Alpendre Crônica

Quando me lembro de Joana, crônica de Max Leidemer

Foto: Tetyana Kovyrina / Pexels

Não tenho uma referência em forma de pessoa. Penso na minha memória mais antiga e não existe esse ser ou um nome, por exemplo. Existem jeitos, existe forma, cor, uns sons no falar, movimentos de olhar. O cabelo é algo importante, tudo nele é muito interessante. O cabelo é a moldura do rosto. Levanta com algum penteado, troca de cor e ali está uma moldura nova. Não é só balançar o cabelo, é mais do que isso, o corpo tem que estar na postura certa, o rosto também. A gente sente quando o cabelo completa um momento de impacto e quando ele atrapalha toda a concepção do ato por vários motivos, o vento por exemplo: o vento é vilão. Tem a coisa do batom, da sombra, do cílios. Cílios é algo fenomenal, tu bota um cílios na cara e deu! Tudo muda! A maquiagem em geral nunca foi a minha praia, não tive interesse em ir atrás de técnicas, basicamente por causa dos valores dos produtos e do que eu poderia comprar escondido. Mas a ideia de ter unhas longas, essa sim… Essa sempre me encantou. Uma vez, só coloquei uma unha postiça enorme e eu me senti a própria vilã, Nazaré Tedesco, de vermelho da cabeça aos pés. Infelizmente, não consegui ficar meia hora com elas intactas, no primeiro movimento errado, elas se engancham uma na outra, daí eu já me irrito e tiro. São lindas, as unhas, mas são absolutamente nada funcionais. A força que elas têm em criar essa sensação dentro da gente é incrível! Seja visualmente ou na jogada de mão junto do rosto, não importa, as unhas são ótimos elementos, inúteis, mas extremamente úteis. Elas só não são piores do que o meu predileto: o salto alto. Como pode um objeto de tortura ser tão incrível? Do humor à sedução: ele está em tudo. Assim que o salto alto abraça o seu pé e te ergue 10cm em meio aos outros e o teu quadril sente essa energia pulsante que sobe através dos ossos, é nesse momento que não importa onde você está ou quem está na sua volta, o pedaço de chão que estiver na sua frente se transforma instantaneamente a maior passarela do planeta! E você, no topo dos seus 10cm, vira a invejada miss sofrimento: por fora é pose, por dentro é a promessa de nunca mais usar aquele objeto que só pode ter sido criado para expurgar pecados na idade média. Tem o cigarro também, essa referência é muito forte em mim, mas prefiro não comentar muito. Não quero ficar passando a ideia de que estar com um cigarro na mão é lindo, enquanto está bebendo uma taça de vinho e escutando uma música leve, numa luz baixa, dentro da sua casa milionária naquela cidade que sempre sonhou em morar, você vai jogando o seu corpo levemente alcoolizado numa dança gostosa no ritmo da música, sorrindo por ser a dona e proprietária de tudo dentro dessa ilusão, protegida pela certeza de que na vida real, fora do delírio, você está sozinha no ambiente e ninguém pode estar vendo você ilusionando algo no meio do quarto. Eu não fumo, odeio o sabor do cigarro, mas na minha ilusão, ele é essencial nessa cena. Nas cenas de vilãs também, é imprescindível algo na mão. Neste caso, um cigarro é perfeito, talvez uma bebida também faça o mesmo trabalho, talvez… “Até que enfim chegou, Francisco Macedo de Aguiar, estava te esperando para nossa conversa. Preparei um drink especial para você… Oh, não, esse é meu. Com pouco teor de açúcar. O seu é este… Bobinho.”