Colaboradores Stéfany Caldas

As razões inconscientes por trás da escolha do cara certo

Foto: Freepik

Por Stéfany Caldas – 02/04/2021

Como as suas experiências, a sua maturidade emocional e mesmo a sua infância têm completamente a ver com o tipo de cara que parece o cara certo pra você

Sempre que rola uma má experiência amorosa, é comum que a gente escute que a amiga tem dedo podre, que aquele cara só atrai gente problemática, e que nós ou nossos amigos merecíamos pessoas completamente diferentes daquelas com as quais estamos nos relacionando.

Em outras palavras, que o parceiro da vez, ou, ainda, que o padrão habitual de parceiros pelos quais aqueles que conhecemos costumam se sentir atraídos, em nada contribuem ou condizem com quem admiramos.

E como é que a gente explica isso? Afinal, em que momento, nós, os nossos amigos, os nossos familiares e aqueles que amamos se interessaram por pessoas que, definitivamente, não vieram “pra somar”?

A explicação (também) pode estar na Psicologia. Um relacionamento amoroso, ainda que vivido por um casal (ou mais participantes, a depender da configuração acordada entre eles), diz completamente respeito à individualidade de cada um dos envolvidos.

O que nos atrai? Quais são as nossas necessidades emocionais? Como nos habituamos a sermos tratados? O que costumamos oferecer e o quanto tendemos a tolerar? O que trazemos de relacionamentos anteriores? E, acredite muito, o que trazemos de nossas infâncias?

Sem saber as respostas, ou mesmo com receio de iniciar um processo de auto investigação, ficamos cada vez mais expostos a situações conflituosas.

Sim, de acordo com a psicanalista Sue Gerhardt, em sua obra Porque o amor é importante, o cérebro de bebês que receberam demonstrações de afeto possui uma formação baseada em estímulos diferentes daqueles que tiveram um tratamento mais apático e restrito de carinho:

Os bebês de mães deprimidas se ajustam à baixa estimulação e acostumam-se à falta de sentimentos positivos. Os bebês de mães agitadas podem ficar superexcitados e ter uma sensação de que os sentimentos estão explodindo para fora (…) ou eles podem tentar desligar seus sentimentos completamente para lidar com a situação. Os bebês bem cuidados esperam um mundo que seja responsivo aos sentimentos e que ajude a trazer estados intensos de volta a um nível confortável; por meio da experiência de ter alguém fazendo isso por eles, eles aprendem a fazer por si próprios. (GERHARDT, Sue. 2017, p.33)

Isso quer dizer que, se na nossa infância, fomos estimulados pela nossa família a ter uma troca saudável de afeto, tivemos a nossa autoestima nutrida e fortalecida, fomos incentivados a desenvolver a nossa autonomia e nos sentimos queridos e aceitos, isso certamente terá impacto positivo sobre como nos posicionamos no mundo, e, substancialmente, em nossas relações de afeto.

Com isso, obviamente, não quero dizer que as vítimas de relações abusivas são culpadas pelo que as acometem, mas, salientar que existem padrões de codependência emocional, caracterizados pelo enfraquecimento da própria autopercepção de valor, de não se sentir capaz de encontrar ferramentas internas e externas – como uma rede apoio – para iniciar um momento de vida sem a outra pessoa por perto, o que gera também dificuldade de enxergar que as relações não estão equilibradas, que é o que faz a maioria das pessoas incríveis que conhecemos permanecerem em relações estagnadas.

Trazendo isso especificamente para a mulher hétero, há todo um processo de socialização feminina ao longo dos anos que influencia completamente em como ela compreende qual seja o seu papel na relação amorosa – a responsável pela manutenção de afeto, a apaziguadora, a emocionalmente madura – além do que ela acredita ser necessário relevar do outro, de modo que eles sigam juntos e com o mínimo possível de perturbações.

A participação da Carla Diaz no Big Brother, bastante discutida nas redes sociais por conta do seu relacionamento com um outro participante, diante de seu comportamento para a manutenção desse vínculo, pode ser vista como uma grande exemplificação em rede nacional do que estamos discutindo.

Que fique claro que a infância foi mencionada pra que possamos analisar que alguns sentimentos são introjetados ainda no início da vida e, por muitas vezes, seguem, inconscientemente, ditando inúmeras dinâmicas de nossas relações, mas que podem perfeitamente serem revistos, trabalhados e amadurecidos.

Tudo isso com base no fortalecimento da autoestima, no processo de nos dedicarmos a nos autoconhecermos, a nos oferecermos carinho e acolhimento. Enquanto você analisa a existência de cicatrizes, é possível sim, perceber quais padrões guiam suas escolhas e se tornar mais conscientes delas, fazendo do processo da paquera, da conquista e da decisão de dividir a sua vida com alguém, o enlace com um cara certo que é certo de verdade pra você!

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Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

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