Alpendre poesia

Três poemas de Azul Marine

Foto: Maksim Goncharenok / Pexels

Vive

Me chama pelo meu nome
Eu sei que às vezes é difícil de acostumar
Mas me chama pelo meu nome
Será que é tão difícil assim não me matar?
Me chama pelo meu nome
Me chama pelo que eu sou
De quenga, viado, de bicha, de macho
Eu juro que aqui eu já tou
Em chamas
Boyceta de xana
Meu rosto te engana
Beleza que chama
Não pode babar
Realeza é trans não-binária
De calça ou de saia
Vai me respeitar
Quer peitar as trava, então é pocas
Gilete na boca
Não vamos deixar
Se ce quer que a gente morra
Engole a minha porra
Que eu vou é gozar da tua cara
Agora senta e escuta que eu sou de luta e muito mais que a sua tara
35 anos é o que eu tenho pra viver
No país do transvesticídio vestido de terno na sua TV
Pastor, passe longe de mim
Paixão, de Cristo não tem fim
Ele é Renata Carvalho
Ela é Senhor do Bonfim
Ce me reduz a xota ou pau
E esmaga a raiva à paulada
Reza ao pai oco que cês venera
Cheirando sangue de transviada
Se Deus escolheu o seu lado
Eu escolho o lado do capeta
E pra quem me mata eu mando maldição
Perdão que se foda, vai ver é vendeta
Feitiço lançado pela minha boca
Que seja levado na boca de lobo
O homem é lobo de quem não é homem
E eu sou o diabo do cis-tema todo

*

Genocídios

Bandido bom é bandido morto
Na lei
Bandido rei é bandido bom
Eu sei
Que se seguir as coisas do jeito que eles feiz
A bala come quem não come e se alimenta bem
No país do populismo
Onde pobre, preto e puta não é popular
A pena é perpétua ou per capita
Quando não é capital
Brasília e Congresso Nacional
Tão erguidos nos corpos de candangos esquecidos
Concretados no chão no verdadeiro antro de bandidos
Eles rouba há 500 ano
O que não tem indenização que cubra o dano
Dignidade não se empresta
Liberdade não se cede
Eles entre sem licença
Eles tem o que a gente pede, implora, reza, chora, mata e morre sem ter
E ainda impede, explora, veta, escora, mata e mostra na TV
Só o seu lado da história
Toda vez que essa gente emergente levanta a cabeça
É vírus, lama, as peça, os pente
Diz que é pela gente
Diz que é pela segurança liberar o armamento
Me diz como se defende de um pelotão de fuzilamento?
Não tem cabimento
Guerra pra eles é investimento
Cloroquina é deboche
Cortina de fumaça pro golpe
Mas tcho falar
Aqui não vai ter veiz
Aqui não vai ter voz
É nóis por nóis se for e os outro segue após
Pode apostar no meu posto
Poetas vives na luta
Minha palavra é minha arma
Meu escudo minha conduta
Eu to vestide com as roupas e as armas de Jorge
É da Capadócia
Na rua eu fico mais forte
Pra que meus inimigos tenham leis e não me prendam
Pra que es poetas tenham rimas e não se rendam

*

Memorial para 500 mil

A sociedade em colapso
Mostra como são fracos
Os laços que mantém cada coisa no seu devido lugar
Se não bastasse o desengano
Governo explora e passa um pano
Enquanto afasta a própria casta pra longe do dano
É demoníaco
Democracia seria elogio
Realidade é suar frio
Fazer conta e cortar os gastos
Dos centavos ver se dá um prato
Mas o desgaste, ele diz, é econômico
Seria cômico
Se não me virasse o estômago
Do vírus haverá várias vítimas
Vai invadindo vielas e vamos velando uivando nossa dor legítima
Vamos vaiar os vivos que invocaram essa lástima
Variando das ideia já não verto mais lágrima
E contágio
Contando
Corpos
Quinhentos mil mortos
Quantos milhões faltam
Acumulados nos postos
Sem mais carne nos ossos
Na rua expostos
Catando os destroços
Com a vacina que pode parar essa chacina na esquina
Quantos milhões faltam
Pra acabar esse conto do vigário
Pra mudar a manchete no noticiário
Pra perturbar o sono do Bolsonaro
Mas se liga
Nóis é vítima
Mas também é incendiário
Você acendeu o pavio com sua própria arrogância
E quando a cobrança chegar
Não é mais o povo que vai sangrar
É só estudar História
Que cê vai ver que não é de agora
O canhão mirado pros próprios filhos dessa pátria amada
Me salve, salve
Até o santo já sabe
A oração que corre na boca dos mesmos corpos que nascem com o peito estampado de alvo
Lá do alto do planalto nem desce do salto pra ver o massacre
Covid é arma biológica pro mesmo ataque
Mas é verdade, falar de racismo virou lacre
Então não vou abrir a boca
Mas vou abrindo a mente
Pra encontrar algo que desarme o inimigo
A gente constrói abrigo e planta uma pequena semente
De uma árvore ancestral chamada resistência
Enquanto houver um poeta
Tá em cheque a sua presidência
E não vamos parar de falar das cores de pele que colorem o sangue das suas mãos
Não vamos parar de apontar as cores do arco-íris que você jogou no chão
Não vamos parar de respirar apesar das vidas que você colocou num caixão
E um dia eu te garanto
A gente vai ser a salvação do seu apocalipse
Derrubando militares com cada verso livre
Fora Bolsonaro

***

.

Azul Marine, pessoa trans não binária, nasceu em Rio Claro no interior de São Paulo, mas mora há 15 anos em Osasco, zona oeste de São Paulo. Elu sempre escreveu, mas o encontro com o slam e a poesia marginal foi o pontapé para transformar a sua poesia e a forma de colocar ela no mundo. Cursando Artes Cênicas na faculdade e pensando em formas de juntar a poesia, a música, a dança e a performance, elu mantém sua pesquisa no corpo e no pensamento.

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