Colaboradores Stéfany Caldas

Precisamos falar sobre a Economia do Cuidado

Foto: Cecília Farias

Por Stéfany Caldas – 04/05/2021

Quando maio chega, todos os olhares voltam à maternidade. É tempo de buscar, dentre os diversos recursos disponibilizados pelo capitalismo, aquele que melhor se adequa para ofertar e presentear as mães de todo o planeta.

Campanhas são pensadas, metas são idealizadas, promessas são feitas. A narrativa, embora seja vertida de diversas linhas, desemboca no mesmo preceito: tratar essas mulheres, que, ano após ano, somam sobrecargas e acumulam conflitos consigo mesmas, como as guerreiras que o nosso imaginário idealiza que sejam.

É aí que a Economia do Cuidado entra.

Em linhas gerais, estamos falando de uma série de atividades cujo enfoque é o cuidado para que crianças, adultos e idosos possam viver bem. Nos referimos à quem cuida da alimentação, da saúde, da higiene, do lazer, e mantém em ordem o ambiente físico em que nos situamos.

Seja nos espaços domésticos, ou em locais públicos e corporativos, há alguém desempenhando uma série de funções como essas de forma gratuita, ou, mal remunerada. Esse alguém, em grande parte parte dos casos, é uma menina ou uma mulher.

Sim, falar da Economia do Cuidado é falar da desigualdade social e de gênero. Conforme pesquisa disponibilizada pela Oxfam Brasil, “Mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado – uma contribuição de pelo menos US$ 10,8 trilhões por ano à economia global – mais de três vezes o valor da indústria de tecnologia do mundo”.

Ainda segundo a pesquisa, essa disparidade começa logo cedo. 76,8% das meninas entre 6 e 14 anos começam a realizar trabalhos domésticos como lavar os pratos, enquanto apenas 12,5% dos meninos possuem a mesma responsabilidade.

Isso significa que elas crescem e dedicam, em média, 73% a mais do seu tempo às tarefas domésticas do que os homens. Acreditam que comprar alimentos, dar banho nas crianças, limpar a casa e preparar as refeições de cada dia, entre outras inúmeras tarefas que permitem que a sociedade funcione normalmente diariamente, são, em maior parte, suas.

Essa sobrecarga influencia diretamente em como elas se posicionam no mercado de trabalho, e nas possíveis doenças físicas e mentais oriundas de jornadas duplas e triplas de todos os dias. Na pandemia, por exemplo, quantas mulheres que você conhece relatam cansaço extremo e se desdobram para cumprir esse acúmulo de funções?

Com base em discussões como essa, a filósofa e historiadora Silvia Federici, define: “isso que chamam de amor é trabalho não pago”. Em entrevista à Revista TPM, a italiana reflete que “precisamos recuperar a capacidade de trabalhar juntas, no coletivo e cooperativo. Os espaços comuns não se constroem ignorando as diferenças, as desigualdades, mas com medidas organizadas para superá-las”.

Portanto, neste mês de maio, antes de se entregar à irresistível vontade de homenagear as mulheres da sua vida por todas essas funções, que tal pensar em formas de fazer desse mundo um lugar com mais equidade para elas? Às vezes, a mudança que se posterga está logo ali: na louça suja depois do almoço do domingo que todos fingem não ver, mas que aparecerá limpa na segunda-feira de manhã.

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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