Alpendre poesia

Três poemas de Felipe Fleury

Foto: George Becker / Pexels

Quando nada mais fizer sentido

adentrar uma casa
e deixar sempre a porta aberta
uma frincha que seja
por onde entre o orvalho da manhã

para regressar se der na telha
sobre a trilha calcada
no lume úmido do assoalho

quando nada mais fizer sentido
– como sonhos diáfanos entre paredes brancas –
e recuar for só um ato de coragem

se a violência do imprevisível
está do lado de fora
se a dor não estanca
se o pensamento não sossega

retornar à centelha, à palha, à chama.

*

Laptop

Quando te abro quotidianamente,
são os teus desastres de horror e cólera
que me inoculam as retinas.
É no teu fundo de tela rubro,
déjà vu cruciante, onde habita o reflexo
do meu semblante de sangue e vidro,
e é diante da tua boca terrífica,
a sussurrar estampidos surdos,
que limpo o sangue espargido no meu rosto
como se lava o chão depois do morticínio.
Movo-me pelo labirinto das tuas teclas
em busca de um esconderijo secreto,
onde o sono me cosa as pálpebras à terra
e, dos meus dedos, raízes ainda brancas
irrompam a proclamar a minha inocência.
Quando te abro cotidianamente,
nem o silêncio do teletrabalho me disfarça:
sou alvo fácil – como o espantalho
que se rende a um pássaro –
sou réu e vítima
de todas as tuas carnificinas.

*

Ternuras

Papai, palavra sem abas
que se abre e fecha
como um abraço apertado
e sem pressa, na linha do peito.

– exato momento em que
o coraçãozinho dela
vem bater dentro do meu –

Papai, afago do hálito doce,
devagar e sutil
que desalinha o meu silêncio.

Palavra dentro da palavra,
delicada e abundante.

Não como mamãe, é claro:
contra mamãe ninguém pode,
em profundidade e ternura,
nem palavra alguma.

Mas papai, ah papai
me desmonta
e nenhuma parte se rejunta.

***

.

Felipe Fleury é Bacharel em Direito, funcionário público e reside na cidade de Petrópolis/RJ. Tem poemas publicados no e-book do concurso de poesias da Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ-2018), nas Revistas Literárias Diversos Afins, Cult, Mallarmargens, Ruído Manifesto e Subversa, entre outras, além de ter sido selecionado para integrar, com um poema, a antologia, “quantos players hoje – poemas do árcade ao console”, organizada pelas Editoras Patuá e Fractal. Instagram: @felipefleuryffc

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