Foto: Daria Shevtsova / Pexels

Por Diogo Mendes – 23/06/2021

Tijolo adocicado que esta faca divide. Não sabia, eu criança, sobremesa é para quem tem sorte (como afirma a legenda desbotada, esperança) naquela época mesmo tendo outra inflação brasileira, meus primeiros dentes iriam mastigar este alimento, logo encontraria as paredes do estômago, nalgumas horas deixando o corpo, aquilo desnecessário. Fracionado antes, o doce da goiabeira era posto em um prato que não podia sair da mesa arredondada, percebia sem entender – prazer exige capricho – do recipiente via a gravura de um ramalhete de flores, destoando do jogo de pratos marrom escuro transparente, retirado de uma cristaleira, avariada de mudanças.

A goiabada, deu adulto, não recebera toda habilidade daquela faca de cabo elegante, me faz lembrar da infância, entre os quitutes que tive sorte de comer, até hoje ampliam minha cintura. Do corpo, nos últimos anos consegui um tratado de paz, outras situações mais graves, vêm me tirando o sossego, desde os noticiários ao comportamento das amizades próximas, neste perecimento físico e psíquico. Pelo comércio, nos movemos; tais pessoas que praticam esgrima, sem o charme desportivo, básico a harmonia em realizar uma luta, nos ferimos; porque os instrumentos não apresentam proteção aos órgãos vitais, havendo severos machucados.

Harmonia consiste à goiabada, expressão que eu criança, pouco conhecia, alguns anos faria parte do meu cotidiano. Naquela fase meus pais, com frequência viajavam de Londrina para a casa da minha avó paterna, na pequena cidade paranaense de Santo Antônio do Paraíso, apelidada de 10, em virtude dos quilômetros e afins. Lá, o portão de pedestre foi instalado na saída da garagem pelo meu pai, que trouxe da construção civil, trabalho anterior à carreira de bacharelado. Criança, atrás da mesa da avó Maria, olhava para rua – lugar nascedouro de ideias – se evita por abrigo. A goiabada, vagarosa, descia pela boca.

Boca, de agora adulto, a mesma marca de goiabada escorrega, tenho gratidão por um lar. Na vida, intercalei “tetos”, a falta aqui de amizades e desejos, me sufoca os ânimos, apesar do manjar nos dentes permanentes, cogitarem uma limpeza rápida, pois o almoço é curto. Minutos de distração, esmagados por reformas trabalhistas e previdenciárias, nenhum trabalhador do Brasil, inclusive o intelectual, pode dar à suntuosidade de um autêntico descanso, sequer entreter, visto que o robô impalpável calcula e ordena, para comprarmos, fornecendo uma sensação de grupo de disco rígido, talvez esquecimento, na próxima semana.

Nem tudo esquece, as toalhas da mesa eram em três camadas, de plástico, de bordado, de algodão, que faziam os objetos desnivelados, ficarem vulneráveis a quaisquer movimentos acidentais ou imaturos. Reducionista molecagem, questionava a cor das madeixas alheias, acreditando que quem fosse mais velho, teria fios brancos. Deu miúdo, era afronta sugerir para avó Maria, a coloração de seus cabelos, outrora eu já lamentava de quase não possuíamos fotos – hábito familiar, dos dois lados, taxado antes do invento da fotografia. Vozes dos meus primos e primas, sempre tornavam, vozerio, à medida que reprovavam minha tendência gastronômica. Até o término de me deliciar com aquele pedaço de goiabada, indo para o quintal, gigante e inusitado, fatia de brincadeira.

Brincando, metade da goiabada, meus primeiros fios brancos já aparecem, são tímidos e prevenidos. Recorro ao aspecto glutão de estados diversos, opto comer mais da goma, sem examinar: a burrice precisa, o celular precisa, a inutilidade precisa, o emprego precisa, a raiva precisa, o aluguel precisa, a enganação precisa, o condomínio precisa, a dor precisa, o trânsito precisa, o tédio precisa, a uberização precisa, o genocídio precisa, a academia precisa, o apego precisa, a lentidão precisa, esperam que me aborreça – cujo esse doce, seja recusado não trazendo nenhuma serenidade. Aborrecer é lei, no momento, sou leveza.

Infantis aborrecimentos, regresso para cozinha de duas portas da avó Maria, uma da garagem rumo à rua, outra da varanda em direção ao quintal. Ali observo, o fogão de lenha com pernas curvilíneas, gavetas faceiras de puxadores descascados, porta emperrada para cinzeiro que contém geometria indefinida e chapas de ferro fundido preservando sinal abrasador. No recinto, entro silencioso, deduzo que meus pais papeavam na casa do tio Cido ou João, ouço roncos da minha avó, cochilava na sala num sofá camurça verde, atenuados pelo barulho da televisão em algum programa policial/ pinga-sangue do Paraná, da mesma cor da goiabada, ironicamente imagino, não atrevo outro pedaço, pratos cobriam-se, tendo guarda por um pano de amadora pintura.

Da janela de um apartamento em São Paulo, degusto o restante dessa guloseima. Redemoinhos acústicos de sirenes, atravessam toda a metragem habitável até chegar aos meus ouvidos. Podendo ser de uma ambulância, de um caminhão de bombeiros, de um carro guardador das leis, do alcance onde estou, os três proporcionam chance, noto apartidário. Tento sorrisos, mediante essa iguaria brasileira, como bastantes das coisas menosprezadas, por interesses que não valem perder o precioso tempo – ao menos nesses instantes. Quebráveis, como os jogos de pratos das avós, muito mais de 10 quilômetros de afastamentos, das vidas adultas daquelas antigas crianças, que saboreiam goiabadas.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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