Alpendre poesia

Três poemas de Mher Maia

Foto: Pok Rie / Pexels

Declínio ao cume

Olhávamos o mar a procura da imagem do infinito.
Muito mais próximo, ao que sufocara
sob o tumulto de nossas águas
oferecíamos o silêncio
denso e curvo
das ondas, as espumas
de memórias que retornam
sempre inteiras e reafirmam
manchas escuras na areia umedecida

*

Amor

É que a navalha,
depois do tecido,
atravessa os músculos,
rompe veias e artérias,
faz um estrago desgraçado,
depois os ossos, sim,
a navalha cerra os ossos
bem devagar
e cada vez mais devagar,
pois vai perdendo o fio
e quanto mais lento
mais prazer sente.

*

Narciso

fluir por tuas veias quero
propagar tua pronúncia
e repetir teus gestos em mim,
até que por fim, eu
e tu escorramos em nós
e sem forma, ninguém resista
e a sós, tudo desaba –
os olhos a luz e a casa

***

.

Mher Maia, sujeito trans feminino de Belo Horizonte. Tradutora e poeta. Acredita no poder da poesia de propor novas formas de subjetividade. Participou do Coletivo Partilha, grupo voltado para a interpretação de textos literários. Neste grupo pôde experimentar a performance poética como ferramenta radical de construção da identidade.

%d blogueiros gostam disto: