Alpendre poesia

Dois poemas de Milena Martins Moura

Imagem: Free-Photos / Pixabay

1.

sonhei o mar em tremor
carregando o meu pólen

                 erodindo adamastor em liberdade

não sei nadar
e por isso o mar é horror e convite
não sei andar de bicicleta e por isso temo sempre os pés fora do chão

fui uma criança triste nas quinas do mundo
existindo apenas nos cantos dos olhos que é onde fica o não visto
               como um silêncio que se esquece ao correr

e por isso o meu pólen
que o mar levou
                 era apenas mais uma 
                 sentença

2.

o momento mais limpo é quando lambo as curvas dos teus dentes
por dentro e por trás
                onde se guarda o rancor

arranco das frestas a culpa nas palmas e a memória dos castigos

o momento mais limpo
é quando invado tua boca para lavá-la
com as pontas da minha língua
cheia de vontades que não se falam na igreja

a minha língua foi desenhada pelas eras 
apenas para o gosto das coisas curvas e quase líquidas
que não se pintam nos quadros de santos

tenta nos teus dentes
como trombeta e última sirene:

                silêncio, é hora do risco!

estamos longe da primeira esfera
que é pura e fria e não bebeu do sangue
e por isso faz calor
no proibido

	         é hora do risco!

o momento mais limpo é o das carnes que queima

.

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia e de colunistas da revista Tamarina Literária. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.

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