Alpendre Conto

Dois contos de Maria Izabelly Lopes

Foto: Free-Photos / Pixabay

Onde a vida segue inteira

Lá onde minha vó mora, num tímido vilarejo encostado no morro, as pessoas são inteiras. Desde o momento em que a gente pula do ônibus e dá o primeiro passo para dentro da estrada de terra que leva à praça, tudo o que é nosso vem conosco. Junto com os pés sujos de barro, caminha minha família quando gritam que lá vem a neta de Dona Maria. Logo em seguida, perguntam dos meus pais e fofocam do meu passado. Era uma criança tão sapeca, precisava ver você. E o meu futuro anda antes de mim, cochicham ao meu ouvido: que é que anda fazendo lá na cidade? Vai estudar mais? Essas varandas falantes me veem toda.

Na porta da vó, onde sempre tem alguém escorado em um bom papo, chego com a mochila nas costas e um molho de couve que mandaram trazer. Aí, minha neta! Você tá com fome, né? Vem pra dentro, o fogão já tá com lenha. E enquanto o fogo come a madeira e engrossa o caldo de galinha na panela de pedra, vovó me vê toda. Escuta minhas fofocas da cidade e dá pitaco em tudo. Estuda com cuidado minhas queixas. Essa vida acelerada que você leva, é isso que te faz ficar com essa dor de cabeça, tá precisando de deitar mais na rede.

O fim de semana é assim: inteiro. As janelas das ruas me chamam para dentro e me oferecem café recém passado. Ninguém me vê só. Nem só corpo, nem só ego, nem só eu. Vovó me manda ir benzer em Dona Francisca e assim faço. Chego cansada da caminhada e me jogo na cadeira da cozinha dela. As ervas dos vidros em cima da mesa me investigam e ela me olha por cima dos óculos, tal qual um gavião. Ansiedade, de novo, é, menina? Eu concordo com a cabeça e falo sem relógio cronometrando o atendimento. No fim, ela me alcança um pote com a tampa rachada. Três vezes na semana, toma o chá dessas plantas que trata. Mas não cura, hein? Essa vida sua é que adoeceu, num é você, não.

Enquanto me acompanha para a porta, Francisca agarra meu pulso com força. Seu avô tá descansado, menina, se preocupa com ele, não. Reza uma Ave Maria para ele e vê se volta mais para ver sua vó, viu? Luto se cura com tempo e amor, num é com chá nem com pílula. No caminho até a Igreja, passo pela escola e Miguel me conta da festa junina que fizeram. Seguimos pela ruela, eu a pé e ele na bicicleta, e quando percebo, já não somos só nós dois. As crianças, tão inteiras quanto as da cidade, se juntam a nós e contam das aventuras na cachoeira, das natações no rio e das brincadeiras que fariam logo lá praça. Vem brincar com a gente. Me despeço no pé da escada, subo para rezar ajoelhada no altar e fujo para bater corda antes que o padre me encontre.

No domingo, Zé me espera no ponto da estrada e eu peço cinco desculpas pelos atrasos. Dona Maria num gosta quando você vai embora, eu sei. Minhas três bolsas cheias de comida vão no bagageiro e na mão volta só a caixa de ovos e a mochila nas costas. Me sento ao lado da Lurdes e ela me atualiza do que não tinha tido tempo de ouvir. Diz que o tal do prefeito queria proibir a festa de Santo Antônio. Diz ele que num dá lucro para a cidade. Você vê um negócio desse, num tem quem não fique bravo. E diz ela, ainda, que no dia seguinte estava todo o vilarejo na escada da prefeitura para comunicar ao homem que não ia cancelar o festejo coisa nenhuma. E assim foi feito: vai ter festa de Santo Antônio em Junho.

A rodoviária da metrópole, fria e vazia, me recebe com silêncio. Na segunda de manhã, eu volto para o trabalho não mais inteira. Se na roça sou unidade, sou fragmento aqui na cidade. Cada lugar eu sou uma: no trabalho, sou a peça da engrenagem. Na terapia, sou a mente acelerada que precisa ser tratada. No médico, sou o órgão remediado. Em casa, sou saudade.

Vovó sempre me diz que aquela gente não daria certo por aqui. A gente é roceiro demais, sabe, minha filha? E eu, apesar de sempre mentir que sei, talvez agora finalmente saiba. Quando a gente vive onde até os prédios competem para ver quem chega primeiro ao céu, a gente não consegue ser inteiro. Somos pedaços aqui, pedaços lá. É mais fácil assim… Facilita o controle das gentes — se a medicina medicar, a escola negligenciar, a psicologia acalmar e a igreja silenciar, controla-se boa parte do nosso todo. Fragmentada a vida, acalma-se a revolta, esconde-se o senso crítico, faz esquecer o fragmento político. Se perdem as varandas que falam e as lutas coletivas.

