Colaboradores Crônica Diogo Mendes

Emojis na cortina

Foto: StockSnap / Pixabay

Por Diogo Mendes – 22/07/2021

Tremelica uma cortina pelo vento. Janela é da rua, minha visão faz, como muita gente, cabisbaixa numa procura daquela risada, embora mequetrefe, para rir, por meio dos sorrisos, que insistimos, no qual exerço nesse momento, a cortina está balançando, cheia dessas carinhas risonhas e amarelas – coisas da virada do século, já rotulam de ridículas. As dificuldades, tornam pueris, quando alimentamos nossa face cômica, entendendo um pouco em alívio, à medida que de novo, respiro errado, sem aproveitar o ar, eis debate pelos meus pulmões, para arranjo de cada átomo do corpo. No começo da quadra, miro essa cortina que continua a balançar, o vento quanto mais aproximo, tende fazê-la um movimento de dança. Uma coreografia esquecida, teve seus dias de celebridade, nas visualizações do mundo globalizado. Pensando à leveza, com intuito de trazer algo, viável a tatuagem do belo, a cortina regulava nesta arte de projetar movimentos sequenciais, tal performance, que ignora não haver nenhuma plateia. Passos aumento, radicou por mim de quem foi a ideia do objeto, um pedido de uma criança? Aquela proibida, fugida, expulsa da escola – caso uma pessoa adulta, respeita prudente a si.

Quase eu debaixo da janela, localizada no segundo andar de um pequeno prédio, em que às portas fechadas do comércio sentenciam nossa época. Caso regressem atividade mercadológica, não sabemos, os emojis na cortina mantém o próprio requebrado ao vento. Para fora, o tecido chama maior atenção, brinquedo de pano que fosse manipulado por alguém, em busca dessa inocência, os fantoches dos anos 2000, vendidos em lojas de materiais de costuras me recordo: pelugens falhadas, cabeças desproporcionais, olhos gelatinosos, sobrancelhas pontudas, cílios grosseiros, bocas arregaçadas, línguas reles, dentes aviltantes, braços inúteis, etc. Uma alavanca de existência, precisa vestir toda aquela representação, que vai desde a humana e animal, algumas também compostas em feltro, assim resultam brincadeiras antropomórficas para gentes, criança e adulta. A cortina de emojis permanece balanceando, saem da descascada porta do lugar, um grupo de homens, afirmam extensão, trabalhando com carreta de mudança, fico a pensar estacado do outro lado da via, se parte daquela trama, que me trouxe polidez, veio do ofício deles. No mesmo veículo sobem, na primeira curva desaparecem, sumindo em alguma avenida, da mesma maneira algo perpassa agora, dum afazer e outro, necessito da força daquela cortina oscilante, sem perder ligeireza do espaço consigo.

Comigo, vou caminhando, olho vitrines, aquelas que não abaixaram as portas, pendem ao fechamento, anos atrás a cidade era outra, esta lembrança incorpora em meu pigarro vespertino. Eu, inclusive, não me atentava com uma cortina de emojis – havia tanto para experimentar, algumas vezes minha carranca transforma em simpatia, fiasco de cogitação estava o pequeno prédio, dessa mesma rua que passo toda a semana, no intervalo do trabalho, a fim de um mantimento ou outro. Por alguns segundos, quis inteirar mais detalhes das pessoas moradoras daquela residência, também saberiam dos parentescos, destes ícones com datas comemorativas determinadas por sistemas operacionais, os emoticons; senão sonho de alguém ter um véu assim? Todo sonho é válido, até o cafona, para farpas intrometidas, julgamentos alheios. Em uma época que as pessoas têm tantos medos de praticarem extravagâncias de auditórios reduzidos, achei um gesto de ousadia, ao passo que fiquei alegre por qual – sem conhecer – instalou o revestimento na janela. Uma curiosidade estorva, porque da distância olhada, não pude confirmar o material balançante, de algodão ou até de plástico, prefiro a ideia neutra, de poliéster. A fuligem dos veículos, irá por meio do encardimento maltratar os rostinhos amarelinhos, talvez adiante, em resultado do descuido das pessoas que moram ali, caso tenham, um pet enroscará pela parte de dentro da cortina tendo seu tino daqueles círculos, populares entre as comunicações virtuais.

Malgrado, aqueles emblemas de enciclopédia digital própria na cortina, estejam cada vez longes de mim. Pouco esqueço, da emoção proporcionada, um relaxamento que há tempo não sentia, de modo idêntico larguei por bobeira. Descompromissos importam para insistência dos compromissos. Na janela, aquele cortinado de felicidade artificial dos suscitadores de coleção, têm olhares vindos de todos cantos possíveis, numa hora ou outra, quem mora na residência lembrará de colocar para dentro da vida, enquanto são acessados, imitando o propósito inicial dos antigos emoticons de adornarem conversas. Os diálogos, em todas as fases humanas defrontaram entraves aos adornos, restringem-se às inumeráveis camadas de ignorâncias, rótulos, falsidades, preconceitos e afins. Logo, a cortina dessas carinhas de enorme conhecimento, tornando incontáveis produtos de consumo traz adesão, fixando como gosto de vestuário específico cujo influencia o comportamento mundializado, igual um simples/ complexo emoji, mesmo quer alguém quer grupo quer regime de tamanha formalidade. A informalidade da cortina, é afetada por roncos do vento, sendo paralinguística (estudo não verbal que soma uma comunicação), ou seja, mais interagimos pela imagem, apesar do sentimento deste texto, que humildemente perdura em convívio de virais, a coisa e o sentido.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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