Alpendre Opinião Resenha

Medeia, de Eurípedes

Foto de Francesco UngaroPexels

Por Felipe Eduardo Lázaro Braga – 06/04/2021

A melhor leitura de Medeia, tragédia de Eurípedes, é a contrafactual. Sabemos todos que o tema do texto é a vingança. Mas a vingança, per se, não alcança a escala do desfecho da peça. Sem outras considerações que aprofundem a experiência subjetiva da personagem, o maior movimento do texto – aquele pelo qual ele é, ainda hoje, lido e debatido – deixa de acrescentar nova camada de sentido, de complexidade, àquilo que já sabíamos: Medeia quer se vingar de Jasão. De minha parte, penso que a vingança é menor do que Medeia.

Não há a menor dúvida: Medeia se vinga de Jasão. E se vinga de Jasão ao matar ambos, a mulher de Jasão, e o pai da mulher de Jasão. O pai da mulher de Jasão é o rei de Corinto. Trata-se, portanto, de um regicídio.

Poucos crimes alcançam a amplitude coletiva de um regicídio. Mata-se o indivíduo, mas a ferida que mata o rei desorganiza todo o arranjo de poder da cidade.

Ao matar o rei de Corinto – amado por Corinto – Medeia pune uma coletividade. A vingança de Medeia contra Jasão, ao matar sua mulher e o pai de sua mulher, é muito bem sucedida. Ela alcança a escala da pólis.

Se Medeia tivesse apenas matado o rei, o primeiro cidadão da pólis, sua vingança contra Jasão estaria completamente realizada.

E completamente esquecida: Medeia conquistou a eternidade porque matou seus dois filhos. A tragédia só é enorme, inesquecível, intolerável, monstruosa, porque Medeia matou suas duas crianças, filhos de Jasão.

Não porque matou o rei de Corinto. Matar os meninos é um gesto maior do que a vingança: a vingança contra Jasão já estava consumada na morte horrenda de sua mulher – a cena do corpo se dissolvendo em sangue no abraço desesperado do pai, e este envenenado pelo próprio abraço ensanguentado da filha, é a antessala trágica do texto. Porque o cume assassino da tragédia acontece depois da vingança.

Medeia se vingou de Jasão e, depois de se vingar, matou seus dois filhos.

Duas idades mortas precocemente pela inteligência ambiciosa da mãe. Entender tudo o que o texto não teria sido, se tudo o que ele tivesse alcançado fosse a vingança, é o elemento contrafactual que amplia a economia de sentido do enredo. Que significam essas duas mortes, se a vingança já estava realizada?

Repare que, se o texto resolvesse sua forma trágica na vingança, ele faria de Jasão o protagonista da personalidade de Medeia. A natureza da vingança – mesmo quando bem-sucedida – traz em si uma assimetria entre aquele que se vinga, e aquele contra quem se vinga. Em benefício deste: a subjetividade de quem se vinga é dominada pelo império do outro, o ódio inaugura uma fórmula de dependência que é a mais visceral maneira da submissão.

Medeia traiu a própria família para ajudar Jasão a capturar o lendário novelo de ouro, seus estratagemas contribuíram significativamente para que a empreitada conquistasse o termo bem-sucedido. Jasão reconhece isso.

Mas pontua: embora a ajuda de Medeia tenha desempenhado papel determinante na concreção do objetivo, ele, Jasão, não deve nada a Medeia. Porque a imortalidade do sucesso de Jasão é, em si, a parcela de retribuição que lhe cabe, o nome Medeia estará gravado em um apêndice honroso nesta crônica alheia de imortalidade. A escala do temperamento de Jasão está toda neste arremate, um dos mais bonitos e agressivos do texto: eu lhe dei a eternidade.

Evitarei minúcias de somenos;
Não desmereço teu pequeno auxílio,
Mas não comparo ao que me deste o que eu,
Salvando-me, te propiciei. Explico-me:
[…] Celebridade, alguém recordaria
Teu nome em tua terra tão longínqua?
Não quero ouro em casa, nem cantar
Hinários, mais bonitos do que Orfeu,
Se for para gozar a sina cinza.
(Tradução de Trajano Vieira)

Sina cinza, definição poética para o esquecimento.

Penso que Medeia é muito mais ambiciosa do que vingativa. Medeia, ao transformar a maternidade em infanticídio, transforma, por extensão, a qualidade trágica do ato, aquele que, em sua dimensão enorme e horrenda, recusa o tempo do esquecimento: matar as crianças não é um ato de vingança, matar as crianças é um ato de eternidade. O traço profundo de Medeia é a coragem para impor os termos do próprio sofrimento. Na chave da vingança, a ancoragem da ação é externa à ambição protagonista, ela é o gesto que olha para trás, para a ação que o engendrou; quando Medeia mata os próprios filhos, ela ultrapassa a vingança, e se torna a crueldade antecedente, ela é a razão de ser do movimento trágico. Portanto, um gesto prospectivo que mira sua própria duração.

Medeia não se vinga de Jasão, Medeia se eterniza. Nós só discutimos Medeia, porque Medeia matou os filhos. Se ela tivesse apenas matado o rei – se vingado, uma vingança enorme e bem-sucedida –, Medeia não existiria. A crueldade é a pulsão literária que eterniza o texto e confere à personagem sua dignidade arquetípica, e não a vingança. Para muito além da vingança, o gesto ultrapassou Jasão: feriu a todos.

De modo que a eternidade de Jasão é submetida à eternidade de Medeia. Literalmente: Jasão oferece sua dor a uma Medeia alada, triunfante, na apoteose de sua cena final. E a eternidade de Medeia tem traços claramente humanos, não é uma eternidade lendária e quimérica das provas de heroísmo, mas uma eternidade constituída no limite de nossa própria deformação, aquela fronteira última de convivência que faz com que a existência do outro seja possível e tolerável. Medeia supera esse limite insuportável, e ao fazê-lo, transforma a escala da crueldade em gesto estético, tão profundamente repulsivo que exige para si a mais transparente contemplação.

***

.

Felipe Eduardo Lázaro Braga é sociólogo, escreve sobre política e arte contemporânea, e trabalha com pesquisa de mercado e opinião.

%d blogueiros gostam disto: