Alpendre poesia

Três poemas de Gyzelle Góes

Foto: Fabio Lima / Pexels

corvo

(tudo o que amei,
amei sozinho)

era Poe
em uma taverna
com uma cerveja escura
e quente na mão

eu posso sentir
a mesma solidão
daquelas que é precisa
para não endurecer

se não
a gente
vira gado

se não
a gente
vira cardume
empilhados
dentro de
latinhas
dentro
de um
depósito imundo

e eu sempre
fui aquela
que olha para os lados

atravesso
antes
de todo mundo

*

algum lugar no qual nunca estivemos

você fala de amor
feito uma criança abrindo
o álbum completo de figurinhas

declara a despedida
como se já soubesse que nós
nunca nos encontraríamos

talvez algum dia eu te ouça
recitando um poema
que pareça ser em meu nome

talvez o poema seja
algum lugar no qual nunca estivemos

*

dilúvio

te aguardo
com o coração áspero

faço das minhas mãos
o teu aquário:

nossa correnteza

***

.

Gyzelle Góes é poeta, carioca, nascida em 1994. Autora de Amante (Urutau, 2019). Formou-se em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente pesquisadora do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira (AMLB), trabalha com arquivos pessoais e poesia contemporânea.

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