Se esquece que dor nenhuma no mundo é isolada: até o luto é implicado. Fragmentar a vida facilita deixar morrer — sem ninguém ver, matam o sonho. E depois, o sono. Matam também as gentes. Depois, passam a pílula para não doer. Mas Dona Francisca já avisou: luto não cura com remédio. E eu digo que o que cura, além de amor, é luta.

*

Velha Chica

Na madrugada de terça, sonhei com uma velha. Estávamos em uma casa no sertão Pernambucano onde eu costumava brincar quando bem criança. Eu não estava a mais de um metro do chão. Da varanda, eu podia ouvir a música que o rio tocava logo ali no quintal. O sol brilhava a água e iluminava uma figura corcunda sentada em um toco de madeira. O vento brincava com os cabelos longos e brancos daquela mulher. Enquanto eu reparava em algum detalhe do telhado, ouvi um raio queimar uma árvore. A chuva começou a morder o chão. Eu corri até a beira do rio e ofereci a mão à velha que, sem desviar os olhos do correr das águas, se apoiou em mim e veio caminhando comigo. Eu tinha pressa. Não queria me molhar e já podia sentir o frio das roupas pesadas grudando na minha pele. Ela, por outro lado, deixava os pés colados ao chão e os arrastava sem medo da água lhe alcançar.

Quando chegamos à varanda, já nem chovia muito e nós molhávamos mais o chão dali do que as nuvens foram capazes de fazer. A mulher me olhou e compreendi que precisava buscar uma cadeira para que ela se sentasse. De cima de um móvel do corredor, puxei um pano e pendurei-o em meu ombro. Depois de se acomodar naquela madeira desconfortável demais para a abundância do seu assoalho, ela ordenou. Sirva-me, seque-me. Com cuidado, temor e curiosidade, comecei a passar o tecido em seu rosto. Lembro-me claramente da textura da pele enrugada. Do cheiro de terra molhada e roupas beijadas pelo tempo. Seus olhos estavam fechados e seus lábios eram colados, de forma que só podia ver o contorno de sua boca.

O sol abriu novamente e o calor secava minha blusa quando a velha começou a falar. Me lembro da emoção de, repentinamente, ver minha tataravó, a qual não pude conhecer em vida e pouco ouvi histórias. Sabia que era a parteira do vilarejo. Trouxe ao mundo grande parte das vidas que conheço e o fazia sem instruções acadêmicas. Seu único material de trabalho eram suas mãos. Com elas, fazia partos, colhia alimentos, matava galinhas para sobreviver e tecia no tear cobertas que atravessaram a fenda do tempo e chegaram até mim. Enquanto a velha falava, eu lhe servia: sequei seus cabelos, troquei seu casaco e busquei um café quente na cozinha.

Sei que, embora tenha tido a sensação de ter sonhado por horas com essa mesma paisagem, não devo ter demorado cinco minutos para acordar. Levantei em um pulo e busquei revisar cada pedaço ali mesmo, na cama, para que não esquecesse nada no caminho até um caderno e uma caneta. Lembrava-me de texturas e detalhes e cheiros, mas parecia ter colocado o sonho no mudo. Consigo visualizar a boca da velha se mexendo lentamente, sem pressa para passar a mensagem, mas não ouvia nada.

Depois de muito angustiar essa lacuna psíquica, acabei percebendo que, mesmo incapaz de ouvi-la, podia entender o simbolismo de servi-la. Podia relembrar a beleza daquelas cenas. Nos sertões, são múltiplas as idosas como essa, espectadoras de rios, destemidas diante das chuvas e tão bravas quanto tigresas ameaçadas de extinção. São as velhas respeitadas pelas comunidades, aquelas que carregam no corpo enrugado toda a força de resistir à destruição da terra, que mantem-se em seus territórios para que ninguém se esqueça da importância de termos um lugar no mundo. São as mulheres que guardam o segredo da vida e flertam destemidas com a morte, encarando nos olhos todo tipo de demônio. São os úteros que colocaram no mundo tudo o que a gente entende como vida. As avós do tempo, as guardiãs do mistério. As parteiras de gentes e de revoluções.

***

.

Maria Izabelly Lopes é estudante de Psicologia e, quando ninguém está olhando, escreve e compartilha seus questionamentos e descobertas.

%d blogueiros gostam disto: