn’t rock, it only hums
like a wing of long insults. The worn-down welts
of ancient punishments lead back and forth.

All runaways wear dresses, long green ones,
the color you would think shame was. We scrub
the sidewalks down because it’s shameful work.
Our brushes cut the stone in watered arcs
and in the soak frail outlines shiver clear
a moment, things us kids pressed on the dark
face before it hardened, pale, remembering
delicate old injuries, the spines of names and leaves.

Internato Indígena: As Fugitivas

Casa é o lugar pra onde a gente vai no sono.
Vagões indo aos trancos pro norte nos sonhos
não nos esperam. A gente pega é na corrida.
Os trilhos, velhas lacerações que nós amamos,
correm rentes ao rosto e vão dar bem
no pé das Montanhas Tartaruga. Quem cavalga
cicatrizes não se perde. Casa é o lugar que atravessam.

O guarda manco acende um fósforo e faz a escuridão
menos tolerante. A gente olha pelos buracos nas tábuas
conforme a terra começa a andar, andar até que dói
estar aqui, congelando nas roupas do regulamento.
Sabemos que no meio do caminho o xerife espera
pra nos levar de volta. O carro dele é agradável e quieto.
A estrada não chacoalha, só fica zumbindo
como um longo rasante de insultos. Vergões desgastados
de punições antigas em um vai e volta.

Todas as fugitivas usam vestidos, verdes e longos,
a cor que você pensaria ser a da vergonha. Esfregamos
calçadas porque esse é um trabalho vergonhoso.
Nossas esponjas cortam a pedra em arcos d’água
e no encharcado frágeis contornos lampejam
um momento, coisas que nós crianças gravamos no escuro
rosto antes de calejar, pálido, lembrando
delicadas feridas velhas, os espinhos dos nomes e folhagens.

§

Windigo

For Angela

The Windigo is a flesh-eating, wintry demon with a man buried deep inside of it. In some Chippewa stories, a young girl vanquishes this monster by forcing boiling lard down its throat, thereby releasing the human at the core of ice.

You knew I was coming for you, little one,
when the kettle jumped into the fire.
Towels flapped on the hooks,
and the dog crept off, groaning,
to the deepest part of the woods.

In the hackles of dry brush a thin laughter started up.
Mother scolded the food warm and smooth in the pot
and called you to eat.
But I spoke in the cold trees:
New one, I have come for you, child hide and lie still.

The sumac pushed sour red cones through the air.
Copper burned in the raw wood.
You saw me drag toward you.
Oh touch me, I murmured, and licked the soles of your feet.
You dug your hands into my pale, melting fur.

I stole you off, a huge thing in my bristling armor.
Steam rolled from my wintry arms, each leaf shivered
from the bushes we passed
until they stood, naked, spread like the cleaned spines of fish.

Then your warm hands hummed over and shoveled themselves full
of the ice and the snow. I would darken and spill
all night running, until at last morning broke the cold earth
and I carried you home,
a river shaking in the sun.

Windigo

para Angela

O Windigo é um demônio invernal devorador de carne, com um homem enterrado bem fundo em seu corpo. Em algumas histórias Chippewa, uma jovem derrota esse monstro forçando banha fervente pela garganta dele, libertando assim o humano que estava no núcleo de gelo.

Você soube que eu vinha por você, pequena,
assim que a chaleira foi pro fogo.
Toalhas se agitaram no varal,
e o cachorro se esgueirou, ganindo,
pra parte mais fechada da floresta.

Nas cristas do matagal seco uma risada fina começou.
A mãe resmungou da comida morna e ajeitou na panela
e te chamou pra comer.
Mas nas árvores frias eu falei:
Jovem, eu vim por você, se esconda criança e fique quieta.

O sumagre lançou cones vermelhos e ácidos ao ar.
Cobre queimado em madeira bruta.
Você me viu arrastar em sua direção.
Oh toque em mim, eu murmurei, e lambi as solas dos seus pés.
Você cravou as mãos na minha pelagem, derretida e sem cor.

Eu te raptei, uma coisa magnífica em minha couraça áspera.
Vapor fluiu dos meus braços invernais, cada folha das plantas
por onde passamos tremeu
até ficarem, nuas, esticadas como as espinhas de peixe limpas.

Então suas mãos quentes se agitaram em concha e se encheram
de gelo e de neve. Eu me derramaria ao escuro
correndo a noite toda, até que enfim a manhã cortasse a terra fria
e eu te carregasse pra casa,
um rio estremecendo no sol.

*

* Os poemas estão em poetryfoundation.org

***

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Desenvolve projeto de mestrado dentro do Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, na FFLCH-USP. Atua como editor na Fractal e como assistente editorial na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Revista 7faces, Arribação, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), Gazeta de Poesia Inédita (Portugal), A Bacana (Portugal), Germina, Jornal RelevO, Mallarmargens, LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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