Colaboradores Stéfany Caldas

A falta que a festa faz

O ‘Homem da Meia Noite’, um dos símbolos do carnaval pernambucano, passeando sozinho pelas ladeiras de Olinda, 2021. Foto: Ivanildo Machado / Reprodução.

Por Stéfany Caldas – 03/03/2021

Assim como nos versos iniciais da canção de Geraldo Azevedo, fevereiro chegou, e teve a ver com saudades, com risos e choros e noites que pareciam dias. Chorando e cantando. Nesse compasso a gente atravessou o mês, com a nova leva de lives de artistas que, não fossem os tempos de pandemia, se apresentariam no mesmo espaço físico em que a gente nos festejos. Junto de tudo isso, a nossa torcida contínua pela chegada de vacinas.

Compartilhamos fotografias, registros e lembranças. Se você, que nem eu, é encantado pelo clima carnavalesco, provavelmente sentiu saudade de ocupar as ruas, elaborar fantasias, viajar e desfilar em bloquinhos pelos mágicos dias que compõem o feriado. Durante esse mesmo período cheio de nostalgia, havia espaço para discussões acaloradas sobre a relevância da data. Para alguns, surgia a pergunta: afinal, carnaval importa?

Escrevi ainda no feriado, e aqui reforço: o carnaval é a metáfora dos encontros. A saudade do carnaval é a saudade de ser feliz. De ser bonita com muitas cores, brilho e glitter. De sair na rua com roupas que tradicionalmente não fariam sentido. De paquerar e ser paquerado. De dançar músicas novas e antigas e viver a cidade, a pé, nos circuitos, de um jeito que a gente não vive ao longo do ano, quando o olhar é treinado em cumprir prazos e horários.

Não só isso. Estamos falando da possibilidade do ócio em si. Do ócio sem culpa de não ser usado para a produtividade. A gente não descansa vendo um filme, assistindo uma série ou fazendo um curso que no fundo, é mais material pra trabalho. Nestes quatro dias, ainda que você escolha não cair na folia, vive um hiato. Uma pausa. E não há culpa nisso.

Não tivemos festas juninas. Não tivemos Natal, nem Ano Novo. Nem Carnaval. A questão aqui não é a data, mas a simbologia da reunião, do afago, do estar perto de várias pessoas conhecidas ou não sem medo de que ao respirarmos próximos, estejamos nos expondo a algum vírus. O adiamento da alegria e da sociabilidade. Em nome de quê? De um isolamento flexibilizado que não dá conta da urgência da situação.

Disse Paulo Freire que “é preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera”.

Nós estamos nos resguardando em nome de uma situação imediata, mas, não podemos esquecer que pra que tudo ocorra bem, os nossos representantes, aqueles que a maioria elegeu, precisam cumprir as tarefas as quais foram designados. Celeridade nas vacinas, volta do auxílio emergencial, controle do isolamento social. Pra que a vida siga, é preciso responsabilidade e comprometimento. E aí, como canta Geraldo, que a chama continue e que o fogo possa deixar semente.

***

.

Stéfany Caldas é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Especialista em Assessoria de Comunicação e Marketing pelo Cesmac. É alagoana, feminista e cheia de interesse por esportes, natureza, música e gente!

%d blogueiros gostam disto: