Alpendre poesia

Três poemas de Mariana Imbelloni

Foto: Mario Luengo / Freepik

Mulher com o vazio passeando*

Tentar é um exercício de desistência.
penso nisso todas as manhãs
passeando meu vazio na rua
desisto todo dia e por isso sigo
desistir de fingir não ter vazio.

Gosto de levá-lo para passear umas três vezes ao dia
Arejo a casa e o exercito.
É preciso sempre exercitar o vazio
para não correr o risco dele se achar preenchido.
Nada pior que um vazio tão cheio de si
que confunde silêncio com falta de grito.

Raro encontrar na rua mais gente passeando o vazio
anda em voga tê-lo bem escondido
(só deixar sair terças às 15h direto para terapia
dopado dois rivotris três cervejas e a promessa de uma viagem libertadora pra Bahia).
Mas vazios que se encontram se reconhecem,
se cheiram, se lambem, se atravessam.
Vazio brincando com vazio faz barulho de riso.

Tentar é um exercício de desistência
e eu só insisto porque desisto
de todo perfeito tão impossível.
Vamos eu e meu vazio, braços dados
entusiasmados com o tamanho dos (nossos) abismos.

* título em direção ao de Rita Isadora Pessoa, Mulher com o vazio descansando

** O poema faz parte do livro ‘O fio invisível dos dias’ (Editora Urutau, 2020).

*

Repetições para um salto

Muitos poemas me ocorrem no caminho do trabalho
pela manhã.

Acho que porque ainda não me distraí
com tudo aquilo a que se chama
importante.

Não são bons poemas,
mas me consolam
que ainda é possível estar desperta
mesmo que só no trajeto do metrô.

As palavras avolumam-se no caminho –
equilibristas-
como que pedindo para que eu as segure
ou dê alguma direção.

Mas eu nunca fui boa nem com palavras de ordem
nem em colocar ordem nas palavras

Deixo que elas desfilem
se enfileirem
se confundam
e rapidamente puxo a rede.

A repetição tem um poder anestésico assustador
e até chego a achar que há alguma lógica nisso tudo que
desmorona.

Tenho rezado todas as manhãs
uma oração que eu inventei
o que é um jeito de acreditar no mundo
mas também de estar sozinha.

Das missas o que eu mais gostava
era o coro de vozes nas falas decoradas
como um jeito de pertencimento

Rezar sozinha é pertencer só ao
que invento.

Mas eis o maior mistério da fé
de alguma forma acreditar no amanhã
e repetir as palavras como quem as resgata.

Quase caio no metrô tentando escrever esse poema
o que, talvez,
fosse um salto.

** O poema faz parte do livro ‘O fio invisível dos dias’ (Editora Urutau, 2020).

*

a morte térmica do universo

juliana me disse que de tanto se expandir o universo está perdendo energia
e que o fim de tudo seria essa grande preguiça
uma calmaria.
partículas cansadas,
na verdade, partículas congeladas,
o que é um pouco difícil de acreditar no verão do Rio de Janeiro.
só entendo a parte da entropia
toda vez que tento fazer algo às duas da tarde.

seguindo essa teoria,
a falta de energia é um esfriamento
que vai aproximando as estrelas dos seus centros
fazendo com que parar seja
metade explosão
metade silêncio.

eu sempre pensei em parar como um grande acontecimento,
mas parece que quando o que é grande resolve crescer para dentro
a combustão é desfazimento.
tentei entender mais sobre como é isso de expandir pro meio
(gosto de pensar que é estrela em aconchegamento),
mas ninguém explica porque se move o que devia ter parado.
só se sabe que um életron é um conjunto de saltos
pulando para existir nesse espaço inexplicado
e quando o vazio decide se ensimesmar
começa a correr pro centro
e cria um buraco no próprio entendimento,
e que como pesa e a gente não sabe explicar
dissemos que é
singular.

a singularidade é uma matéria densa
e a subjetividade é uma matéria esparsa
que a gente vai recolhendo pelo caminho
ao menos eu que sou nômade como a Glória
e olha que eu tinha me prometido nunca fazer um poema para iniciados
mas acho que para iniciadas pode.

eu, como um elétron que só podia ser visto em movimento,
agora paro,
fico lendo física e poesia antes de dormir
nenhuma delas me explica como as ausências pesam
talvez seja a singularidade das partidas
mesmo as que aparentemente se repetem.
mas me fizeram sonhar com essa corrida louca de astros para o nada
o que foi surpreendentemente excitante.

pensando bem, nada mais erótico que milhões de estrelas
em um movimento desordenado e constante,
explodindo para si, ocasionalmente.

(sim,
isso é sexo para mim.)

aí eu quase entendo o universo,
que vai aumentando, desordenado
correndo de si para ver se se alcança
eu sei, universo, seu moço,
a gente só foge mesmo para dentro.

agora eu chamo de morte térmica do universo
essa paz de não me mexer tanto
expandir pro núcleo
ou ter trazido a fronteira pro centro
e sentir
ao mesmo tempo
explosão
e silêncio.

***

.

Mariana Imbelloni é taurina quase geminiana, mineira quase carioca. Desde 2008 vive no Rio, onde transita entre história(s), direito, pesquisa e processos. Tem poemas publicados nas revistas Oceânica, Mallamargens, Literatura e Fechadura, Totem e Pagu, entre outras. Em 2020 lançou seu primeiro livro de poesia, ‘O fio invisível dos dias’ (Editora Urutau) que tem se desenrolado por aí.

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