Alpendre Conto

A última corrida, de Kerolene Souza

Foto: freestocks-photos / Pixabay

Tadeu contava os minutos para que seu trabalho noturno acabasse logo. Ele já se aprontava para pegar o rumo de casa quando seu celular avisou que havia uma corrida muito boa sendo ofertada a ele. O valor era quase o dobro do normalmente pago àquela hora, então Tadeu achou a corrida era uma ótima pedida – seria a última corrida da noite. Solicitada por um homem muito elegante, com uma pasta na mão, na esquina de um parque. Ele entrou no carro e se sentou no banco de trás.

– Olá! Boa noite, senhor. Tenho bala, água e jornal. Fique à vontade – disse Tadeu, sorridente. Ele fazia questão de ser muito simpático com todos os seus clientes, queria sempre ser avaliado como um motorista cinco estrelas.
– Boa noite. Agradeço, mas não quero nada, Tadeu – respondeu o homem. O motorista não estranhou ser chamado pelo nome, afinal, ele aparecia para os clientes no aplicativo.
– O rádio incomoda você?
– Não, eu gosto de música.
– Ah, legal. Sabia que tem gente que se incomoda? Nada contra, mas a pessoa não gostar de música é estranho, não é?
– Realmente.
– Eu gosto porque espanta o sono.
– Deve ser muito ruim trabalhar nesse horário.
– Mas, fazer o que né? Preciso do dinheiro.

Uma chuva torrencial caía e deixava a estrada com visibilidade quase zero. Um imenso engarrafamento se formou e deixou Tadeu estressado; agora demoraria muito mais para ele terminar a corrida e finalmente ir para casa. O rádio começou a tocar uma música de um cantor já falecido.

– Essa música aí é do fulano, não é? Aquele que morreu novo?
– Sim, já faz algum tempo – confirmou o passageiro.
– É, tem gente que vai embora cedo.
– É verdade. E quanto a você, Tadeu? O que acha da Morte?
– O que eu acho?
– Sim, o que acha que acontece quando morremos?
– Acho que depois que a gente morre acaba tudo.
– Tudo?
– Tudinho – reforçou o motorista.

O passageiro sorriu.

A chuva persistente, o engarrafamento maçante e o tempo passando foram deixando o motorista cada vez mais irritado. Buzinando incessantemente, ele reclamava.

– Que droga será que aconteceu? Por que está tudo parado?
– Foi um acidente.
– Foi? Está vendo aí na internet? – Tadeu se virou para o banco de trás; o passageiro estava com os olhos fixos para a janela.
– Um motorista pegou no sono e bateu em um poste – informou, como se pudesse ver algo que o motorista não via.
– Caramba! Eu tenho muito medo disso.
– De morrer?
– Sim, de sofrer acidentes, por isso sempre ando com cuidado.
– Mas, às vezes, nada pode ser feito. Você não deve temer a Morte. Ela é inevitável.
– Não devo temer a Morte? O que você é? Um padre por acaso? Ou um coveiro?
– Sou só uma pessoa que já viu muitas despedidas.

Tadeu estranhou o jeito mórbido com o qual aquele homem falava sobre a Morte. Olhando de perto pelo espelho retrovisor agora, reparava mais no homem. Ele estava vestido elegantemente. Havia tirado um livro muito grosso com páginas bem finas de dentro de uma maleta preta – curiosamente não mexia no celular, o que era uma coisa bem difícil de ser vista nos dias atuais.
Tadeu pegou seu celular para ver como o passageiro misterioso era no aplicativo. Não tinha foto no perfil – só o primeiro nome – e seu número de celular era uma repetição de 8 dígitos, e todos eles eram 6. Ele nunca tinha visto aquilo na vida.

– Este é mesmo seu nome? Azrael? – Indagou Tadeu.
– Sim.
– Diferente…
– Sim é.

Agora o homem olhava fixamente para Tadeu. Seus olhos continham uma cor estranha, de uma tonalidade um pouco cinza, mas ele sabia que não era impossível; decidiu acreditar que a cor estranha era resultado do seu sono e cansaço do dia, somados ao reflexo de algum farol de carro vindo na pista contrária. Tadeu pensava que ter aceitado aquela corrida não tinha sido uma boa ideia. Lá estava ele, tarde da noite, na chuva, preso no trânsito com um sujeito estranho – quem sabe até um assaltante. Curto e grosso, Tadeu se virou bruscamente e perguntou ao seu passageiro:

– Qual é a sua, cara? Vai me assaltar? – o passageiro não se abalou.
– Tadeu, acho que chegou a hora de você saber algumas coisas.
– Saber o quê?
– Sobre a vida e a Morte.
– Hum, que merda! Quer me vender um seguro de vida ou um plano funerário?!
– Tem que se acalmar, rapaz.
– Me acalmar uma ova! Você fica com esse papo todo errado pra cima de mim… Quem é você afinal?
– Eu sou aquele que todo mundo conhece um dia. Alguns procuram por mim, outros fogem, mas eu sou a única certeza da vida… Tadeu, eu sou a Morte.

O jovem motorista deu uma freada que quase joga seu passageiro para o banco da frente.

– Hum, claro… Sai do meu carro agora!
– Por quê? Não acredita que sou a Morte?
– Claro que não. Você é maluco! E de todos os táxis da cidade, eu tinha que ter apanhado você. Que sina!
– Acontece que eu sou, sim. Quer me ver como eu realmente sou?
– Eu não quero ver nada. Sai do carro – cada vez mais nervoso, Tadeu estava prestes a ir às vias de fato com seu passageiro.

Foi nesse momento que o homem tocou em seu braço e, por segundos, Tadeu viu a verdadeira face da Morte. A grande caveira negra e o cheiro pútrido que dela exalavam deixaram o motorista horrorizado, fazendo-o dar um grito tão alto que seria facilmente ouvido por alguém – se eles realmente estivessem em um engarrafamento. Desesperado, tentava destravar a porta e sair correndo do carro, mas por mais que ele tentasse, não conseguia; uma força misteriosa o prendia e o mantinha próximo daquela figura assustadora.

– Calma, Tadeu. Eu não queria te mostrar meu rosto, mas você precisava ver. Sinto muito, por isso eu uso roupas normais quando falo com as pessoas.
– Sai daqui! Me deixa sair, pelo amor de deus! – Gritava o taxista com as mãos no rosto, evitando olhar novamente para aquele rosto horripilante.
– Pode abrir os olhos, rapaz.

Tadeu olhou novamente e seu passageiro agora estava com a aparência normal.

– Se você é realmente a Morte, isso quer dizer que…
– Sim, você está morto.
– Isso é impossível! Quando aconteceu? Como?!
– Se lembra do acidente que lhe contei? Foi com você.
– Mas eu não peguei no sono na estrada. Eu recebi seu pedido e vim direto. Não bati em nada.
– O que você estava fazendo antes de atender meu chamado?
– Estava estacionado; escutava o rádio, eu acho.
– Não, você estava dirigindo; pegou no sono e bateu. Do seu pequeno cochilo ao volante até aqui já se passaram algumas horas. Nesse exato momento seu corpo já está no IML.
– Minha família já sabe?
– Sabe.
– Isso não é justo! Ainda sou novo… E minha mãe? Minha mulher?! Como ficam?! E eu ainda nem paguei esse carro…
– Isso é chato, mas nada pode ser feito. Cada um tem a sua hora; não se preocupe com os que ficam.
– Cara, eu tô morto!
– Por isso mesmo. É como dizem na terra: agora você está em um lugar melhor. Você irá descansar eternamente. Seus familiares vão seguir a vida deles, até o dia em que eu os buscarei. Essa é a dinâmica da vida.

Tadeu estava atordoado com tanta informação, ao mesmo tempo ele ainda se negava a acreditar totalmente no que estava acontecendo.

– Você estar escutando a rádio, atender ao chamado de um passageiro e se estressar na corrida são coisas que seu cérebro está acostumado a fazer todo dia. Embora as pessoas pensem que a mente para junto com o corpo, isso não é verdade. A mente não sabe que o corpo está morto, por isso ela fica como em um piloto automático. Por isso – enfatizou Azrael – você pensou estar trabalhando ainda. Você ia ficar nesse loop por muito tempo; aliás, se quiser, pode ficar assim para sempre. Seu espirito está livre agora.

– Então eu posso ficar na terra? Posso ir pra casa?
– Pode, mas isso não vai ser muito bom para você, nem para as pessoas que gostam de você.
– Como assim? Como pode ser ruim ficar perto da família?
– Acha que sua mulher vai ficar viúva para sempre? O que vai fazer quando ela se casar de novo? Sua casa vai ter outros moradores, suas roupas, outros donos, e até seu cachorro vai achar outro amigo. A vida de todos vai seguir e a cada dia que se passar mais fraca ficará sua memória, até que um dia ninguém mais lembre da sua passagem nessa terra. Você quer ver isso?

O rosto de Tadeu se entristeceu.
– Não.
– Pois bem. Pelo que vejo aqui, está escrito que você foi uma pessoa boa, e para tais pessoas, como você, existem certas regalias.
– Posso viver de novo?
– Não, isso não, mas posso te proporcionar uma eternidade feliz.
– Como assim?
– Se lembra do loop?
– Sim.
– Então, você pode escolher o seu loop.
– Posso?
– Sim, escolha qualquer momento da sua vida e viverá ele para sempre. É o que posso fazer por você diante da excelente avaliação que tem.
– Quem me avaliou?
– Todos, os de cima e os de baixo.

Tadeu buscou em sua memória pelo dia mais feliz que ele havia vivido; é curioso como muitas vezes o dia mais feliz de nossas vidas não é um dia comemorativo ou aparentemente especial, muitas vezes ele é só um dia comum, que se torna inesquecível para você por algum motivo. Então Tadeu comunicou a Morte e seu pedido foi atendido de pronto.

Os funcionários do IML nunca viram coisa assim. Quando a família foi reconhecer o corpo de Tadeu, ele estava com um sorrindo singelo.

***

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Administradora de formação, Kerolene Souza reside em Muaná, Marajó-PA. Nasceu nessa cidade em 1986 e hoje administra a pequena sorveteria da família. Escritora iniciante, ela sonha em ser romancista, mas por hora se arrisca em seus primeiros contos. Um deles já selecionado para uma antologia a ser lançada ainda esse ano.

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