Coluna Fiquei pensando Lorena Portela

A saudade de medir o céu com as mãos

Imagem: 愚木混株 Cdd20 por Pixabay

Por Lorena Portela – 08/03/2021

A casa da minha vó começava num portão de ferro grande e cinza, hoje enferrujado. Embora a casa ainda exista, ninguém mora lá, nem minha vó, nem meu avô. Aliás, eles não moram em lugar nenhum, não têm mais CEP, não recebem mais contas, nem cartas. Eu lembro do portão e de um jeito de meter a mão num buraco quadrado para abrir o cadeado que só fingia estar trancado, naquele tempo em que apenas fingir que o cadeado estava trancado bastava.

Depois do portão, uma varanda grande onde cabiam dois carros e quilos de poeira. O piso vermelho de um azulejo grande que cabiam meus dois pés em cada e que estavam sempre cheios de pó e de marca de pneu do Chevette do meu avô. Um Chevette cinza, quase da cor do portão, mas mais brilhoso e mais novo. No chão do alpendre, numa quina de parede, tinha sempre sacos grandes de café e caixas verdes, de plástico, cheias de abacate. Na caixa de abacate, queimadas a ferro, as iniciais do nome do meu avô: JP.

No quintal, imenso – que mais tarde eu percebi que, na verdade, nem era tão grande assim – tinha mangueira, tinha coqueiro, tinha pé de romã e um pé de acerola ruim e azeda como é a vida adulta às vezes. Tinha também um pé de seriguela das grandes, que eu comia ainda verde, com sal. Quando criança, eu não tinha tempo sobrando para deixar as coisas amadurecerem.

Neste alpendre, minha vó tinha um fogão à lenha, embora ela também tivesse um fogão a gás. E tinha duas cozinhas. Uma fora e outra dentro da casa. Talvez por ter duas cozinhas e dois fogões, nunca faltava comida na casa da minha vó. Nem faltava café, três garrafas viviam cheias, o tempo todo. E na geladeira tinha sempre Coca-Cola, que era o vício da minha avó, junto com o cigarro, a música brega, o sabonete Phebo, o baralho e um escudo no rosto. São poucas as memórias do rosto da minha avó sorrindo. Meu avô ria mais, mas ele é homem, tinha mais motivos. Porém, eu lembro de uma vez que minha vó riu muito, riu tanto que fez xixi na roupa. Literalmente. Era São João, fizemos uma fogueira do lado de fora da casa. Não lembro como começou a risadaria. Lembro do fogo, lembro da risada e lembro do xixi. E lembro de amar a cena inteira, tanto que Junho é um dos meus meses preferidos até hoje.

A coisa que eu mais gostava naquele lugar, além da comida, era a roseira que dava rosa cor-de-rosa no fundo do quintal. Certo dia minha tia disse que viu uma alma lá. A alma de uma prima minha que tinha morrido anos antes. Eu achava a roseira linda na luz do dia, mas como eu tinha medo de alma, eu não gostava da roseira de noite. Uma vez minha vó colocou um copo cheio de água do lado da roseira porque minha tia disse que minha prima tinha dito a ela, num sonho, que estava com sede. Na manhã seguinte, o copo de água que minha vó colocou no pé da roseira amanheceu vazio. Se foi a alma da minha prima que bebeu, se foi o cachorro, ou se foi o vento que derrubou, só Deus e – talvez – o cachorro sabem.

Foi no alpendre da casa da minha avó que eu aprendi a voar. Na rede da varanda mesmo, fechava os olhos e voava e o céu tinha cheiro de tangerina. Eu voava de tarde na rede, depois de colocar uma colher de óleo de cozinha no armador. Tinha que fazer isso porque o balanço fazia um barulho ainda mais alto do que o ronco do meu avô no cochilo vespertino, depois de comer carne cozida no almoço e assistir Barra Pesada. Era. Muito. Alto. O. Ronco.

O céu no quintal da minha avó era grande, vários palmos de céu, e eu só não media tudo porque uma parte pequena do céu era coberta pelas folhas das mangueiras. E outra parte, nem tão pequena, era coberta pelo meu medo de que um dia eu não tivesse mais aquele pedaço de mundo para fugir. Era pra lá que eu ia para escapar da dor que nos aflige aos 7 anos: o medo de um dia não ter mais vó, que não sorria muito, mas era minha vó. Uma perda que só se concretizou 11 anos e uma coleção de outros medos depois.

Fora isso, a vida era boa, tão boa quanto pode ser aos 7 anos. Tinha muito primo, tinha galinha e pato no quintal, tinha baião de dois pra o almoço, tinha mesa grande, tinha a casa e colo da minha mãe para voltar depois da tarde na casa da avó.

Naquela época, já existia presidente do Brasil, prefeitos, vereadores, essas coisas, mas eu não sabia o nome e pouco me importava. Naquela idade, minha mãe, minha avó e as professoras eram as únicas autoridades que realmente faziam alguma diferença na minha vida. E, a julgar pela vida que eu levava, essas autoridades faziam um ótimo trabalho.

Hoje, longe de casa, e mais longe ainda de mim aos 7 anos, com tanta autoridade que eu odeio fazendo diferença na minha vida todo dia, sinto saudade de ter medo só de alma penada e até de ter medo de perder minha vó, porque ter medo de perdê-la quer dizer que eu a tinha. Sinto saudade da vida governada por vó e mãe. Saudade de voar de rede, de medir o céu a palmos. Saudade do meu pedaço de mundo, do Brasil avarandado que cabia naquele quintal.

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Lorena Portela é jornalista e redatora. É cearense, como Belchior. Viveu em Lisboa, terra de Fernando Pessoa, por quatro anos e hoje mora em Londres, cidade de Virginia Woolf.

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