. Tudo isso é o que eu imagino, eu acho que é assim que minha ilusão monta em minha mente o desejo de se passar por pessoas e vivências diferentes das minhas. Mas enfim, resumindo: obviamente, o cabelo não tinha tantas formas, era uma camiseta, que eu botava a gola na cabeça e as mangas amarradas atrás como se fossem tranças. Assim ficava preso na cabeça, bem fixo e também tinha movimento, se a camiseta fosse de adulta, ia até a cintura. Já o batom era uma manteiga de cacau do inverno passado. Não é um batom de verdade, mas proporciona a sensação dos lábios coloridos, sem deixá-los realmente coloridos. Essa é uma estratégia muito importante para caso alguém chegar na sala e eu estar desprevenido conversando com o além, só tenho que explicar uma coisa. O salto não existia, ele inclusive iria atrapalhar a brincadeira limitando pelo menos 80% das possibilidades. Não ter o salto não era um problema, pois quando chegasse a hora certa, era só jogar o corpo para cima, segurar ele na ponta dos pés e manda a pose! Estava alí: um salto invisível digno para a ocasião, mas que duraria até o próximo passo ou enquanto a ponta do pé aguentasse. Quanto às unhas, elas eram improvisadas, não duravam muito tempo, mas o bastante para a ilusão necessária: prendedores de roupas. A dor gerada na ponta dos dedos e o constante sumiço dos mesmos fez com que a necessidade de unhas nestas brincadeiras fossem diminuindo, ficando a cargo da imaginação isso também. Pois bem, depois de diversos rituais de preparação, algumas vezes escondido, noutras perto de pessoas de confiança, onde não sentiria nenhum medo sobre aquilo que fazia, ela dava sua graça: a elegantíssima, mas também acessível, a bela e misteriosa, mas também carinhosa e humilde, sempre certeira e poderosa: Joana (!) – o nome possivelmente veio da relação com uma joaninha, mas não posso me certificar a essa altura da vida, isso faz pelo menos 20 anos. E ali ela ficava comigo, umas 3 ou 4 horas, alguns dias dando aula para alunos fiéis que acompanharam Joana por pelo menos 7 ou 8 anos, noutros apresentando um programa sobre qualquer coisa que tinha em sua volta, ou atuando em qualquer filme baseado em algo que havia visto nos últimos dias pela televisão. Com o passar do tempo a Joana foi sucumbindo a personagens mais singelas, mais tímidas, menos pavão, mais tigresa. Eu lembro vagamente de ter visto Joana de completo, tal como era quando nasceu, por volta dos meus 8, no máximo 10 anos. Hoje, às vezes, eu ainda encontro Joana, ela ainda é tudo aquilo que um dia foi, mas agora é livre, não se prende à unhas de prendedores ou cabelos de camisetas. De todos nossos encontros, nenhum foi na mesma intensidade de quando ela chegava lá na infância e transformava a sala de estar em um auditório de domingo, os objetos se tornavam convidados e plateia e qualquer colher em microfone. Ou então quando resolvia segurar algumas revistas e ensinar para o além que 10 x 10 é 100, mas que podemos ver se o cálculo está certo fazendo a prova real, basta dividir os 100 por 10, resultando nos outros 10 do cálculo inicial. Depois que ela sumiu, nunca mais fui o mesmo em matemática. Enfim, não me pergunto o que pode ter acontecido com a Joana e suas aparições, pois hoje eu acredito que em algum momento da minha vida eu a transformei dentro de mim, assim como sei que ela, em algum ponto da sua existência, me transformou dentro dela também.

***

.

Max Leidemer é dramaturgo, roteirista, escritor, ator e performer radicado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É criador e integrante do Grupo Criativo Manifestantes, onde escreveu, dirigiu e atuou nas peças teatrais “Cara[Cará] – Pega, mata e come” e “Juju, Cadú e Lu em O Mistério da Caixas de Cantigas” e nas performances “Chá da Meia-Noite” e “Experimento Quarentena”. Dirigiu e roteirizou o média-metragem “LINHAS TRILHOS CICATRIZES” e o documentário “Fagulha – Descobrindo a Criatividade”. Participou da criação do roteiro do documentário “Memória Sala Redenção”, dirigido por Paula Solaris. Além disso, é autor de outros textos dramáticos, roteiros para o cinema, contos e poesias.

%d blogueiros gostam disto: