Alpendre Conto

Ayrton Senna, conto de Raphael Lima

Foto: AaDil / Pexels

minha mãe vai saber disso hoje e de tarde eu não vou poder jogar futebol porque eu bem devo ficar de castigo. castigo é ficar no quarto lendo livro que eu não li quando tinha que ler e fazer dever o dia todo sem poder ligar a televisão. teve um dia que eu deixei o carro todo branco com o extintor de incêndio e eu fiquei de castigo e eu já sei como é. mas nesse dia eu me dei mal mesmo porque tava passando karatê kid e eu não pude ver porque não pode mesmo ligar a televisão. meu amigo vai precisar só falsificar a assinatura do pai mesmo. eles tão viajando nos estados unidos da américa. nunca fui pros estados unidos da américa mas um dia eu minha mãe meu pai meu irmão e acho que minha vó a lurdinha e o ringo também devem ir com a gente. não sei como faz pra ir mas sei que é avião mesmo. prefiro ir pra itália ver o milan a sampdoria mas todo mundo vai pros estados unidos da américa então acho que meus pais querem imitar é todo mundo mesmo. eu aprendi essa palavra com cinco anos quando meu primo ficava me imitando e a mãe dele chamava ele de macaco de imitação. ele parecia um macaco mesmo porque fazia cara de bobo. ele já até tinha cara de bobo mesmo.

hoje a gente passou a tarde toda e o segundo tempo na coordenação e a coordenadora no telefone pedindo pra nossa mãe buscar a gente na escola. nunca minha mãe vem me buscar na escola porque ela trabalha. é um moço lá perto de casa que pega a gente. eu e o jorginho e a martina. ele deixa a gente cada um na sua casa. o jorginho e a martina também nunca foram para os estados unidos da américa mas eu já combinei com o jorginho que a gente vai ver o milan. os pais deles trabalham lá nos estados unidos da américa mas é só de vez em quando. é a segunda vez que eles foram pra lá já. engenheiros. meu pai é bancário banqueiro não sei dizer. minha mãe trabalha perto do relógio grande que marca a hora da cidade. ela faz outras coisas também mas eu não sei explicar porque eu só vejo ela chegando em casa e saindo do prédio quando eu vou lá no trabalho dela que fica na central. isso. central. central do brasil. tem muita gente na central do brasil mas meu pai diz que é quem mora longe que entra no relógio. eles depois entram no trem e vão pra casa todo dia depois do trabalho. meu pai disse que depois que eu nasci o povo precisou vir mais dias pra cá e eles tinham que entrar naquele trem quase todo dia pra ir pra casa pra conseguir comer e ganhar dinheiro pra pagar as contas de luz gás água comida almoço café da manhã pão roupa e comida do cachorro.

sábado a gente foi ao mercado eu meu pai e minha avó e meu tio em outro carro. a gente tava vendo o jornal de noite e viu que ia ter alguma coisa que o moço anunciou e todo mundo acho que foi pro mercado no sábado porque a gente ficou mais de meia hora só pra parar o carro na vaga que não tinha árvore e a gente teve que voltar até com o vidro de trás aberto de tanto calor que fazia. a gente sempre ia em dois carros pro mercado quando o moço do jornal falava alguma coisa na tv mas eu só ia mesmo quando era sábado porque durante a semana eu jogava bola e tinha trabalho de casa quase todo dia e algumas vezes nem bola eu jogava por causa do trabalho que era muito e tinha sempre muita matemática e eu nunca soube matemática porque eu gosto mesmo é de ler. matemática é só conta conta conta tabuada não gosto.

teve um dia que eu bem lembrei agora que eu cheguei em casa e tava um monte de moço falando na televisão. uns diziam sim e outros não e ficavam gritando uns com os outros e levantando a mão pra frente. tinha hora que mostrava um monte de gente na rua gritando também. acho que ninguém ganhou presente de natal porque tava todo mundo bravo demais. depois desse dia um moço que sempre aparecia na tv parou de aparecer mas quase todo dia ele tava no jornal. teve um dia também que era meu pai que tava gritando pra uma senhora na tv. ela tinha um nome estranho e só falava no mesmo tom e todo mundo a partir do dia seguinte começou a falar poupança pra todo lado. tudo que se ouvia era poupança poupança poupança. eu lembro bem desse dia porque foi nesse dia que o pai da minha amiga do quinto andar caiu da janela. minha mãe falou que ele tava limpando e caiu. no colégio o tio do meu amigo também caiu do prédio nesse dia ou no dia seguinte. esse meu amigo saiu do colégio e eu nunca mais vi ele na vida toda. nunca mais. e algumas vezes eu tento lembrar da cara dele mas não vem na cabeça. isso acontece sempre que eu tento lembrar da avó que a cara dela não aparece na minha cabeça um pouco em cima assim onde a memória abre a caixinha pra gente ver as coisas que a gente quer lembrar. minha mãe tava explicando que isso acontece mesmo e que ela também vai esquecer um dia da avó mas é que ela lembra ainda porque viu a avó mais tempo que eu quase 30 anos. e ela lembra da cara da avó desde que nasceu e por isso não esquece.

hoje é sexta-feira e é o dia que o futebol é melhor porque a gente joga até mais tarde e é logo hoje o dia que eu e jorginho viemos pra coordenação e não vamos jogar futebol porque minha mãe não vai deixar e o jorginho não vai conseguir ir porque a mãe dele tá nos estados unidos da américa e minha mãe que tá levando ele quando ela sai do trabalho dela do lado do relógio da cidade que agora eu já lembro que se chama central do brasil. no domingo acho que minha mãe já vai ter me tirado do castigo e aí eu vou poder ver o ayrton senna de manhã na corrida e depois jogar bola e comer o churrasco que a gente faz na casa da minha vó. vó é a minha vó e avó é a vó da minha mãe mas a gente chamava ela de avó pra não confundir. meu pai falou que o ayrton senna vai correr no país que fica o milan. eu bem sou o ruud gullit no futebol mas não tenho a camisa dele só a do romário que eu comprei lá na cancela na loja que vende o jogo de botão. eu sou muito burro mesmo colei durex no meu time de botão pra botar número em cima e agora ele trava na cola na hora de chutar. é o taffarel o maldini o baresi o ricardo gomes o cafu. depois o raí o renato gaúcho o van basten o gullit o ézio e o toninho cerezo. meu pai falou que só tem atacante mas futebol é pra fazer gol e o meu time só tem gente que faz gol porque eu coloco todos os botões lá na frente pra todo mundo fazer um gol cada. O último jogo eu perdi de 8 x 5 mas antes eu ganhei de 7 x 6 e todo mundo quase fez gol menos o taffarel porque esse aí nunca faz mesmo.

hoje de manhã no carro eu bem lembrei do dia que eu chorei em casa porque queria ver o moço do disco de perto e era no maracanã mesmo que eu sempre ia todo domingo quase e naquele dia eu não pude ir só porque era de noite. ele tem um nome engraçado esse moço porque o pai do meu amigo tem um carro com o nome desse moço e eu já pensei nesse moço andando com um monte de gente nas costas como se ele fosse um carro. meu tio também tem um carro com o nome do moço. meu pai falou que ele tem o primeiro nome mas a gente chama mesmo ele é pelo nome do carro. e eu ouvia esse moço todo dia e não pude ir ver ele no maracanã porque minha mãe não deixou porque eu era pequeno e não podia ir. ela disse que era perigoso. teve um dia que foi perigoso mesmo quando eu meu pai meu tio e meu outro tio fomos ver flamengo e botafogo e todo mundo saiu correndo. eu bem bati a cabeça na grade mas nesse dia eu não chorei porque eu gostava muito de futebol e nunca chorava no futebol. a gente chegou em casa sem ver o jogo e minha mãe falou que deu no rádio que um monte de gente tinha morrido e que ainda bem que a gente não entrou mas eu queria ter entrado. eu era fluminense mas tinha uma camisa do flamengo de pano que era muito quente mas meu pai também era fluminense e não deixava eu usar então eu comecei a usar uma do fluminense camisa oito mas a gente perdia todo ano. a gente perdeu pro flamengo depois pra um time todo de vermelho que meu pai falou um monte de palavrão quando o juiz marcou um pênalti pra eles e depois a gente perdeu pro vasco. esse faz pouco tempo mesmo e o jogo foi muito chato porque não teve gol e toda vez que eu vou ver jogo eu gosto de ver gol. o primeiro jogo que eu fui ver bem teve gol mas era do time errado. era do vasco mas o gol foi do corinthians. meu tio era vasco e eu comemorei o gol do corinthians e ele falou que a gente ia apanhar e que era pra eu parar. eu gostei de ver o vasco perder porque eu não gosto do vasco porque eles sempre ganham do fluminense. mas meu pai disse que foi só depois que eu nasci porque antes só o fluminense ganhava. mas eu já tinha oito anos. eu tenho sete mas daqui a pouco eu faço oito e o fluminense nunca levantou o troféu quando acaba o jogo. o flamengo já tinha levantado duas vezes o vasco o time de vermelho. o fluminense nunca.

hoje a paulinha não foi pra aula porque ela tá com catapora. eu bem já tive e coça muito mesmo. mas o pior foi quando eu tive escarlatina. eu ficava quente e não conseguia engolir e com o suvaco vermelho e uma semana sem ir pra escola. uma semana inteira. chocante essa pereba. era feriado quando eu peguei e não tinha nem médico. mas aí minha mãe ligou pro meu médico que ligou pra uma amiga dele que também era médica que nem ele e a gente foi lá e ela descobriu a pereba. meu pai bem achou que matava porque eu bem ouvi ele falando que era perigoso e que nunca tinha visto aquilo. minha mãe que descobriu quando a gente tava subindo a rua da igreja pra ir no mercado e a gente nem foi no mercado. de noite quando eles foram lanchar que lembraram que não tinha pão. lá em casa a gente nunca jantava era sempre lanche mesmo. manteiga queijo minas queijo amarelo presunto pão francês suco de laranja guaraná natural café sem açúcar biscoito de maizena e bolo de maçã. minha vó só que sabe fazer o bolo de maçã e ela coloca umas maçãs por fora. fica bonito o bolo e eu sempre como dois pedaços deles mas às vezes minha mãe não deixa e eu nem provo.

bom. minha mãe tava quase na hora de chegar pra buscar a gente e a cara dela ia estar feia mesmo. mas o pior é que eu não ia levar bronca na frente do jorginho porque ela não é mãe dele e ele merecia também mas ela ia deixar ele em casa e contar tudo pra vó dele que provavelmente ia descer pra buscar ele no carro como ela faz quando a gente vai com o motorista lá da rua. aí quando ele saísse ia ser chocante mesmo. por que você fez isso raphael? já falei que na aula é pra prestar a atenção e se comportar porra. ela sempre dizia isso. e continuava gritando até chegar na entrada do prédio. não tem merda de futebol nem vai ver corrida no domingo. eu já sabia que ia ser assim mesmo que ela ia falar. mas a corrida era só domingo até lá eu ia conseguir ver sim porque eu sempre via. o senna bem ganhou a primeira vez que eu vi. e teve outra vez que ele parecia que ia morrer quando saiu do carro com os braços moles. tinha um moço que tinha o nome do meu tio e vinha atrás mas o senna era bom mesmo e ganhou. esse ano ele tava mal mas meu pai disse que o carro dele era bom e ele ia ganhar mesmo. ele tava de azul agora. gostava mais do branco e vermelho porque eu gosto de vermelho. e pelo visto o vermelho dava mais sorte mesmo. o flamengo tinha vermelho e ganhava o time de vermelho ganhou do fluminense o senna ganhava de vermelho. o fluminense tinha vermelho mas era meio esquisito. e meu pai bem disse que aquilo não é vermelho. é uma cor com nome estranho que nem tem no livro da escola.

