Alpendre poesia

Dois poemas de Mírian Freitas

Foto: Mírian Freitas

RESSURREIÇÃO

Das cinzas as paisagens renascem outra vez.
Ninguém contradiz o tempo de plantar o verbo,
crisântemos despontam nos jardins remotos
perto do mar.
Os pés humanos, frágeis, voam alturas,
aves velozes pousam no teto acima das nuvens.
Gargantas amam e florescem
a planície extensa.
Insetos transitam alpendres
loucos por um toque de seda,
buscam mãos capazes de amar sem ferir
o delicado corpo ressuscitado.

*

CERTEZA

Hoje eu sei
estas sombras do dia que morre
desenham leões de pedra
no asfalto negro.
Olhos embriagam-se de pedaços de luz.
A respiração tinge alvéolos de vento
sopra terror nas águas enfeitadas por pétalas
de bronze
sopra o vácuo rumor líquido
entre o espelho e as teias da carne.

Se no fundo da garganta chove
há o desejo por tudo que ninguém ainda não começou.

***

.

Mírian Freitas, mineira, doutora em Estudos de literatura (UFF), lecionou por 10 anos nos EUA, em Massachusetts. Atualmente é professora do IFSUDESTE/JF. Escreveu Intimidade vasculhada (7Letras), Exílios naufrágios e outras passagens (Patuá), Caio Fernando Abreu: Uma poética da alteridade e da identidade (CRV). Publicou em antologias no Brasil e Portugal (Leiria e Lisboa) e nas Revistas CULT, Palavra Comum, Subversa, Mallarmargens, Acrobata, Subversa, Ruído Manifesto, Desvario, Diversos Afins e outras.

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