Coluna Romero Venâncio

Padres, Bispos e redes sociais no Brasil. Um alerta

Foto: Prateek Katyal / Pexels

Por Romero Venâncio – 01/07/2021

Faz parte da tradição cristã o erro ou o reconhecimento dos limites do todo ser humano. Dai a máxima: “errar é humano”. Trabalhar com o erro e o perdão faz parte da história do cristianismo e das teologias cristãs. Mas sabemos hoje que tudo tem limite na vida social e com o perdão não é diferente. Como lembrava o poeta Vinicius de Moraes, até o amor se cansa de perdoar.

A propósito de que começo assim, esse brevíssimo texto? Porque acredito que está na hora do catolicismo no Brasil pensar e repensar a presença de religiosos hoje (padres e bispos, em particular) nas redes sociais. Criou-se dentro do catolicismo no Brasil uma leitura precipitada do papel e alcance das redes sociais… A divisa é: “vamos evangelizar pelas redes sociais”. Esqueceram de uma coisa importante nesse desespero de “bandeirante cristão virtual”, que as redes sociais não são apenas instrumento de evangelização e que precisamos conhecer mais fundo essas redes e seus mecanismos e seus perigos. É público e notório padres e bispos brasileiros fascinados com redes sociais e delirando em seu uso.

É triste ver um bispo divulgando noticias falsas e tolas como se fosse um adolescente que descobrindo uma técnica de comunicação. Não percebeu o prelado que uma rede social não é a cozinha de seu palácio episcopal. Sendo mais preciso no que digo: um prelado católico deve ter feito um curso de teologia com algumas poucas cadeiras de filosofia e menos ainda em ciências humanas em geral. E se for daqueles cursos fracos e fundamentalistas, o caso da formação se torna mais grave. Essa figura despreparada teoricamente e sem reconhecer seu limite, se mete a falar como se tivesse em sua missa (onde só ele fala o que quer, na maioria das vezes) em redes sociais.

Deve participar desses grupos de “zap do pão caseiro” que se fala de Deus e sua obra sem precisar de fundamento algum e saindo daqui, se mete a falar de tudo nas redes… Aqui mora o perigo de “o tiro sair pela culatra” (em alguns casos, literalmente… O que tem de padre falando e defendendo uso de armas, impressiona!!!).

Vamos a mais um fato. Observemos como esses religiosos gostam de falar sobre sexualidade a vida humano afetiva das pessoas, opinar sobre homossexualidade ou transexualidade sem ter a mínima formação nesse mundo. As ciências humanas e da saúde no capo da sexualidade humana avançou em termos de pesquisas e publicações no século XX o que não ocorreu em vários séculos atrás. O que esses religiosos sabem disto? Quase nada, mas adoram falar em “ideologia de gênero”, por exemplo. Termo que é pura cortina de fumaça. Não existe em nenhuma ciência humana.

Ao desconhecerem por ignorância ou má fé esses estudo e publicações, o que resta a esses religiosos nas redes sociais é partir para uma posição condenatória em nome de uma “suspeita teologia” que estão longe de conhecer mesmo se dizendo formado nela. A coisa se torna grave. Não só não evangelizam, como prejudicam a imagem de sua própria igreja. Caem numa posição irresponsável de julgar o que não conhecem. Numa sociedade minimamente democrática a ninguém deve ser proibido participar de uma rede social ou mais de uma. Ter uma “conta privada”, etc.

O problema de um religioso participar é em nome de que ou a que atividade pastoral vai fortalecer nas redes postando falas ou textos. Os processos contra padres e bispos começam a surgir, um monte de contestação pública às suas afirmações inconsequentes e protestos contra posições preconceituosas desses mesmos padres e bispos. O que sobra para a igreja deles? Má fama.

Com estas observações, não quero passar a imagem de que não exista canais e atividades de religiosos em redes sociais de maneira séria e importante. Conheço trabalho de pessoas ou grupos católicos que têm feito um bonito e necessário trabalho nessas redes sociais. São fonte de apoio, solidariedade, denúncia de injustiças e projetos formativos em teologia dos bons. Só pra não dizer que não falei de flores. Não pode ser pregando ódio e disseminando preconceito numa espécie diabólica de “pedagogia bolsonarista” que um religioso fará seu digno papel numa rede social. Atentemos.

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Romero Venâncio é Doutor em Filosofia e Professor no Departamento de Filosofia na Universidade Federal de Sergipe – UFS.

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