Colaboradores Crônica Diogo Mendes

Inocentes da República

Foto: Reprodução/ Visual Hunt

Por Diogo Mendes – 28/04/2021

[Mesmos Passos]

(I) As pedras portuguesas, também chamadas como petit-pavé, consistem em um tipo de revestimento dos mais deslumbrantes. Na América Latina, sobretudo em terras brasileiras, a população acostuma com o menos pior. Esquecemos, qualquer traço pomposo, e no máximo agradecemos de ter um teto e outros itens corriqueiros – estes por sua vez cada vez mais inflacionados. Dos mosaicos romanos até às pavimentações nacionais, muita pedra foi construída e destruída, paulatinamente como no bairro República, região central de São Paulo. (II) Mudei em um aceno de fuga da região sul, cidade de Londrina/PR, alguns anos atrás em que vi acontecendo a mesma circunstância. Algo copiosamente brasileiro: na surdina, foram retirando as pedras portuguesas ao passo que a substituição é realizada por um calçamento qualquer. Por um lado, tenho que concordar, enquanto não tem uma manutenção especializada, as próprias pedras portuguesas, pouco são praticáveis para pessoas deficientes, à maioria dos idosos e transeuntes em distração. (III) E falando em lapso, à medida que as pedras estão sendo retiradas. Observo, quando raramente, enfrento o exterior em conformidade da pandemia da Covid-19, que o petit-pavé paulistano, tem vários formatos. Teorizo, ainda com algumas sacolas leves do mercado, e/ ou com alguma coisa necessária para atenuar a lentidão da espera, que as pedras portuguesas já tinham sido trocadas em antigos abris, uma série que nunca havia me atentado, são as da Avenida São Luís, que a figura geométrica parece modelar um desequilibrado mapa do estado de São Paulo. (IV) Um equilíbrio entre a utilidade pública e resgate histórico – algo que definitivamente, não está nas atas governamentais. As pedras portuguesas, estão sendo extintas em outras cidades pelo Brasil, sem exclusividade do sudeste e sul. Existem lugares, que a proposta é preservar um pedaço, ao invés do reparo e tornar útil a população. Se um povo mal se importa com o chão que pisa, imagina outros elementos. Cidade com pavimentações questionáveis, nunca se torna mais do que mega habitação, afinal menos pior. (V) Fixado em São Paulo, a Rua 7 de Abril me mudou, na passagem que anos antes outro sulista desgarrado mais flertava. Pois bem, no período já estavam trocando os pisos petit-pavé por qualquer coisa instantânea, que dura menos, custa mais, e quase todo mundo gosta do resultado. Com determinada sorte, ouvia alguém comentando da escolha dos novos pisos. Uma inocência instalava nas conversas corriqueiras, das pessoas que trabalham e moram no bairro República. A cidade trocou de gestão nos últimos anos, a investida manteve de acabar com as pedras, longe de salvaguardar a bolha cosmopolita.

[Passos Outros]

(I) O deslumbramento mudou, abatido tanto, que algumas pessoas começaram olhar para o chão, e depararam com mais proficiência ao petit-pavé. Ocorre, que “x” ou seria a “pedra?”; da questão da urbanidade de São Paulo, outrossim do distrito da República – com toda a sua inocência, que muita gente por aí garante não haver. Essa inocência existe, do contrário pouco ouvia os barulhos arregimentados da retirada desse patrimônio imaterial pelos veículos e funcionários do município, que estão ali por meio de assinaturas, na quadra que moro até o fim da pandemia, não terá quaisquer vestígios de pedras, assim em cada saída básica, busco olhar o máximo possível, para guardar na memória, jamais igual uma foto por celular. (II) Há pedras mais quadradas, outras puxadas para o retangular. Organizadas como um código silencioso. Algumas pessoas que observam, essas remanescentes pedras portuguesas, e queiram encontrar os mais vastos símbolos, talvez alguns desses blocos até tenham, não restritos à cartografia – a pressa prejudica assinalar. As ruas e avenidas da República, estão sendo totalmente alteradas, acostumando ora não. São Paulo um eterno canteiro de obras, que o indicado é percorrer com cuidado. (III) Cuidados não faltarão, visualizando a longo prazo, em alguns anos, as vias serão derrapantes, inclusive às da República, que movimenta o turismo da localidade central junto de mais 8 distritos de São Paulo. Desde moradores até visitantes, todo mundo andará em passos de câmera lenta, para não cair ou algo mais grave, nem foi levado em mente, dias de chuva, dias de verão e demais intempéries. (IV) Inocentes da República, vamos caminhando, não naquele compasso de quando aterrissamos aqui, ou nascemos e acreditamos demais – mudamos nossa forma de vivência dessa localidade, que ainda bem, continua resistindo, aos surtos de todos espécimes, não apenas os respiratórios. Hoje quase eu não tropeço no petit-pavé, vai chegar uma hora que não haverá desequilíbrio. Prosseguiremos derrapando, agora sem nenhum alarme, de pedras soltas, olhando mais prudentes pelo caminho, não somente para os lados.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração” (2020) pela editora Chiado Books.

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