Alpendre Conto

Dois contos de Leo de Sá Fernandes

Imagem: 愚木混株 Cdd20 / Pixabay

O amor e o poder

Agora ele acorda e olha pra frente: o dia descortina-se diante das pálpebras que se abrem como persianas horizontais. Agora ele levanta sem entender muito bem o que é, do que se trata, onde está: está em um corpo, possui um corpo, isso é uma certeza, bem. Bem. Possui um corpo, é certo, mas possui um corpo como um reencarnado que se acostuma aos limites de um corpo: agora, após o sono, ele é todo uma fumaça densa e expansiva que, se pudesse, ocuparia o quarto inteiro (cúbico), o corredor inteiro (retangular). Se tivesse sido liberado do estado do sono dentro de uma pirâmide, bem, o formato de uma pirâmide ele teria. Mas agora ele é um corpo: acostuma-se, nos segundos que separam o despertar do mover-se primeiro, ao formato disforme de um corpo, como uma fumaça que se espalha por caminhos labirínticos, tubos de calibres diversos, braços, dedos, mãos, tronco, pés, o sexo, as coxas, os espaços entre a carne e as unhas. Levanta-se sem entender muito bem, e na parede à sua frente, lá está o recado.

“Coloque os fones de ouvido”, diz o recado. Ele obedece o recado pois que não sabe muito bem o que fazer. Nesta hora do dia ele é ainda meio plano, ele é ainda um personagem raso, nada complexo, sem contradições. Então o recado na parede manda e ele obedece, sem elaborar direito o que são os fones de ouvido, mas vê, abaixo do recado, esses objetos estranhos que se parecem com duas pequenas bolinhas pretas, macias, que ele intuitivamente afunda nos buracos laterais da cabeça até que elas fiquem completamente vedadas, e então uma voz suave, uma voz agradável, uma voz andrógina lhe diz: “bom dia”.

A voz, contudo, não está dentro de sua cabeça, ele sabe: é uma voz externa, que vem de não sei onde, mas ele ouve com atenção a voz lhe orientar que se levante, que tire a roupa de dormir e vista o uniforme do dia. A voz lhe orienta que se olhe no espelho, e quando se olha no espelho, vê: barba, cabelos, vê a pele levemente oleosa, os olhos inchados do sono, e enquanto se reconhece, a voz lhe conta, em alguns minutos, sua história até ali, lhe diz seu nome, lhe diz quem é, lhe diz que tem 25 anos, que é nascido neste país, que trabalha com tal coisa, que mora com a família, que a família são um pai, uma mãe, e duas irmãs, etc, até que ele se acostume a si mesmo… “Agora, desça para tomar café da manhã”, diz a voz.

Então ele abre a porta do quarto, e dá de cara com um longo corredor mal iluminado, e não tem muito bem certeza se deve atravessá-lo. Hesita por alguns segundos, pensa bem, mas antes que a hesitação durasse mais do que devia, mais do que seria natural, a voz lhe diz “continue”, e explica que o refeitório estará no andar debaixo, e que ao final do corredor haverá uma escada, e que ele deve descer aquela escada. Então ele atravessa o corredor e observa fotos antigas, de pessoas distintas, corpos tão disformes quanto o seu, em posições estranhas, enlaçando os braços umas às outras, os olhos das pessoas da foto lhe encaram, e suas bocas estão abertas, os dentes à mostra, é tudo um tanto aterrorizante. Fica um pouco assustado com aquelas pessoas em miniatura lhe olhando, e de dentro de uma das portas que se encontram ao longo do corredor, sai uma criança, uma menina, de cabelos longos, um corpo tão disforme quanto o seu, só que mais baixo, no rosto da menina alguns detalhes que parecem os detalhes do rosto, que ele vira antes no espelho do quarto. A criança leva um susto, ele leva um susto, mas não chegam a exprimir o susto, é apenas um susto interno: ele vê nos olhos dela que ela, assim como ele, não lhe reconhece, ao que a voz no seu ouvido lhe diz “esta é sua irmã”, e logo em seguida o olhar da menina se transforma, e a menina diz “bom dia”, e a voz lhe diz, em seu ouvido: “diga bom dia”, e ele diz: “bom dia”. A menina segue a sua frente, e ele segue atrás dela, até o final do corredor, e ambos chegam até o topo da escada caracol, descem os degraus cadenciadamente. A menina parece saber mais que ele o que deve ser feito, e ele resolve, por bem, segui-la (nesse momento ele já está um pouco mais acostumado com o corpo, e já ganhou certa contradição: já sente medo, insegurança, curiosidade, e certa afeição pela criança menina que, ao que tudo indica, é sua irmã, e por isso resolve continuar seguindo-a).

O refeitório é um ambiente todo branco, com uma mesa onde estão sentados um homem velho, uma outra criança adolescente, e sobre a qual estão dispostas algumas xícaras e pratos. O homem velho come de cabeça baixa; a adolescente de cabelos cor-de-rosa também se parece com ele, só que tem um estilo diferente (quando ela arruma os cabelos cor-de-rosa num coque, ele repara em seus ouvidos os fones pretos fixados). Circulando pelo refeitório, carregando um bule de café, a garçonete se aproxima. A garçonete é uma mulher mais velha, de cabelos pretos com alguns fios brancos despontando; a garçonete se aproxima, sorrindo, e ele vê no rosto dela semelhanças com seu rosto. “Esta é sua mãe”, diz a voz andrógina em seu ouvido, “ame-a”.

Ele demora-se a compreender a orientação: “ame-a”, repete a voz, ao perceber sua confusão tornando-se reação contraditória. Como funciona o gesto de amar? Como seria? A garçonete se aproxima cada vez mais, com o bule cheio de café em sua direção. Ele se assusta, não sabe o que fazer, derramaria o conteúdo sobre ele? O conteúdo parece negro e quente, e tem um cheiro intenso e familiar. “Ela é sua mãe, ame-a”, diz a voz mais alto, e ele já está entrando em paranóia sobre a ordem quando lembra-se das fotos no corredor, em que as pessoas enlaçavam-se umas às outras com seus cilindros de carne, essas duas coisas meio moles, meio rígidas (chamadas braços) que ele tem em par nas laterais do corpo, então ele envolve a garçonete com seus cilindros-braços, e a garçonete corresponde o gesto, e ele sente o calor do bule de café em suas costas enquanto ela lhe diz: “bom dia”, e a informação se fixa em seu repertório: amor é o gesto quente, cheiro de café, laços de braços de dois corpos distintos. Isto é o amor. Pronto. Agora saberia repetir o gesto sempre que fosse necessário.

Algo está errado. Há um sentimento de outrora, uma lembrança da noite anterior, um vulto, pessoas diferentes, ele voava, ele nadava, afundava-se numa espécie de céu brilhante, haviam outros rostos, era uma aventura, alguém lhe assassinava, do ferimento saía um coelho, os coelhos de multiplicavam, onde foi que acontecera tudo isso? “Beba o café”, lhe diz a voz, e ele tem, pela primeira vez, o lapso da distração: esteve fora-dentro, por um segundo, “isto é uma lembrança do sonho”, diz a voz, “agora, beba o café”, ele vê, o liquido negro e quente se amornando à sua frente, a garçonete-mãe lhe olha sorrindo, o homem velho come de cabeça baixa, a adolescente de cabelos cor de rosa ouve alguma coisa tão alto em seus fones de ouvido que o barulho extravasa, e a outra menina criança se aproxima dele e lhe dá um abraço (era esse o nome do gesto do amor), ele não sabe como reagir, então, para escapar do abraço (teria a voz dos fones da criança-menina lhe orientando que o amasse também?), ele pega o pequeno recipiente cilíndrico que continha o café e vira de um gole na boca.

O café tinha algo a ver com o amor, o gesto quente, o bule da mãe-garçonete nas costas, ele vai sentindo o líquido negro se espalhando pelo corpo inteiro, preenchendo suas cavidades, disputando o espaço dentro de si com a fumaça que ele mesmo era, e vai então se eletrizando, cada vez mais, as imagens daquilo que a voz chamara sonho vão se dissipando, era como se tomasse um choque líquido, algo fica mais aceso, e então ele sorri, sente-se bem, sente-se contente, sente-se amado e disposto a dar amor. Vai viver o dia, guiado pela voz externa que sai dos fones em seu ouvido, como aqueles pontos eletrônicos que usam os seguranças de shopping. Já não há mais shoppings, nem seus seguranças que controlam as entradas. A segurança internalizou-se, agora ele a carrega dentro dos ouvidos: “vai por aí”, diz a voz, “não não, não vai por aí”. Foi se acostumando ao longo do dia.

Foi guiado para dentro do quarto novamente. Foi orientado a sentar-se (“dobre os joelhos e apoie suas nádegas nesta almofada”). Sentia todo o amor pra dar pro mundo vibrando dentro de si – ao longo do dia a meia-vida da energia do amor se dissiparia; era como um pico; uma injeção; um gráfico. Era preciso aproveitar a energia do amor dentro de si para organizar tarefas. As orientações da voz andrógina no ouvido tornaram-se mais complexas. Falava sobre regras e leis, e mandava consultar arquivos e constituições para saber o que nelas estava escrito. Através da tela de seu notebook, ia recebendo demandas, pedidos, documentos – e deveria resolvê-los, sinalizá-los, respondê-los e encaminhá-los. Para isso precisava de um tipo de orientação tão específica que a voz parou de se comunicar com ele por palavras, e passou a emitir ruídos sonoros que lhe transmitiam códigos em outras frequências, às quais seu cérebro traduzia em ações impensadas. Vendo de fora, a medida em que desempenha o seu teletrabalho durante o dia, seus olhos ficam foscos como se perdessem a cor, o branco do globo, o preto da íris, vira tudo uma massa cinza que reflete a luz da tela. Após algumas horas, encontra-se cansado. “Abra a persiana, deixe a luz entrar” dizia a voz andrógina. Ele abre a persiana e deixa a luz entrar através das largas folhas de vidro que tampam as janelas: são projeções do lá fora que ele vê através. Que belas imagens. Há construções diversas, distantes, telhados, nuvens, são imagens em movimento, como um amplo descanso de tela, descanso dos olhos, que belíssimo esse vídeo inútil iluminado pelo sol. A voz o corrige: “aquilo é o real”. Como assim, o real? “A realidade”, diz a voz, “lá fora é a realidade”. Ele demora a entender, agora que a voz volta a se comunicar com palavras compreensíveis em português.

Mais tarde, a luz da realidade do lado fora baixa um pouco, o pico de energia se dissipa, já vai dar dezoito horas, “desça ao refeitório, tua mãe fez mais café”, diz a voz. Ele desce ao refeitório, agora já sabe onde é, esbarra na adolescente de cabelo cor-de-rosa. A mãe lhe dá café da garrafa térmica, ele toma, mas agora o gosto já está um pouco oxidado. Ele se sente meio estranho, como se a fumaça de si quisesse se expandir para além daquele formato de corpo. Lembra-se que houve um sonho naquela noite, lembra-se dos ferimentos, dos coelhos saindo de dentro; agora vê com mais nitidez; havia outra coisa antes, estava com uns meninos, curtindo, parecia de noite, eles dançavam, haviam luzes, alguém beijava sua boca, alguém pegava no seu pau, alguém soprava uma fumaça na sua cara. “Era isso” (dessa vez pensou sozinho, ignorando a voz), “era por isso aquela sensação de ser uma fumaça o dia todo”, tinha a ver com o sonho. A voz andrógina lhe manda voltar pro quarto, lhe orienta a subir, há trabalho para terminar, a voz volta a falar naquela frequência radiofônica estranha e ele sente um grande cansaço no cérebro, sente o cu dos ouvidos latejar pela pressão dos fones, resolve arrancá-los.

E de repente um silêncio. Um silêncio, pela primeira vez naquele dia, um silêncio, meu Deus, um silêncio, como era gostoso aquele silêncio. Que silêncio delicioso aquele silêncio.

Há outras janelas, através das quais ele vê lá fora, aquilo que a voz andrógina anacrônica (agora jazem os fones no chão) dizia que era o real, o real, o real, a realidade.

Ele avança, põe a mão na maçaneta da porta, não sabe bem o que está fazendo, guia-se por um sentimento puramente intuitivo. “Aonde vai?”, diz o homem velho sentado no sofá – era seu pai – “hoje não é seu dia de sair lá fora, você sabe”, o homem velho aponta para um calendário na parede: vê seu nome no dia de amanhã, mas sente que não pode esperar. Há um sol lá fora se pondo. Ele sorri debilmente para o homem velho, que ameaça se levantar; a garçonete-mãe vem da cozinha atenta, carregando um bule de café fresco no colo, os fones de ouvido dela (ele pode ver) emitem pequenas luzes vermelhas, “hoje não é seu dia de sair, querido”, ele sorri debilmente para ela e para ele, e os dois não sabem muito bem como reagir porque, secretamente, as vozes de seus respectivos fones de ouvido parecem não lhes oferecer orientações claras. “Bom, talvez sua irmã não se importe”, diz a mãe, trocando os nomes no calendário, “mas se for para sair, você precisa vestir a máscara. Deixa que teu pai te leve”. O homem velho nem chega a resmungar (a voz em seus ouvidos lhe instrui como se deve dirigir, onde estão as chaves do largo objeto monstro sobre rodas chamado “carro”). Descem por uma escada outra até a garagem, entram no “carro”, o homem velho aperta um botão no teto do “carro” – um portão automático logo a frente se abre e as luzes do real invadem brevemente o bunker onde moram.

