Alpendre Crônica

Duas crônicas de Luciano Leite de Castro

Foto: Tim Samuel / Pexels

A falta que o frio na barriga faz

Nem tirava a remela antes de ver sua mensagem. Na verdade, eu nem me despedia, porque depois do ‘’boa noite’’, eu ainda sonhava contigo. Você era sonho e realidade. Era a certeza mais absoluta que eu tinha. Estava convicto. Hoje é lembrança e olhe lá.

Saudade da falta de vontade de querer saber e dimensionar. Porque a gente tá ocupado demais vivendo e não faz sentido nenhum parar pra pensar. O amor ocupa todas as vias e é gostoso demais. A gente se acostuma tanto com o mel na boca que se esquece da escassez. Pior é quando ela vem.

Daí em diante, não há remédio. Não logo. Não há chocolate que supra. A boca tem memórias que o cérebro desconhece. Sabe que vai passar, sim. Sabe que talvez possa demorar. É que o mel antigo era doce demais, e raro.

É que era montanha-russa todo dia e hoje é só estrada esburacada. Além do mel, tinha o frio na barriga que lembrava que é bom viver. Agora é nenhum e nem outro. Eu sei, vai passar. Mas pode ser que demore e minha boca não sabe lidar, ainda, com a falta do mel.

Luciano Leite de Castro, 16.02.2021

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Eu não falo ‘’te amo’’ embriagado

Eu não falo ‘’eu te amo’’ embriagado. Não mais. Já falei. Hoje é diferente. Não que não haja beleza em dizer desse modo. A questão não é essa. É que, por aqui, “eu te amo” deixou de exigir estado prévio. A coragem de dizer não me cobra mais certa falta lucidez. É aí que mora o xis da questão.

Um dia eu li, num relato sobre paternidade, que dizer ‘’eu te amo’’ não tem nada a ver com reciprocidade. Pelo menos não deveria. Isso porque, em seu texto, o autor relata que sempre dizia “eu te amo” para seu filho na esperança de ouvir o mesmo. Não ouvia. E isso doeu mais quando seu filho, numa ligação por telefone com a mãe, disse na despedida: “também te amo, mamãe”. Aquilo doeu no pai e eu, que não tenho filhos, me compadeci com sua angústia. Ele diz que amar exige coragem, principalmente devido ao risco do sentimento ir e não voltar.

Pra ser sincero, esse foi um dos textos mais lindos que já li. Eu releio-o sempre que posso. Sou do time dos sensíveis, e textos assim fazem os sentidores permanecerem vivos. E então, inspirado pelo texto e por todo o sentimento vivido, eu disse “eu te amo”. Subitamente. Alto, forte e convicto.

Eu já disse ‘’eu te amo’’ antes e ainda vou dizer alguns. Todos em circunstâncias diferentes. Mas acho que nunca estive tão sóbrio como naquele momento. Não sei se há mais valor nisso, mas pra um boêmio, estar sóbrio num momento tão importante deveria ser considerado um ato revolucionário. Tomara que, pelo menos em algumas das próximas vezes, eu esteja bêbado junto com você. Mas, lembre-se, da primeira vez eu estava sóbrio.

Luciano Leite de Castro, 25.01.2021.

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Luciano Leite de Castro é goiano de nascença e tocantinense de criação. É concludente do curso de Odontologia em Minas Gerais e defensor da diversidade brasileira como nossa principal riqueza, e no poder da leitura para sanar as desigualdades. Escreve para desafogar e se conectar.

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