Alpendre Conto

Eu quero a minha vacina

Foto: Thirdman / Pexels

Por Jorge Ialanji Filholini – 05/05/2021

Eu quero a minha vacina. Não adianta empurrar, não tiro o pé daqui da frente até levar picada no meu braço. Que culpa eu tenho se acabou, não fui eu que espalhei o vírus, eu quero a minha vacina. Nem pense em deixar a seringa cheia de vento, disfarçar que aplicou, encenar para eu não perceber, comigo será diferente, vou ver, com esses olhos de mais de oitenta anos, vou filmar também, trouxe o celular, José Inácio quer que eu envie foto por zapzap. Meu filho, não arranco a sola do concreto, quero ver o frasquinho. Esse aí gelado, todo etiquetado, que me importa se veio da Europa, da China ou de Júpiter. Eu quero a minha vacina.

Marco Antonio me disse, Dona Eustáquia, não tome a vacina, ela vai te fazer muito mal. Nem dei a ponta da orelha de atenção, eu já tô cansada de ficar em casa, presa por conta própria, olhando pro teto, pra parede, pras louças, pro armário de comida diminuindo, não dou queixa a nada, mas, agora, tá me entendendo, eu quero a minha vacina.

Perdi irmã, compadres e amigos para essa doença, algo desse tamanhinho não pode ser invencível, prometeram a vacina, a salvação, um alívio para o pulmão, sabe o que é andar mais de dez quilómetros com essa máscara? Marilson, meu bom e velho companheiro, que Deus lhe guarde entre as estrelas e nuvens, estaria do meu lado igual um muro, sem desabar, pendurado em mim, insistindo pra tomar a vacina.

A única doença que não tem cura para um velho é a insistência.

Olhe bem, trouxe de tudo, carteirinha de vacinação, de trabalho, de aposentada, de mercado, de ônibus, RG, CPF, título de eleitor, calendário, dois de maio de dois mil e vinte e um, conta de água, luz, gás, contrato de propriedade, tá tudo aqui na bolsa, tudo para eu tomar a minha vacina.

Não me peça pra voltar depois. O que é depois? Daqui algumas horas, dias, anos? Tá me achando com cara de charque, que fica todo o tempo no sol. Só pode ser brincadeira, É um teste de paciência, tô que tô desgarrada de sofrer em casa, não vejo Sebastião, Dorinha e Marcolino faz quatorze meses. Sem sentir a benção dos meus filhos. Não vai ser com persuasão que arrego o pé da porta desse postinho.

Faz o que quiser, mas nunca engane um velho com razão. Tô no direito ou não tô? O governador falou na tevê, vá se vacinar. Bom, vim, e você diz que não tem mais. Acabou. Jamais. Nem que eu faça um casebre ali do lado, eu quero a minha vacina.

Para um velho, o tédio morre antes da alma.

Tenho o tempo que puder, não preciso fazer nada, sento e aguardo. Quero ser a primeira da fila, desde às cinco da manhã plantada no asfalto, não sou samambaia para criar galho, ora. Veja bem, meu bom rapaz, culpa não temos nós, mas sabe que eu não recolhe o corpo tão fácil assim. Não interessa se perderei os braços, uma parte minha vai ser vacinada, que seja por inteira.

Repare e sossegue, vou me calar, mas não duvide da minha persistência. Sou Eustáquia de Assis Pereira, Assis é da minha mãe e Pereira da mãe de minha mãe, tem chance, não, contra nosso sangue. Ilustres ancestrais. A pele pode estar fraca, mas as veias estão agitadas e pulsantes. Tô é quente que até ferve a carne na frigideira. Eu quero a minha vacina.

Eu sou a criatura que Deus deixou na Terra por medo de me afrontar. E não vai ser você a me segurar. Sou vampira, sugo teu sangue neste local, vai encarar? Pode chamar prefeito, vereador, coronel, matador, traste nenhum vai dominar o meu destino. Quem fizer isso, juro, vai ter os pés mancos pelo resto da vida. Toque em mim pra você ver. Eu quero a minha vacina.

A velhice não tem inveja, a velhice não tem ao que almejar, a velhice é sonâmbula, só aguarda acordar em outro plano. Ainda não quero isso, quero almoçar novamente com meus netos e meus bisnetos. Tem uma que nasceu ano passado, nem vi a coitadinha de perto, só na telinha do meu celular, isso lá é vida? Já arregacei as mangas, vai na direita ou vai na esquerda? Não interessa, eu só quero a minha vacina.

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Jorge Ialanji Filholini é escritor, editor e produtor cultural. Autor dos livros de contos “Somos mais limpos pela manhã” (Selo Demônio Negro, 2016) e “Somente nos cinemas” (Ateliê Editorial, 2019). Foto: Ciete Silvério.

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