Colaboradores Hellen Araújo

Diário de uma professora Inxamosa

Ilustração: Rodrigo Barbosa

Por Hellen Araújo – 30/07/2021

Não foi um beijo, mas uma tentativa de assassinato.

Estava pedalando pela avenida quando avistei Roberto, tentei ser atriz global e fingir que não estava vendo, mas não teve jeito. Ele começou a gritar pelo meu nome: “-Hellen, cadê você no whats?” Droga, tive que responder. Gostaria de ter sido fria e firme, mas não fui. Quando comecei a olhar para aquela boquinha carnuda, lamentando minha ausência no whats, não resisti. Quem resiste a um pretinho? Quase um ano sem beijar na boca, pensei: “- Um beijo não vai me matar?” Pois bem, quase me matou.

Ele colocou a mão na minha cintura e depois foi subindo, subindo, subindo e fui deixando. Quando a mão chegou na minha nuca, aí lascou. Já estava molinha e deixei ele me beijar. Foi tão bom, mas tão bom que parei, porque fiquei com medo de fazer besteira na rua. Fui para casa e voltamos a conversar. Comecei a imaginar nossos filhos com cabelo black, lábios grossos e sorriso gigante. Fui dormir feliz da vida, mas quando acordei não sentia mais meu paladar. Percebi quando fui tomar minha primeira golada de café, né possível. Não acredito!

É isso mesmo que vocês já estão pensando, estou com coronavírus.

CORONGADAAAAAAA!
NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOO!

Os sintomas não foram tão severos, mas meu desespero foi. Só vinha na cabeça, minha mãe. Meu Deus, minha mãe! E agora? Quando percebi os sintomas, corri ao posto de saúde para fazer o exame necessário, fiquei imaginando como tinha pego, não conseguia imaginar, eitaaaaaaaa. Foi o beijo? Um mísero beijo! NÃO!!! Eu só tinha saído de casa para andar de bicicleta, não acredito!! Depois que a confirmação deu positivo para o covid-19,mandei uma mensagem toda preocupada para o boy, sabe o que ele falou? Que apresentava os sintomas há alguns dias, mas estava tomando cloroquina. Oi? Não acreditei. Mentira! Eu não suportei tanta raiva, e comecei a gritar com todos os palavrões possíveis que poderiam sair da boca de uma terrestre.

Ele desligou o telefone na minha cara, e depois mandou uma mensagem dizendo que eu estava muito alterada, que não precisava tanto. Não precisava tanto? Filho da peste, estava corongado e achava que um remédio sem comprovação científica iria ajudar. Colocou tantas vidas em risco. Eu coloquei a vida da minha família em perigo, por causa de um beijo. Fiquei isolada no meu quarto e todo mundo da minha família acabou indo fazer o teste, mas ainda bem que ninguém foi contaminado. Porém, além de lidar com a angústia de não infectar ninguém, tive que ouvir coisas horrorosas sobre isso. Fui acusada de mentirosa, pois ninguém acreditava que tinha sido apenas um beijo. Fui incriminada de ter ido ao Dallas Motel, mas não era verdade. Foi um beijooooooooooooooooooooooo.

Ele não me beijou, ele tentou me matar.

Não havia argumentos diante da minha falha. Não quero mais saber de homens nessa vida, nunca mais. Vou só trabalhar e estudar…

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Hellen Araújo é escritora, professora de Sociologia pela Secretária de Estado da Educação (SEDUC-AL), Mestra em Antropologia Social e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Alagoas. Pesquisa sobre raça, gênero e beleza tendo como metodologia a autoetnografia, ou seja, suas vivências são fontes principais de análise.

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