Foto de Prateek Katyal / Pexels

Por Diogo Mendes – 31/03/2021

A distância aplica obstáculos, ao nosso lado, e quilômetros. Em nosso caso, daqui onde estou, até você, passam estradas, algumas linhas ferroviárias, pontes, viadutos, túneis, sinais de trânsito, pedágios de diferentes formas em que levantamos as mãos educadamente – há quem tem coragem de garantir que todo o povo brasileiro é sem educação. Anos atrás, você me procurou por direct, aquela coisa atribulada, do meu lado, e do seu, trocamos algumas mensagens amenas. Coisas mais importantes lidamos, do que estes contatos imaginários, dos quais não levam ninguém a nada. Eu não te conheço, você muito menos a mim, apresentamos parentesco afastado, igual sobrenome, igual lembrança de fatos familiares, ou seja descendo o picotado mapa do Brasil, também igual sangue. Porque aqui sabemos sangrar como ninguém, você de lá, eu daqui.

Sua vibração era outra naquelas publicações, do tema das fotos ao internetês das legendas – muita aventura, muita festa, muita alegria, muita juventude. Não aparentava medo, nada de se esconder, uma pessoa jovem, descobrindo que o mundo pode ser bom, cheio de felicidade, basta à perspectiva. Adepta da risada, você tinha amizades, era gente, que nem precisa aumentar o zoom, do qual percebe a felicidade transbordando dos olhos. Os olhos de quase ninguém enganam tanto assim. Você me perguntava, como era mudar do Paraná para outro estado, eu respondia, você me perguntava, talvez questionando?, como são os blocos de Carnaval de São Paulo, eu dizia, e ao mesmo tempo, queria saber como o patrimônio histórico de Diamantina sobreviveu a toda industrialização do Brasil. Tínhamos assuntos, apesar de nem nos conhecermos, você nunca esteve mais alegre, admito isso sem te ver ao vivo, por suas caras, suas fotos, suas cores, etc.

De repente nossas interações foram sumindo. Eu ainda lembrava do seu rosto alegre, da sua cerveja trincada de gelada, do seu grupo de amizades, aquelas sim, arrendando prosperidade. Não precisava te conhecer pessoalmente, de trocar conversas sem fim por direct. As interações acabaram, e a vida vai tocando. Vamos engolindo, os trends, os noticiários, os surtos, os calotes, as migalhas, as mortes, as vitórias, as lutas; tudo que faz a gente sentir o estrangulamento cotidiano. Mesmo querendo um descanso, somos pessoas, desse agora. Já não lembrava mais do seu rosto, apenas dos seus olhos miúdos, quando você, naqueles dias, apenas cerca de dois anos atrás tirava fotos, com sorriso, tão largo que pegava, de lado a lado sua jovem face. Sorrisos e juventudes, deveriam durar sempre um pouco mais, pena que demoramos para perceber.

Por acaso ou desventura, do algoritmo, uma foto sua apareceu para mim. Não reconheço de imediato que era você, se não fosse suas fotografias apuradas das fachadas das igrejas de Diamantina, a dificuldade seria maior de identificação. Querendo cultivar um pouco da faísca de doçura, curti a foto, mas minha mania de ler legendas tem vida nômade, deparei na cravejada bandeira do Brasil, uma gigantesca preguiça instalou em meus nervos, descurti, quando interpreto o modo hostil do termo “pátria”. Fui observando outras das suas atualizações, minha prima. Só conseguia ver o resto que sobrava dos seus olhinhos miúdos, ainda existe algo de verdadeiro neles, embora à boataria. Sondei mais de seus posts, você considera seu líder religioso de estimação, como parente. Quem não? Vivemos em um Brasil de órfãos, sobretudo governamentais, sem figuras protetoras.

Olhos firmei, suas amizades anteriores que vivem felizes, sumiram de suas redes sociais. Em dois anos, alteramos muito, como qualquer individualidade, a mudança vinda de você nem ao menos teve um salamaleque. Você tirou ainda foto na posição de “arminha”, rendera todas as coisas nas quais acreditava para não fazer “feio” um círculo de gente que poderia afastar. Saiba, que pessoas vêm e vão na vida, algumas ensinam lições, outras precisam de nossas lições, portanto o deslocamento é certo. Suas roupas também modificaram, você deixou de usar cores vibrantes, empalideceu, antes fosse por causa dos lutos, pelo contrário das “arminhas”, com suas presentes amigas, que julgam soldadas de Deus. Lá a Santíssima Trindade apoia munições? Pouco necessita ser praticante voraz da leitura da Bíblia para saber, até o líder religioso que você divide outra foto deva admitir. Na mesma fotografia, os comentários das suas amigas, e sua irmã, que também se considera soldada de Deus, afirmavam que botem fogo em todo mundo diferente, aquelas armas empunhadas por dedos indicadores, levem mortes aos vagabundos.

Enquanto, na dimensão paralela, que muito celular propaga em todo lugar, são permitidos dicionários. Os verbetes de papéis, até aqueles consultados na internet, recebendo das mais nocivas deformações das musculaturas das palavras. Consiste, o termo “vagabundo”, aquele que leva vida errante, perambula, vagueia, vagabundeia, surgido na antiguidade, e como nosso idioma trapaceiro, nas situações familiares, divergências políticas, e quiçá, nas incontáveis faces da morte. Aconselho, do meu coração, busque no futuro vaguear pelo planeta, evite disparar rivalidades, ao passo que banalizações – pessoas estão falecendo, algumas já concluíram o que precisaram, e partiram, inclusive, num período de tantas lancinantes despedidas. Em formato de arma, antes de apontar esse dedo indicador, lembre-se que a injúria digital, não afeta todas as pessoas, apenas terá calos seus joelhos curvados. Haverá muita, mais muita gente diferente, fazendo arte, sendo festa. Amém.

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Diogo Mendes é escritor e jornalista. Atualiza toda a semana o blog de cultura e arte, Pontofervura. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.

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