a hora passou devagar naquele dia e eu comecei a achar estranho que ninguém chegava. eu tava lá deitado no banco da coordenação porque eu cansei de ficar sentado. a cadeira era muito ruim da tia selma e o jorginho já tinha ido no banheiro três vezes e uma foi fazer cocô. eu nunca fazia cocô no colégio porque eu gostava de limpar a bunda com chuveirinho e no colégio não tinha chuveirinho. a tia selma tava agitada e toda hora ela chegava perto de mim e me olhava e não falava nada. o jorginho bem chorou que eu vi ele devia estar com medo da avó dele que era uma velha italiana meio gorda meio forte que gritava toda vez que ele fazia alguma coisa errada. o nome dela era dona rafaela e ela nasceu no mesmo país do milan mas ela disse uma vez que a cidade dela era mais longe que o rio de são paulo. eu nunca fui a são paulo. minha mãe bem já foi pra fazer compras na avenida que aparece na televisão que ela bem me mostrou uma vez. chocante a quantidade de gente que anda com saco preto naquela avenida. mas é isso. o jorginho agora tava chorando mesmo e eu já não tava entendendo direito o que tava acontecendo na sala da tia selma porque eu perguntava e ninguém me respondia. tia selma não respondia tia edna não respondia. tia edna era a inspetora. ela era legal mas tinha dias que ela ficava brava. no dia de cantar o hino ela ficava brava quando a gente ria no pátria amada idolatrada salve salve. salvar quem? a gente não entendia nada daquele hino e todo mundo parece que cantava errado porque cada um falava uma coisa. a tia edna era preta e um dia ela bem falou que a tia selma chamou ela de preta. eu não entendia direito por que ela chorou nesse dia mas eu vi ela falando com a tia carla que mandava em todo mundo e a tia selma ficou uma semana toda sem vir pra escola.

a sala da tia selma começou a ficar quente e a gente cansou de esperar. eu comecei a achar tudo muito estranho mesmo porque eu queria me levantar do banco dela e não conseguia. acho que eu tava dormindo mesmo. de repente chegou um moço de marrom com capacete e me pegou no colo. eu não precisava ir no colo porque eu sabia andar e minha mãe bem disse que eu comecei a andar com nove meses. eu já não tava entendendo nada porque o moço bem saiu da escola comigo no colo e o mais estranho é que eu comecei a ver o moço saindo comigo. minha mãe tava na porta chorando e eu gritei duas vezes: mãe mãe. tio ricardo! meu tio também tava com ela e depois chegou meu pai correndo. foi só o tempo deles me beijarem a testa e me colocarem dentro de um saco preto e fecharem.

depois no dia seguinte eu entendi tudo depois que eu bem vi minha cara no jornal numa foto lá no bairro. lá tava dizendo que eu tinha morrido com sete anos depois de um tiroteio no morro do turano. eu bem tinha um amigo no morro do turano e ele também jogava futebol. aí dizia que eu tinha tomado um tiro dentro da escola. chocante tomar um tiro e não lembrar de nada. mas foi isso. tô numa fila aqui agora maior que a fila do mercado. tem um monte de gente esperando e a porta abre de vez em quando e as pessoas entram uma por uma. no domingo eu não fiquei de castigo e não vi a corrida. eu ainda tava na fila quando o ayrton senna chegou cumprimentando todo mundo que tava sentado. ele tirou o boné azul dele e botou na minha cabeça. nunca imaginei que fosse conhecer ele.

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Raphael Lima nasceu no Rio de Janeiro, em 1986. É fotojornalista e criador do projeto Sociedade Dividida, pelo qual já lançou os livros ‘Sociedade Dividida – Terra Santa’ (Independente, 2015) e ‘Sociedade Dividida – Iugoslávia (Ímã Editorial, 2018). Vive em Lisboa desde 2015 e divide o podcast Literalmente com Gabriel Benamor. Em 2020, lançou o livro de contos ‘Muitos São Chamados’, sua estreia na ficção.

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