O “carro” do pai desliza pelas ruas, como são vazias as ruas. Uma ou outra pessoa que circula apressadamente: são variações de uma mesma matriz, as pessoas. Todas as poucas que são vistas possuem fones nos ouvidos. Se dá conta de que, como ele, todas recebem orientações. Como aguentam? Como o pai aguenta, há tantos anos? Olha brevemente de soslaio, o pai não repara, ele vê rugas embaixo dos olhos cansados do pai, olhos verde opacos, “um dia foram belos olhos brilhantes como duas grandes azeitonas envoltas em azeite” ele pensa (mas não sabe de onde foi capaz de tirar tantas comparações esdrúxulas). Agora se dá conta que, diferente do pai, diferente dos outros que circulam pela rua, sozinho, solitário, está despido de seus fones. Precisa experimentar o ar do lado de fora, sozinho. O “carro” para em frente a um grande totem suspenso no ar, de onde são emitidas fortíssimas luzes coloridas: de longe era uma luz verde, e, à medida em que se aproximavam, a luz tornou-se vermelha, e o pai parou o carro. Era sua chance: abriu a porta do carro e saiu correndo.

Correu, correu, correu, sentiu uma coisa na pele, era um vento, uma brisa, um torpor, um perigo monstruoso, desviava dos “carros”, e as poucas pessoas na rua não prestaram atenção nele pois estavam atentas ao que diziam seus fones. O sol lá no horizonte se punha, correu tentando alcançar o sol, mas quanto mais corria, mais longe ele se punha. Começou a ficar ofegante, respirando o próprio bafo debaixo da máscara que usava, a máscara que a mãe lhe mandara usar. Então parou, arqueou as pernas, cansado, no meio do perigo das ruas, e viu, ao seu lado, ali, na calçada, o corpo de um coelho morto.

FIM

*

A praia falada

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
(“Consolo na praia”, Carlos Drummond de Andrade)

De dentro da praia de Salvador. De dentro do mar de Salvador. Um leão, com sua juba encharcada, puro peso de carne e pelos dourados, seus pelos reluzem à luz de sol enquanto ele sai do mar, este leão molhado. Não é contudo leão marinho, é leão que sai do mar molhado. O mar atrás de si, uma infinidade verde jade, um mar de um verde jade que parece um pouco cítrico, um pouco ácido à vista, um mar cercado por uma grande praia que ainda não existe. É paraíso, praia paraíso, de paradisíaca chamam esta praia, exceto este leão, ainda que molhado, pouco patético, sua juba encharcada, oferece mais perigo ainda ao transeunte, ao banhista, porque é leão que sai do mar, que nada, leão sobrenatural.

Praia porque praia deve ser uma invenção recente, praia deve ser uma invenção recente das cidades que se esbarram no mar, cidades que deram de se construir nos arredores, Salvador é um triângulo, as cidades foram sendo construídas no intrínseco dos continentes, foi assim que os espanhóis fizeram pra colonizar América, mas não os portugueses, estes não, estes gostam de salmoura e maresia pra corroer as janelas de suas casas, estes gostam de colonizar e de fincar bandeiras sem nem mesmo descobrir interiores.

Então este leão que sai, este leão que avança e caça pela praia inteira deserta, a esta altura, este leão avança rumo a areia sem dificuldade que se encontra em caminhar, ele caminha com vagar, destreza e elegância, e aos poucos o sol que acima assim nos ilumina todo dia, o sol, este trabalhador incansável desde a pré-História vai secando do leão a juba, e ele segue imponente pela praia sem resquício de molhado estar, de molhado ter estado.

Mas praia dá fome. Quem de nós nunca estirou o corpo todo largado, o corpo todo lagarto no sol, e sentiu fome ao meio dia e vontade de almoçar faminto um boi inteiro? Este leão, faminto e encharcado, agora seco e reluzente, é o bicho mais bonito desta praia. E eis que em seu caminho de fome, ele me encontra, e estou nu e só. Completamente nu e só na areia.

Não sei como cheguei até aqui, sequer eu sei de mim, sequer eu sei dos outros, nem sei o que é país, tampouco sei Brasil ou Salvador pois que nesta altura eu sequer jamais falava línguas. Minha língua eu lembro tremia na boca pra urrar ou murmurar ou pra suspirar de alívio ou pra sons de me ligar ao céus quando eu assobiava ou entoava cânticos de antigamente.

