Alpendre poesia

Três poemas de Tamires Prestes

Foto: 愚木混株 Cdd20 / Pixabay

É Real?

Numa observação intensa do movimento dos teus lábios, as ondas de fumaça invadem o meu ser
como se o desenrolar da cena acontecesse aqui
Resolvo tomar um banho para que meus pensamentos desvirtuem e as lembranças não me tirem de órbita
O que planejei como um momento de esquecimento,
foi a invasão de um inevitável oposto
A água quente tocava levemente meu corpo
Enquanto a olhava percorrer cada parte da minha matéria,
lembrava do nuance entre os nossos tons de pele preta
A tua expressão masculina de profundo gozo.
Ah, impossível não lembrar.
Ali os vasos de pequenas flores da janela assistiam o meu devaneio
As minhas divagações fantasiosas são capazes de te despir em qualquer situação
Te despir
Te sentir
De fato
A tua magia paira no ar neste momento
É real?
Tudo isso é genuíno da minha imaginação.

*

Eros e Psique

Somos poética
Recitamos a dialética
De nossos corpos
Sem estereótipos
Entre inspirações e respirações
Usamos a linguagem da natureza
Somos conotações
Conexões múltiplas
Energias místicas
Rimas e métricas
Somos Psique e Eros
Eu borboleta, você pássaro
Voamos livres e nos pertencemos

*

A mãe é braba!

Mas, mãe, tu é braba! Fez de mim o teu reflexo. Sou mulher preta, ninguém me deixa acuada.
E ao contrário do que pensavam, você me tirou da estatística, limpou chão que os outros pisavam pra me fazer mulher da linguística.
Saiu de casa aos 14 anos e foi mãe ainda adolescente. Mãe, eu sei da tua luta e dificuldade, é assim, mulher preta é interseccionalidade.
Eu sei, você não pediu pra me ter, mas foi com todo amor do mundo que me fez crescer.
E apesar das adversidades, você fez o impossível para que eu fosse alguém de caráter.
Tua vida foi resistência. Com a maturidade, aprendeu a ter paciência.
E quando todos olhavam para o bebê que nasceu, cuidava da mãe que dentro você cresceu. Era a avó que florescia.
Nossa árvore frutificou. E agora você cuida da minha semente, aquele pedaço de gente, que há pouco tempo não tinha nem dente.
E agora grita pela casa:
Vovó, eu te amo do tamanho do mundo!
Tudo isso é tão profundo!
Oriundo de tudo aquilo você edificou, porque você é nosso pilar mais resistente.
Mãe, perdoa se eu já critiquei a tua maternagem, é que só agora eu percebo que maternidade não vem com mensagem.
Coragem!
Ver o filho voar e não poder acompanhar. É confiar no que foi feito.
E por sinal você fez com maestria, tem todo o nosso meu respeito!

***

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Tamires Prestes de Matos Tuchtenhagem cresceu na periferia de Viamão/RS. Mulher preta, é professora de Língua Portuguesa e Literatura da Educação Pública, Graduada em Letras e especialista em Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Durante a pandemia, começou a atuar como poeta slammer.

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