Colaboradores Ricardo Escudeiro

Levanta e brilha, de Ocean Vuong // Tradução de Ricardo Escudeiro

Foto: Reprodução.

Ocean Vuong nasceu em Saigon. Foi criado em Hartford, Connecticut. É autor do livro de poemas Night Sky With Exit Wounds (2016), vencedor do Prêmio TS Eliot 2017. Seu romance, On Earth We’re Briefly Gorgeous (2019), foi indicado ao National Book Award 2019, entre outros prêmios, e venceu o New England Book Award for Fiction 2019. O trabalho de Ocean Vuong já foi traduzido para hindi, coreano, russo, vietnamita e português. Além de diversas bolsas, o autor já recebeu os prêmios American Poetry Review Stanley Kunitz Prize for Younger Poets, Pushcart Prize, e o Beloit Poetry Journal Chad Walsh Poetry Prize. Vuong é ex-editor da Thrush Press e atualmente mora no Vale Pioneer, onde é professor do programa de MFA da Universidade de Massachusetts, Amherst. Night Sky With Exit Wounds foi traduzido para o português e publicado no Brasil pela Editora Âyiné, em 2019, com o título Céu noturno crivado de balas.


RISE & SHINE

Scraped the last $8.48
from the glass jar.
Your day’s worth of tips

at the nail salon. Enough
for one hit. Enough
to be good

till noon but
these hands already
blurring. The money a weird

hummingbird caught
in my fingers. I take out
the carton of eggs. Crack

four yolks into a sky
-blue bowl, spoon
the shells. Scallions hiss

in oil. A flick
of fish sauce, garlic crushed
the way you

taught me. The pan bubbling
into a small possible
sun. I am

a decent son. Salt
& pepper. A sprig
of parsley softened

in steam. Done,
the plate fogs its own
ghost. I draw a smiley face

on a napkin
with purple marker.
I lace my boots. It doesn’t

work so I tuck them in. Close
the back door. Gently
the birches sway but never

touch. The crickets
unhinge their teeth
in the first light, last

syllables crackling
like a pipe steady over
a blue flame

as footsteps dim
down a dawn-gold road
& your face

at the window
a thumbprint left over
from whose god?

*

LEVANTA & BRILHA

Rapados os últimos $5,35
da lata de moeda.
Sua gorjeta ganha num dia

como manicure. Suficiente
pra um trago. Suficiente
pra ficar bem

até meio-dia só
que esses ponteiros já
desmancham. Dinheiro esquisito

beija-flor capturado
em meus dedos. Eu puxo a
cartela de ovos. Quebro

quatro gemas no celeste
azul da tigela. Tiro
as cascas. A cebolinha chia

no óleo. Uma pitada
de molho de peixe, alho amassado
como você

me ensinou. A panela borbulhando
nesse miúdo e possível
sol. Eu sou

um filho decente. Sal
& pimenta. Um ramo
de salsa amaciado

no vapor. Pronto,
o prato neblina o próprio
fantasma. Desenho uma carinha feliz

no guardanapo
com marcador roxo.
Amarro meus cadarços. Não dá

certo então escondo na bota. Fecho
a porta dos fundos. Mansas
as bétulas balançam mas nunca

se tocam. Os grilos
rangem os dentes
na aurora, finais

de sílabas estalando
igual um cano pinga decidido
numa chama azul

como pegadas desbotam
na manhã dourando a estrada
& seu rosto

na janela
uma digital que sobrou
de que deus?

* o poema está em The Paris Review, 236 (2021)

***

.

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

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