O leão então me vê faminto, eu presa, eu carne fresca, e sem muita elegância, nem também muita ousadia, como se fosse óbvio, como se fosse nítido, ele vem e me ataca. Ele vem e me ataca. E eu, completamente nu e só, tenho como coisa alguma pra me defender do bicho, unicamente a minha capacidade de também ser bicho, pois ainda nesta altura eu sei urrar gritar esbravejar e usar os dentes e as unhas longas pra me defender.

Mas logo já é na primeira patada ele lacera o meu rosto inteiro e sangue sai, eu sinto um dente se soltar no fundo e o osso do nariz se quebra. Estou um tanto inconsciente pois que não sei cidade e não sei Brasil, tampouco sei leão, eu, tão pouco sei de mim, largado assim naquela praia porque praia é como chama-se este trecho de mar que dá em cidade, e cidade é este trecho de terra cercada, capital, levei eu foi um susto que de meu ócio solar eu fui tirado com tamanha violência sem ter tempo nem de admirar o porte deste bicho, tamanha obra de arte.

Na segunda patada, com suas garras de aço, ele lacera o meu peito, fazendo jorrar sangue e deixando o coração exposto. Deixou meu coração exposto, este leão, e nós dois ali sozinhos ouvindo as batidas. Olhei pra baixo assustado e pude ver meu coração inchando e desinchando, lascas dos meus ossos se espalhavam pelo chão da praia em Salvador e eu já era eco do que fora antes com a pele invólucro intacta. Enquanto me distraio e olho, ele vem com sua bocarra imensa e arranca um braço meu inteiro de uma vez dor insuportável sinto e vejo em sua boca dedos mão e cotovelos e no meu corpo um coto sangrando e um resto de osso um caniço escuro fugidio.

É neste instante que eu fujo, corro um pouco, pra tentar raciocinar a dor que ainda sentia, e sobre ele eu tenho ainda uma vantagem pois que sei pular, e ele não, ele finca as patas manchadas com meu sangue na areia e pode até saber nadar, incomum para um leão, mas não sabe como eu dançar nem pular alto. Eu pulo em cima dele e me lanço sobre suas costas, dou um murro em suas costelas pra quebrar sua espinha. Ele geme de dor e somos um só corpo em violência mútua, manchando sangue a areia praia Salvador.

Olho de relance para dentro da cidade, olho pra pedir ajuda, olho pra me despedir, mas nada, nada, absolutamente nada em Salvador pra me salvar. Olho para o olho da cidade e descubro que ela ainda não formada, ela ainda deformada, não fora ainda construída. Salvador não é Salvador ainda. O Brasil ainda não é o Brasil.

Somos somente isso: um homem, nu, eu, e um leão, recém do mar saído. Se embolando, se matando, um querendo ser do outro o almoço. E com minhas unhas compridas de homem primal, homem nu naquela praia sem destino, largado ao sol de uma cidade sem cidade, é tudo que me resta: enfio as unhas nos olhos do leão, vai de com força mesmo, e sinto a gelatina espessa se romper pra dar vazão a perda da visão do leão, que sente a luz do sol sumir de seu olhar e perde o verde jade de mar de onde viera para sempre, e urra, e ruge, e lança sobre areia toda sua altivez e toda sua garra, sua violência desperdício, pra que nada, agora nada, serve nada, e deixo o leão enlouquecido correr e se jogar por entre as dunas até que ele sente o mole da areia, o seu destino, e com o rabo entre as pernas volta para o mar de onde nunca devia ter saído.

Eu, sangrando, o coração exposto, sangue meu ou sangue do olho do leão, nu e só, sangrando, um braço só, em carne viva, pendurado um coto do lado direito, mas completamente vivo.

FIM

***

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Leo de Sá Fernandes é jornalista, dramaturgo e ator, formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP e pela SP Escola de Teatro. Mora e trabalha em São Paulo, cidade onde nasceu e que alimenta muitas de suas criações literárias. No teatro, é autor de O Estado contra George em Alcolu e As colônias, publicadas pela Editora Efêmera, além de O devir animal, agraciado com o Prêmio Jovem Dramaturgo da Escola SESC do Rio de Janeiro. No audiovisual, é um dos autores da série Boto, produzida pela Artrupe Produções Artísticas e exibida pela TV Cultura. Também é autor do livro de poesia Murro em ponta de faca, publicado pela Editora Primata. Escreve regularmente para o site Prosa do Observatório.

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