Colaboradores Glória Damasceno

Cansada porque muito conectada

Foto: Glória Damasceno / Arquivo Pessoal.

Por Glória Damasceno – 01/03/2021

Aposto a “Trilogia do Adeus”, de João Anzanello Carrascoza, que eu fui uma das primeiras criaturas a ter um perfil no finado Orkut lá em meados de 2004 — ano em que esta rede social nasceu, e com ela toda uma era na qual estamos absurdamente imersos. Minha aposta poderia ser feita, aliás, por quase todo mundo que me conhece e tem me “seguido”, porque, sim, eu era (sou ainda?) senão das mais ativas desde sempre, ao menos a mais ativa para muitos “perfis” de amigos, nem tão amigos assim, e por aí a se enveredar no sistema classificatório de usuários do Faz de Conta Que A Minha Vida É Melhor Que A Sua.

Acabei de fazer as contas: são 17 anos “online”, alguns dias mais, outros mais ainda, expondo minha vida privada, editada e nem sempre tão interessante assim. Dezessete anos compartilhando os causos do dia-a-dia, as reportagens que li e achei que todo mundo deveria ler e/ou poderia se interessar pela leitura, e as crônicas que me arrebataram o coração, e as opiniões da minha timeline, e as fotografias que eu julguei boas suficientes para publicar, e os milhares de memes maravilhosos, e as músicas que mais amo na vida, e os trabalhos artísticos de gente que eu admiro, mas também dividindo ali minhas próprias opiniões sobre coisas que vão do arroz por cima do feijão ou feijão por cima do arroz (?) até se rolou pedalada na democracia brasileira sim ou com certeza.

Confesso que em se tratando de mim, rede social foi só um amplificador deveras potente deste poço de comunicatividade chamado “eu mesma”, embora as coisas estejam mudando um bocado nesse sentido e por isso há um mês eu me “desativei” desse mundo hiperconectado e ao mesmo tempo bastante desconectado da vida no agora, da vida no presente, da vida presente, que é a que temos e já não temos mais no minuto transcorrido.

O meu silenciamento não foi absoluto, mas ter deletado a minha conta no Facebook em outubro de 2020 e ter desativado o meu perfil no Instagram no finalzinho de janeiro passado foi uma experiência muito positiva com seus poréns, porque há conteúdos que você só lê ali, no Instagram, porque há acontecimentos na vida dos seus amigos que você só ficará por dentro se estiver online, e não estando por lá, se souber, saberá com atraso; porque você não tem como enviar stories instantâneos por mensagem de texto, porque há alegrias que você quer, sim, compartilhar com todo mundo e porque você acaba se isolando bastante em tempos de rede social, o que não me parece uma má ideia por um tempo.

A primeira semana sem estar online, cotidianamente, atualizando a sua timeline o tempo todo, é um teste de fogo, um tanque de gasolina a mais na sua ansiedade, porque leva tempo, né, até seu corpo entender que não terá mais notificações para responder a cada 30 minutos, uma hora. A vida aparentemente se torna mais entediante, como se não houvesse livros incríveis para se debruçar sobre; documentários, filmes, uma conversa olho no olho, uma estaca de gelo caindo do lado de fora. Parece que não tem nada de interessante rolando fora daquela tela filtrada, e o automatismo dos dedos torna o que era algo corriqueiro e sem maiores emoções, um movimento irritante: de novo, pela enésima vez, lá vai você abrir o aplicativo. A boa notícia é que isso são “obstáculos” dos primeiros dias, para além das dezenas de desculpas que você arruma para reativar o seu perfil. Tudo isso passa e com o passar dos dias você vai reeducando seus dedos, sua mente e de repente descobre que a sua vida sem uma notificação atrás da outra é possível e faz bem.

Se não fosse a distância geográfica, e que não diz respeito apenas à continental, porque eu poderia estar em Alagoas e mesmo assim distante dos meus amigos estimadíssimos, eu não teria voltado ao convívio virtual agora. Mas por eles, e pelas mentes pensantes que eu sigo– dentre elas meus próprios amigos, voltei com a missão de passar menos tempo conectada e com a sensação de que qualquer hora dessas nem mesmo eles me farão ficar.

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Autora de textões, textinhos e 30 anos de dor & glória. Dentre as glorices, a Graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o atemporal Vidas Anônimas (blog), e a transformadora Educação Emocional e Social.

Ama um reboliço, um café com leite, a cor vermelha e livros, muitos livros lidos!, decorando a casa!

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