Alpendre Crônica

Encanto e desencontro em Maceió

Foto: Marinelson Almeida Silva papai smurfs/ Pixabay

Por Luciano de Castro – Março de 2021

Bendita seja a Estomatologia, que possibilitou a minha primeira viagem a Maceió, para participar de um congresso. O sestro de etimologia impõe-se, de cara, e exige que eu inicie este texto explicando o topônimo “Maceió”. Encontrei no Google que o nome da capital alagoana provém do termo tupi “maçayó” e que significaria “o que tapa o alagadiço”. A explicação soou-me lógica, porque os índios caetés habitaram a costa alagoana e a paisagem que vi pela janela do avião foi uma profusão de lagoas e canais que desaguavam no Atlântico.

Vai contando os sestros, caro leitor. Na conversa do aeroporto até o hotel, uma colega que fora me recepcionar admirou-se com o fato de, mesmo sem nunca ter pisado em Maceió, eu comentar com ela sobre a orla de Pajuçara, um bar na Jatiúca, um museu no Jaraguá e um almoço na Massagueira. “Jura que nunca esteve aqui?”. “De pés juntos”, respondi. Aflorou-se o segundo sestro: a mania de folhear mapas, bisbilhotar sites, vídeos, leituras e entrevistas sobre um lugar antes de conhecê-lo. Parece-me que essa mania vem piorando.

Antes de falar sobre Maceió, quero (preciso) contar-lhes um pouco da história de um alagoano ilustre: Graciliano Ramos. Opa! Eis que surgem misturados o terceiro e o quarto sestros: História e Literatura. Que diabos! O congresso não era de Estomatologia? Era. Mas Estomatologia não é sestro, é profissão. Tanto melhor, um a menos. Pelo jeito, vou finalizar o texto e marcar uma consulta com o psiquiatra.

Voltemos aos sestros misturados. Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, morou em Viçosa, Buíque-PE, foi prefeito de Palmeira dos Índios e viveu em Maceió de 1930 a 1936, quando foi preso pela ditadura Vargas e enviado, num navio-presídio, para o Rio de Janeiro. Na capital federal, o velho Graça conheceu as agruras do cárcere no presídio da rua Frei Caneca e depois na Ilha Grande. Nunca mais voltou às suas Alagoas, talvez por mágoa e vergonha. Morreu no Rio, em 1953. Aprendi isso lendo a biografia escrita por Dênis de Moraes, corroborando o sestro nº 2.  

Agora, vamos lá: aceitando o inevitável reducionismo, aventuro-me a traduzir Maceió em algumas linhas. A despeito da violência que figura nos jornais, do abismo social entre o luxo e a fome, entre a praia e a favela, vi uma cidade amigável, acessível, generosa. Vi uma orla charmosa. Sorvi a paz de comer moqueca de arabaiana na Massagueira, hipnotizado pelas bonitezas da lagoa Manguaba. Passei uma tarde na Praia do Francês, tomando água de coco, ouvindo uma Babel de sotaques e imaginando como devia ser aquela enseada quando nela habitavam os temíveis Caetés que, ao que consta, eram inimigos dos portugueses e amigos dos franceses que deram nome à praia.

Ao descrever a Praia do Francês, reparem se não é o terceiro sestro dando as caras novamente. Vejam vocês que, enquanto todos se deleitavam com o sol, o mar e o environment da praia, um sujeito pôs-se a conjecturar o que teria acontecido ali no século XVI. Definitivamente, eu encontro poucos pares nesse mundo. Andei pelas ruas do Jaraguá. Vi o casario, a beleza dura e rústica da parte histórica. À noitinha, provei camarão na Pajuçara, ouvindo o murmúrio do mar e sentindo a brisa como um acalanto necessário a qualquer mortal. A beleza de Maceió estava nas suas células, nos seus genes. Isso era incontestável.

Concebo, porém, que mesmo um cego sairia de Maceió com a mesma sensação que eu tive. Maceió é bela não apenas pelo seu privilegiado espaço geográfico, mas pela sua matéria humana. A formosura está mais no que se sente do que naquilo que se vê. Consigo atribuir à gente de Maceió os mesmos adjetivos que concedi à cidade: aprazível, acolhedora, amigável, acessível, generosa. A estes, acrescento atributos humanos: alegre, bem-humorada, engraçada, solícita, complacente e jovial. Acho que é isso: povo e cidade se misturam no mesmo matiz. 

 Fiquei apenas 5 dias em Maceió, e fui-me embora com a sensação de tê-la provado como um acepipe. O segundo sestro já achou praias ao norte e ao sul, lagoas, riachos e veredas. A Serra da Barriga. O Quilombo dos Palmares. Piranhas e Penedo. Alagoas é uma tapioca, de massa bem-feita, com toques da culinária indígena, africana, portuguesa e francesa, recheada de história e belezas naturais, temperada com o sal do Atlântico e cozida no calor do sertão. Essa iguaria, genuinamente nordestina e orgulhosamente brasileira, merece ser degustada detidamente. Engendro aqui uma convincente justificativa para o retorno.  

Outro motivo, ainda mais pertinaz, me fará voltar a Alagoas. Essa primeira viagem frustrou-me o desejo de seguir alguns passos do velho Graça. Intencionava viajar a Quebrangulo e Viçosa. Depois visitaria a Casa Museu Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios. Caetés, São Bernardo, Angústia e Vidas Secas giravam em carrossel em minha mente. Mas tive que desistir da empreitada, pois fui informado de que o museu estava em reforma. O desencontro com o velho Graça me deixou desapontado, mas sacramentou o desejo de voltar.

O retorno está demorando mais que o previsto. Culpa da pandemia. Mas o plano está traçado, e é arrojado: sair de Goiânia, de carro, e riscar os sertões de Goiás, Bahia e Sergipe até Alagoas. Viajar de carro mais de dois mil quilômetros? Por que não ir de avião? Responde o quinto sestro: “Porque o meu amo aprecia as longas viagens de carro, ele quer conhecer as estradas, o relevo, a vegetação, saber o nome das cidadezinhas pelo trajeto”. Eta, camarada cheio de manias! Será que vem mais por aí?

Não vem mais porque o texto está acabando. Já que é clima de despedida, quero fazer as pazes com os meus sestrinhos, inclusive vou trocar-lhes o nome. Esse termo é muito feio. Vou chamá-los de afinidades. Na viagem pra Maceió, elas se tornaram mais nítidas e me afeiçoei a elas. Percebo que se as colocar, todas juntas, no liquidificador, dá um caldo substancioso, forte como o de sururu. Nesse caldo, o ingrediente mais importante, aquele que dá sabor à comida, é a literatura. Ela tem me alimentado nesses dias pandêmicos e um dos responsáveis por isso é um alagoano chamado Graciliano Ramos. Até breve, Maceió!

***

.

Luciano de Castro é mineiro de Teófilo Otoni, cruzeirense, dentista, especialista, mestre, doutor e professor da Universidade Federal de Goiás, goianiense, apaixonado pela natureza, por história e por literatura. Um sujeito metido a escritor.

%d blogueiros gostam disto: