lide liquido Resenha

Livro ‘Jesus Kid’, de Lourenço Mutarelli, é relançado quase vinte anos depois

Por Jorge Ialanji Filholini – 09/03/2021

– Sabe o que é? Eu estou um pouco inseguro.
– Isso é normal, brother.
– É que até hoje, apesar de ter feito vinte e oito livros, eu escrevi histórias de western. Sempre com Jesus Kid como protagonista.
(trecho de Jesus Kid)

Jesus Kid, de Lourenço Mutarelli, para mim, era uma espécie de obra perdida ou uma peça de museu roubada e nunca encontrada. Tinha como hábito deduzir como seria a narrativa desse livro, o único ainda não lido do amplo trabalho literário do autor. Entrava em sebos, acessava a Estante Virtual – um exemplar, anos atrás, chegou a custar mais de quinhentos reais -, perguntava para amigos e parceiros da escrita se, por acaso, eles haviam de ter as peripécias de Eugênio em algum lugar escondido em suas coleções. Nada! Um caso, lembro-me, no ano de 2018, quando me hospedava no apartamento do também escritor Marcelino Freire, de insistir que ele achasse o seu exemplar, autografado, da entidade em forma de livro. Ele também não encontrou aquela primeira edição de Jesus Kid, feita pela Devir.

Entidade, está aí a comparação com Jesus Cristo e o terceiro romance de Lourenço Mutarelli. Outro caso, quando, no mesmo ano de 2018, acontecia a exposição “Meu Nome era Lourenço”, no Sesc Pompeia, cuja curadoria foi do compositor e cantor Manu Maltez, em uma parte do local, havia uma prateleira presa na parede onde mostrava a obra completa de Mutarelli e lá, adivinha, estava, à mostra, um exemplar de Jesus Kid. Pela primeira vez eu toquei naquele objeto literário, apalpei a sua superfície, meus olhos brilhavam, eu quase babava, semelhante a um garimpeiro, depois de anos de trabalho em que, finalmente, encontra a sua pepita de ouro nos escombros de uma areia fofa na corrente de água de um rio remoto. Eu queria ler, ali mesmo, na exposição, queria roubar aquele romance, um fissurado em álbum de figurinhas, pronto para completar a sua coleção. Não consegui. Devolvi o livro e saí pelos famosos paralelepípedos do Pompeia, cabisbaixo, de volta ao meu lar, angustiado por nunca saber que enredo ou milagre Jesus Kid poderia fornecer.

Surge uma nova possibilidade, talvez divina, ou da vontade da igreja editorial, de relançar o livro neste ano, algo que mexeu novamente com o meu desejo de ir à procura e curiosidade de ler essa história publicada há dezessete anos. Mas não pense que só por ter quase vinte anos depois é que essa obra, relançada agora pela Companhia das Letras, não é atual e tem a sua relevância. Estão no enredo – enfim lido por mim – as questões múltiplas de personalidades, a falta de afeto, crises psicológicas que a sociedade contemporânea impôs, os vícios fármacos, os abusos das produções editoriais e cinematográficas, a hierarquia social, o isolamento, ambição, desejos sexuais e, principalmente, a posição do escritor em meio ao seu processo criativo. Ah, se eu tivesse lido Jesus Kid antes de escrever Somente nos cinemas, faria uma outra abordagem. Amém, Senhor.

“Não consigo respirar. Abro a boca buscando ar. Transpiro. Tremo”. O romance começa com esta frase em que Eugênio está parado diante da porta de um restaurante momentos antes de uma reunião que será o estopim de todo o enredo de Jesus Kid. Eugênio, escritor de histórias de bangue-bangue publicadas em formato de bolso e vendidas em bancas de jornal, tendo como pseudônimo Paul Gentleman, formaliza uma reunião com dois jovens produtores e fãs de seu trabalho literário. Ambos querem o serviço de Eugênio para um roteiro, diferente do campo western do autor, os amigos produtores, Max e Fábio, pedem que Eugênio escreva um roteiro sobre o seu processo criativo, a la Barton Fink, filme dos irmãos Coen, e, também, semelhantes aos textos de John Fante, porém, algo inusitado eles pedem, Eugênio precisará ficar três meses dentro de um hotel luxuoso, sem poder sair para a rua, além disso, os produtores pedem que o roteiro tenha ação, muita ação: “- Eugênio, nós acreditamos no seu talento. / – Sabemos que não vai nos decepcionar”.

Um início que se transformará em uma narrativa introspectiva, fornecendo um aprofundamento na mente da personagem e é onde somos apresentados a Jesus Kid, persona que Eugênio evoca sempre que está inseguro ou em situação de abusos. É nesse desenvolvimento da história que criador e criatura se entrelaçam de forma positiva e negativa, um se impõem contra o outro, desencadeando cada vez mais problemas psicológicos em Eugênio, inclusive quando a personagem está em isolamento forçado pelo contrato firmado com os produtores. O ótimo comando de escrita de Mutarelli, entrando e saindo, por meio da mente perturbada de Eugênio, trazendo conflitos que permeiam o seu processo de ideia, o estranhamento do lugar em que é compelido a conviver, as tantas esquizofrenias moldadas por um caubói propositalmente estereotipado, tal como as ultrajantes condutas dos produtores em relação ao prazo e exigências exageradas para serem incluídas no roteiro.

Diante das diversas interpretações que o enredo de Jesus Kid apresenta, quero destacar o lado abusivo e humilhante que Eugênio se submete para escrever o roteiro em troca de dinheiro. As pressões que autores são sujeitados pelas editoras, o anseio do sucesso, do ilusório retorno financeiro e as relações afetivas cada vez mais superficiais, trazem para o diálogo atual em torno da sociedade e mercado editorial.

A obra é um pistoleiro que passou anos no exílio e retorna para chacoalhar e incomodar as novas gerações. O retorno de Jesus Kid às livrarias, bancas, estantes virtuais da vida, fornece mais uma excelente narrativa de um processo sempre muito bem criativo de Lourenço Mutarelli para nos trazer ao absurdo que é a nossa vida, inclusive agora, de total isolamento. A nova edição, até que enfim lida, está aqui em minha coleção, tomara que eu nunca a perca. “The End”.

Lourenço Mutarelli

Artista múltiplo, é escritor, ator, dramaturgo e autor de histórias em quadrinhos. Sempre original, Mutarelli é autor, dentre outros, das obras O cheiro do ralo, O natimorto, A arte de produzir efeito sem causa, O grifo de abdera e o mais recente, O filho mais velho de Deus e/ou Livro IV. Dos anos de 1980 com quadrinhos que já são clássicos, até os anos dois mil com romances que inovaram a literatura brasileira.

Jesus Kid
Capa: Kiko Farkas
Páginas: 168
Formato: 14.00 X 21.00 cm
Peso: 0.168 kg
Acabamento: Livro brochura
Lançamento: 01/03/2021
ISBN: 9786559210220
Selo: Companhia das Letras
Preço: R$ 59,90

***

.

Jorge Ialanji Filholini é escritor, editor e produtor cultural. Autor dos livros de contos “Somos mais limpos pela manhã” (Selo Demônio Negro, 2016) e “Somente nos cinemas” (Ateliê Editorial, 2019). Foto: Ciete Silvério.

%d blogueiros gostam disto: